Literatura, Educação e um pouco de Novo Ensino Médio

quadronegro_globomundiA política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa.

Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes.”

(Winston Churchill)

Hoje vou usar a liberdade de criação para o texto desta coluna.

Iria, num primeiro momento, me abster de fazer qualquer declaração que envolvesse o Novo Ensino Médio. Ao mesmo tempo é impossível ficar complacente com tudo que estão querendo colocar goela abaixo. Aqui vou primar pela experiência de professor que tenho munida à experiência junto aos alunos, envolvidos prematuramente em decisões que deveriam ser feitas mais para frente, ou que minimamente pudessem experimentar mais, serem mais dotados de autoconhecimento.

Essa é uma reforma para o Ensino Médio. Querem que o estudante fique mais tempo na escola. Passariam das atuais 800 horas por ano para 1000 horas. A conta é simples: 200 dias letivos (mínimo, pois um ano escolar se fecha sempre com um pouco mais, com 204, 205 dias ou até um pouco mais do que isso e há projetos querendo estender para 220, findando assim as férias do meio do ano) x 4 horas por dia dariam as 800. Para chegar a 1000 num primeiro estágio da mudança, incluiriam mais 1 hora por dia totalizando cinco horas diárias. Mas a ideia é chegar a 1400 horas, ou seja, sete horas diárias.

ensino-medio-sala-de-aulaAo mesmo tempo querem setorizar as áreas de conhecimento, dividindo-as em modalidades de aptidão. É neste primeiro escalonamento de áreas (e diz-se pelas entrelinhas, escalonamento de importâncias) que reside a minha preocupação. Com o Novo Ensino Médio, figuram matérias consideradas primordiais e outras que passam a ser vistas como optativas.

Com propaganda massiva, o governo afirma que desta maneira os alunos estudariam as matérias pelas áreas afins e que tal traria mais facilidade para decisão de emprego, de futuro. De uma maneira racionalista, sim. Porém, aí que reside a minha pergunta: QUE ESTUDANTE COM SEUS 15 ANOS TEM PLENA CERTEZA DO QUE QUER PARA A VIDA?

Eu mesmo. Desde que me entendo por gente, eu sou do desenho. Desenhava constantemente. Era mais do que um hobby, era meu dom. Dom este que hoje em dia não domino mais. O desenho hoje está aqui, nestas palavras. Amo desenhar com as palavras. E até eu entender essa sinestesia, eu levei muito tempo.

Por causa do desenho, jurava que seria Desenhista Industrial. Primeiro caminhei pelos quadrinhos, roteirizei, fiz arte final, cheguei a ter como meu primeiro emprego um trabalho, aos quinze anos, em uma minúscula editora de quadrinhos. Inclusive, traduzi aquela história e outras para o Inglês.

Quando estive em meu Ensino Médio – em uma escola que voltava seu currículo para os vestibulares, outra bizarrice de nosso sistema educacional – vi que eu deveria saber, pelas chamadas matérias específicas, muita Matemática, Física, História. Tive a primeira grande frustração da minha vida: não havia nada que me fizesse entender as ditas matérias da área de Exatas. Safei-me por ter boa memória. Vivi a decoreba camufladora das incapacidades. Não era o mesmo com História, Gramática, Literatura, Língua Inglesa. Diga-se, como eu amava o Inglês! Fruto de minha escola de Ensino Fundamental, que ministrava esse conteúdo. Sim, matéria obrigatória de nosso currículo. Para mim, foi a redenção. Descobrir a língua estrangeira foi me descobrir.

No entanto, eu sei que sou um caso em particular. Muitos não têm essa sorte de logo perceber do que gostam. Meus alunos, quando já no segundo ano do Ensino Médio, vêm com sua Inquisição, perguntando o que devem fazer da vida. Sei que o mais incauto dos leitores logo vai afirmar sobre o teste vocacional. Comigo ele gloriosamente não funcionou. Com muitos outros também. Jogar essa responsabilidade no colo dos jovens assim tão prematuramente é de uma irresponsabilidade tremenda. Balizada pelo sistema educacional que hoje temos.

Posso aqui, por exemplo, discorrer sobre todo o Sistema Educacional Brasileiro. Na mão de grupos educacionais que mais se preocupam em produzir números e estatísticas, claro que farão desta mudança uma nova forma de arrecadação. Utopia pensar em uma mudança ainda mais profunda. Esta coluna não serve a isso.

Ela está a serviço da arte como um todo. Não somente da escrita. Em meu texto sobre a série Black Mirror, afirmei que a literatura é a primeira forma da arte, pois onde há a ideia, há a palavra.

Hoje eu assisti ao último documentário de Michael Moore, “Where to invade next?“. Em sua peculiar busca por políticas que poderiam resolver problemas dos norte-americanos. Ali me deparei com o sistema educacional da Finlândia. Quatro horas diárias e sem provas de ranqueamento (tanto dos alunos, quanto das escolas). Lá não existem escolas distintas e são todas públicas. O filho do mais rico estuda na mesma escola do filho do mais pobre.

Pronto, mudei o assunto da coluna, precisava escrever sobre esta questão.

Alimenta-me também o texto a reportagem de semana passada em O Globo. Vemos um recuo no consumo de livros ao mesmo tempo em que há uma infinidade de novos autores. Não me preocupa a quantidade de novos autores. Há muita gente fera surgindo com bons livros. 2016 foi um ano de crise financeira em que até o volume de bens alimentícios sofreu redução de consumo. Obviamente que livros ficariam à margem da necessidade.

Há uma juventude que não se apega à poesia e ao romance produzido nas terras tupiniquins. Os jovens que há uma década e meia se viram lendo Harry Potter, redescobriram Lewis e Tolkien e criaram uma infinidade de funfics nas várias comunidades literárias que hoje existem (é uma loucura tentar acompanhá-las), que até caminhou para Eduardo Spohr e seu “Batalha do Apocalipse” (que ainda não o li, mas está na listinha dos livros de 2017), não chegaram em sua grande maioria aos autores brasileiros clássicos e aos que hoje se avolumam.

Uma vez ouvi de um grande autor brasileiro, reverberado até por outros autores nacionais, que a atual geração não lê os seus contemporâneos. Tudo bem que Raphael Montes, Draccon, André Vianco seguem no caminho inverso desta perspectiva. Voltando à realidade de sala de aula, do Ensino Médio e das escolas, a literatura como um todo não é estimulada. Trago aqui as palavras de Marco Simas, escritor também deste nosso portal, logo após uma palestra em uma das escolas em que trabalho em Macaé, no interior do Rio:

“Os alunos me disseram que nunca tinham visto um escritor vivo. Pensavam que escritor bom é escritor morto.”

E isto me veio até como crítica, muito bem aceita, claro, por eu não divulgar aos meus alunos que sou escritor. Juro, não faço propaganda de meu livro em sala. Acalenta-me quando descoberto, obviamente. Mas não saio panfletando meu livro.

Surgem aí os alunos. Alimentados por um currículo que se volta aos números e resultados em concursos, com professores de literatura sufocados em torno de um conteúdo programático que mais particulariza a evolução histórica da arte literária ao invés da descoberta da escrita pela leitura, esses não encontram o estímulo dentro do sistema educacional. E é neste que agora mexem com o intuito de muito mais sacramentar os jovens em mão de obra do que real pensador de sua realidade. A soma destes fatores muito me deixa assustado, como professor, como escritor e primordialmente como ser humano. Raras são as escolas que fogem desse teor minimalista e recrudescedor do currículo educacional brasileiro.

Mas existe a Finlândia. Como eu vi no filme de Moore.

Lutar por um mundo em que o estímulo à leitura de livros literários além do círculo best-seller parece cada vez mais distante. Foucault uma vez afirmou que “todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo.” Somada à citação de Churchill que inicia este texto, há muito para se insurgir contra um sistema que vai instrumentar cada vez mais a imbecilização de nossos alunos e tirá-los do caminho da autonomia e do poder verdadeiro de escolha.

Há grupos de professores e alunos já lutando contra tal. Posicionar-se se torna fundamental neste momento.

Hora de ler tudo o que puder neste mundo de eternas palavras. O que está escrito sacramenta o que é a verdade. Espera-se que ela venha para o bem coletivo e justo no final das contas.


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Author

Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.
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