Estética, mímesis, ética e economia: parâmetros essenciais de um Ser (real ou supostamente) Coletivo

A arte existe porque a vida não basta.

Ferreira Gullar (1930-2016), escritor brasileiro

Consultando o Dicionário Houaiss, podemos observar que o conceito de mímese (ou mimese ou mimése) está relacionado com a figura em que o orador, usando discurso direto, imita outrem, na voz, no estilo ou nos gestos; na literatura, mímese é uma recriação da realidade, a partir de recursos platônicos, segundo os quais o artista, ao dar forma à matéria, imita o mundo das ideias. Mimético é o imitador, aquele que tem talento para imitar. Na Filosofia, Estética é o estudo, originariamente, das formas de arte e dos processos de produção dos objetos artísticos, além das relações sociais envolvidas no mundo das artes e da cultura. Há outros significados, mas esta linha de pensamento é que nos interessa, aqui.

A origem da palavra arte vem do Grego Antigo “aisthesis” que muitos traduzem por “percepção”, sendo um objeto artístico, uma criação humana apreendida pelos sentidos. Ou seja, desta perspectiva, o estudo da arte, filosoficamente falando, da estética, é um dos fundamentos para a compreensão da criatividade humana, expressada no objeto artístico, seja ele qual for. Pensando deste modo, os espaços humanos de vivência, sendo uma criação humana, podem, também eles, serem definidos como objetos artísticos e, como tais, passíveis de apreensão, não só, mas também, do ponto de vista estético. Nosso Espaço Geográfico é uma obra de arte; tem sido maltratada, mas é um objeto artístico, deste ponto de vista.

Para o crítico literário Luís Costa Lima (2000: p.32), quem mais defendeu o conceito de mímesis, nas artes, foi Aristóteles, embora este último não tenha, no entender de Lima, chegado a definir o que entendia pelo conceito; tudo o que Aristóteles fez teria sido definir o seu “raio de ação”, que abrangeria a arte sem se confundir com ela. Para Costa Lima, pensar na mímesis é pensar que “a aprendizagem da vida supõe mais do que a habilidade técnica e a competência conceitual” (Lima, 2000: p.33). Para Aristóteles (Apud Lima, 2000, p.34), a mímesis seria “um ato de adequação ou correspondência entre a imagem produzida e algo anterior (…) que a guia”, mas teria um acentuado grau de liberdade em relação a este algo anterior, tanto pelo que foi feito quanto pela causalidade. O professor Lima (2000) nos mostra que Platão dizia que quem faz cópia não é artista; no máximo, é um bom artesão. A cópia não educaria, no entender de Platão, pois não divinizaria o homem e deste modo, o filósofo grego criticava a ideia de mímesis.

Arte pode divertir, apenas, ou deve, também, educar? O elemento cômico, afirmava o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941), nasceu para corrigir a realidade humana, ou seja, a comédia teria sido criada com uma função pedagógica, no que assemelha sua definição, a de Platão. A arte existiria, isto posto, como uma forma de catarse, tornando-se, assim, a comédia, também um tipo de arte, não obstante outros pensadores, como Hegel (1770-1831), além dos filósofos escolásticos, desta maneira não pensassem e “culpassem” a comédia como uma espécie de corrupção da arte, posto que, para eles, o riso quebraria regras e, com isso, a ordem, tão cara aos gregos e aos escolásticos medievais, seria rompida. A tragédia e a comédia têm em comum a catarse, vale a lembrança.

O que mais importa: o objeto artístico ou o a linguagem artística utilizada? Em Platão, a arte tem que ter, obrigatoriamente, como mostrou o professor Costa Lima, uma dimensão pedagógica e essa seria a excelência da arte. A normatividade, nesta visão, é pedagógica. Mas há quem entenda arte como não normativa, ou não apenas deste modo. Picasso, por exemplo, procurou em suas “fases”, fugir de si mesmo e de seus próprios padrões; buscava, o pintor, não normatizações, mas uma desordem criativa, como a denominava. Para outros pensadores, como o filósofo escolástico e teólogo São Tomás de Aquino (1225-1274), a arte só faria sentido enquanto expressão da verdade de Deus e só assim um objetivo artístico seria belo, porque, em concepções como esta, o belo é o bom, o bom é o absoluto e o absoluto é Deus. Aliás, é uma concepção parecida com a de Hegel, posto que este último buscava o universal e o todo absoluto, que seria o Estado, na Terra, e Deus, no céu, o Universo. Para o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), belo é que proporciona prazer ao ser.  A arte, de todo modo, qualquer que seja a razão ou a emoção de quem a analisa, é um importante método perceptivo do mundo. A arte enleva, envolve e extasia e, por esta razão, tal como afirmava Ferreira Gullar, é essencial para a vida, que para ser vivia com alegria e prazer, a humana, ao menos, não se basta sem que dela extraímos o sumo vital do próprio viver. A Arte faz isso pra gente.

LIMA, Luiz Costa. Mímesis: desafio ao pensamento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000

Carlos Fernando Galvão, Geógrafo e Pós Doutor em Geografia Humana, cfgalvao@terra.com.br

 

 


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Carlos Fernando Galvão
Carlos Fernando Galvão é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 120 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil (atual colaboração), também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Além deste, o autor publicou outros 9 livros, textos acadêmicos e literários.

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