As vinhetas da Rádio Globo e o escrete de ouro da locução esportiva

As vinhetas da Rádio Globo e o escrete de ouro da locução esportiva

Por Jorge Ventura

 

Houve um tempo em que a Rádio Globo do Rio de Janeiro liderava a audiência esportiva. Waldir Amaral comandava um verdadeiro escrete de ouro formado por grandes locutores, comentaristas, pontas e repórteres de campo. Entre os “craques” da emissora, estavam o próprio Waldir, Jorge Curi, José Carlos Araújo, Antônio Porto, Edson Mauro, João Saldanha, Luiz Mendes, Mário Vianna, Affonso Soares, Deni Menezes e Áureo Ameno. Com talento e ousadia, Waldir inovou no formato de locução. Ele dividiu a “latinha” (gíria para se referir ao microfone) com Jorge Curi na transmissão dos jogos principais, e reuniu, ainda, João Saldanha (como comentarista) e Mário Vianna (ex-árbitro de futebol) como comentarista de arbitragem.

Nessa época, lá pelos idos 1970, a Rádio Globo ainda contava, como pontas, com José Carlos Araújo e Antônio Porto, que, geralmente, narravam os jogos preliminares nas rodadas duplas, em alternância com os repórteres Deni Meneses e Áureo Ameno. Para quem não sabe, “ponta” era o profissional que ficava atrás da baliza para narrar o lance ou confirmar o nome do jogador autor do gol ou envolvido numa jogada polêmica.

Os patrocinadores, anunciantes tradicionais, tinham uma significativa importância durante as coberturas radiofônicas ou programas sobre futebol. Em sua maioria, essas empresas ofereciam prêmios aos jogadores (aos que se destacam nos clássicos) e também aos ouvintes participantes das campanhas promocionais.

No ramo da publicidade, os redatores das agências de propaganda eram criativos nos textos-foguetes (textos curtos narrados ao vivo), aliando os jargões e as gírias futebolísticas às características do produto ou serviço anunciado. Eu me lembro que a Brahma Chopp e a caderneta de poupança Delfim assinaram muitas dessas chamadas, durante os jogos. Uma delas era mais ou menos assim:

Pênalti não é coisa que se perca, dinheiro também não. Abra para você e sua família uma caderneta de poupança Delfim…

Os locutores liam, entre um lance e outro, esses textos-foguetes e batizavam o placar com o nome do anunciante. Um exemplo:

Aqui, no Maracanã, zero a zero no placar Brahma! Isso sem contar os bordões inesquecíveis, que eram uma forma persuasiva de se comunicar com o público. O relógio maaaarca! (Waldir Amaral), Anotem tempo e placar! (Jorge Curi), Atenção para os números do espetáculo! (Antônio Porto), Marqueeee o teeeemppo! (Edson Mauro).

Esses e outros bordões citados ficaram famosos nas transmissões da Rádio Globo, sob o comando de Waldir Amaral. Era a época das vinhetas com reverberação que destacavam os principais times do futebol carioca: Flamengoooo! Flumineeeense! Vascoooo! Botafogooo! Américaaa! (sim, leitor(a), o América já foi um grande clube).

Quando eu era criança e jogava botão com os amigos, adorava ouvir essas vinhetas e, um dia, inventei de reproduzi-las à moda caseira. O “Jorginho” pegava o seu gravador mono, que havia ganhado no Natal, e se trancava no banheiro – era o único local que poderia fazer um eco parecido – para bradar os nomes dos clubes. O resultado não era lá essas coisas, mas eu tocava “minhas vinhetas” para todo mundo ouvir nas competições de futebol de mesa. Era uma curtição!

Mas a história da criação dessas vinhetas sonoras é curiosa. Em 1969, o músico paraguaio Fábio Rolón, muito amigo do cantor brasileiro Tim Maia, havia lançado a música Stella, pela rádio carioca concorrente, a Rádio Tamoio. No refrão da música, havia um efeito sonoro com o eco, criado pelo produtor Mazola, na palavra Stella. A reverberação “Steeeella” chamou a atenção do diretor geral da Rádio Globo, Mário Luiz.

Segundo o cantor, o diretor não queria executar a canção em razão da concorrência, mas o sucesso de Stella foi tão expressivo que Mário Luiz acabou aceitando executá-la também na Globo. Entretanto, como moeda de troca, ele pediu a Fábio que gravasse vinhetas institucionais – o nome da rádio e de clubes de futebol, inicialmente, apenas os do Rio de Janeiro e, depois, os mais populares do país. Anos seguintes, o cantor Fábio entrou na justiça reivindicando os direitos autorais das vinhetas pelo uso de sua voz no efeito sonoro. A Rádio Globo foi obrigada a regravar as vinhetas. Porém, isso é outro assunto para outro artigo.

No caso, a vinheta Brasil-il-il tem uma história de final feliz. Waldir Amaral, que trabalhava na Rádio Globo desde 1968, juntamente com o diretor geral Mário Luiz, buscava criar uma maneira de dinamizar as transmissões durante a Copa do Mundo de 1970. Teve a ideia de chamar o locutor Edmo Zarife, de voz muito grave e marcante, e o técnico de som José Cláudio Barbedo (cujo apelido era Formiga) para desenvolverem uma vinheta que fosse uma espécie de “grito de guerra” para levar a Seleção Brasileira, tão desacreditada na ocasião, à frente. A vinheta, finalmente, foi produzida e se transformou em um estrondoso sucesso, chegando a ser utilizada, mais tarde, pela TV Globo. Edmo Zarife ganhou ainda mais prestígio e se tornou a voz-padrão das chamadas e vinheta institucionais da “casa”.

Das boas lembranças que trazemos de nossa infância, ficam também as musiquinhas (chamadas) que anunciavam os locutores e seus bordões maravilhosos no instante mágico do gol.

(Jo-sé-Carlos-Araújo!) … Sou eu! A bola vai entrando, entrando… entrou! Golão! Golão! Golão! Rô…Rô… Roberto Dinamiteee!

(Waldiiiir A-ma-ral!) Deixa comigo! Você, ouvinte, é a nossa meta! Foi pensando em você que procuramos fazer o melhor! Lá vem Zico e é goooolll! Indivíduo competente é o Zico! 10 é a camisa dele! Tem peixe na rede de Mazzaropi!

(Jor-ge Curi!)… Dá-lhe garoootooo! Correu, atirou … é golaço! Gooooolll … aço! Aço! Aço! Rrrrri-veee-liiii-no! Camisa número 10!

 

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

 

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

BONUS:

 

 

 

 

 

 

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SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

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