
Com Ana Gosling

Foto: Arquivo pessoal da Autora
EMPATE
Não importa se somos bons, nossa alegria renasce em campeonato mundial.
A Copa do Mundo é pausa na vida imperfeita. Cultiva sonhos, dribla cenários adversos. Nota-se no barulho da torcida, na massa verde e amarela se movimentando rumo a um destino festivo. Em 2018, eu a vi ser alívio.
Mamãe fora transferida da UTI para a unidade semi-intensiva onde podíamos demorar-nos, receber visitas e ligar a tevê para assistir aos jogos da Copa. O longo corredor branco, iluminado, dia e noite, por luz elétrica, beirava todos os boxes. Alguns discretamente decorados de verde e amarelo; outros com fotografias na parede, sinalizando a internação prolongada, cheia de saudades.
Por não ter lembranças, mamãe não tinha saudades. Mas não ficava sozinha sem dar trabalho à enfermagem, por não reconhecer onde estava. Por isso, sempre havia um de nós a seu lado.
Nos jogos do Brasil, coube-me fazer-lhe companhia. Fiel ao meu espírito nesses dias, vesti camisa verde e amarela e pus em seu punho um bracelete elástico, com a bandeira do Brasil, abraçando os tubos de medicação. Se a Copa não para diante do infortúnio, minha torcida também não.
O paciente do box da frente tinha o espaço mais bem decorado. Vítima de um câncer ósseo avassalador, ele perdera dois braços e uma perna. Sua esperança de alta depositada no uso de uma câmara hiperbárica. A ex-mulher o visitava e caprichara nos enfeites para os jogos. Sozinho, como a maioria dos internados, me chamou para ligar sua tevê para ver a seleção.
Com as tevês em baixo volume, aguardamos o início do jogo. O pulsar contínuo dos aparelhos era mais alto do que a fala dos comentaristas.
Estávamos no primeiro box, ao lado da enfermagem, e, se o lance parecesse importante, pela vibração na narração, alguém vinha conferi-lo conosco. Ouviam-se, ao longe, reações tímidas pelo setor: um estalar de beiços, um muxoxo, um tapa na cama. As tevês formavam um coro, sintonizadas no mesmo canal.
Quando o gol do Brasil saiu, alguém gritou, quebrando a gravidade do ambiente. Levantei o braço de mamãe em comemoração. Nosso box foi invadido por médicos e enfermeiros em busca do replay. Por um momento, fomos torcida, ostentando sorrisos, oferecendo comentários pessoais aos não íntimos (“meu filho deve estar vibrando”; “marquei isso no bolão”). A Copa estancara a solidão, passeava entre nós com musiquinha comemorativa ao fundo, presenteava-nos com um pretexto para sorrir.
Minutos depois, o adversário empatou o jogo. Seguimos tensos até o fim da partida. No apito final, tudo voltaria a ser silêncio. Mamãe, vendo as pessoas em pé, pediu cadeiras para as visitas. Duas enfermeiras ficaram para trocar sua fralda. O paciente em frente aguardou sua vez, estampando no rosto a felicidade que o corpo, há muito, lhe negava.


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo















