Ver e Rever amigos

Coluna de Márcio Calixto

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Ver e Rever amigos

por Márcio Calixto

Fui a um encontro com Daiana.

Éramos para ser Daiana e Simone na mesa, mas um cano estourado por um pedreiro fez com que Simone não pudesse nos encontrar. Havíamos tentado pelo menos umas três vezes nos rever, as datas não coincidiam, os desejos sim, tornou-se fundamental todo o esforço para que nos revíssemos.

Pensei, preciso ir de moto. A minha Kansas ficou meio que esquecida em uma parte do estacionamento aqui do prédio. Por causa da Pedestre Premium (a nossa motinha elétrica), eu meio que não a usava. Nem aquele esforço para ir ligá-la eu fazia. A bateria foi pro beleléu, depois o carburador deu pau, entupimento no sistema de alimentação, tornou-se fundamental o esforço para que ela, a moto, também recebesse sua revisão.

Foi o que eu fiz, levei-a no mecânico, que soube direitinho entender o que a moto realmente estava precisando. Dois dias de esforço ao conserto e voilá, ela estava de volta ao desejo de se fazer à estrada. Dessa vez o local de nosso encontro seria Niterói. Um pouco de história, Eu, Simone e Daiana somos amigos da época da faculdade. Para aqueles que me leem, ela é a mesma Daiana que citei em outras duas crônicas aqui na coluna, em que falei do meu grupo da UERJ. Vemo-nos como irmãos, como irmãos peripatéticos, nome que nos demos principalmente depois que assistimos em conjunto uma série chamada Merli, que fez com que chorássemos horrores. Pensando bem, tornou-se fundamental também rever a série, que não sei mais em que plataforma se encontra.

Não ter Simone à mesa conosco foi uma breve dor. Fazendo o exercício de relembrança, a última vez em que nos vimos fora o aniversário de meu mais novo, o Théo, que por sua pouca idade e o desejo de sua mãe em fazer festas, essas festas se tornaram ponto de encontro. Ela, em si, é um exemplo disso, nesse período de recesso de meio de ano dado aos alunos e professores, ela fez todo o esforço para rever quase todos os grupos de amigos que ela tem. Nisso, não posso deixar de mencioná-la, Juliana, a magnética, sabe cuidar bem dos seus amigos. Tornaram-se meus amigos também, pelo poder gregário e familiar que Juliana possui. Eu tenho um grupo bem mais restrito de amigos. Muito mais mesmo. Ela também se apropriou deles, de alguma forma. Pensando bem, ela se tornou parte fundamental desse processo todo de ver e rever amigos.

A todo momento, de alguma forma, vejo que o desejo de ver e rever tem se tornado uma máxima desse ano. O aniversário de minha mãe, em abril deste ano, me ligou um alerta meio que distópico. Desde a morte de minha avó que essa parte da família não se via. Nós, que tínhamos um desejo constante de ir à casa de minha avó, de alguma forma lá fazermos uma festinha ou outra, como forma de incluí-la, de fazer a casa ficar mais cheia. Tirávamos fotos, aquelas em que colocávamos todos os filhos, netos e bisnetos unidos, ríamos, relembrávamos eventos naquele espaço, naquela casa de subúrbio, enorme, de rua, uma rua em que devíamos tomar todo o cuidado, pois já havia sido tomada pelo banditismo, pela violência. Chegávamos cedo, organizávamos tudo, curtíamos. Vô se foi. Depois Vó. Daí, foi-se tudo? Ficamos cinco anos sem nos rever. Cinco. Foi necessário o aniversário de 70 anos de minha mãe para que minimamente nos revíssemos? Eu vi isso como uma afronta, como um erro. Um erro meu. Eu, casado com uma mulher de magnetismos absurdos, não havia plenamente aprendido com ela. Eu e um primo criamos, de alguma forma, um motoclube com o nome da família, que irei apresentar a todos agora em Agosto de 26. Tudo como desculpa para que nos revejamos.

Fui ao encontro com Daiana.

Ela, em sua sensibilidade a toda prova, depois de tudo que conversávamos, em nossa pauta mais do que constante sobre felicidade e sentimentos sem rodeios, disse que nós podíamos ficar o tempo que fosse sem ver, mas o sentimento sempre seria o de que parecia que não nos víamos desde ontem. Concordo. Discordo. Há uma saudade que se alia muito mais ao desejo cotidiano de nos rever, temos também o desejo de um dia morarmos tão próximos, que cuidássemos um do outro. Um amigo mesmo, o Marcelo, casado com Raquel, me mandou uma mensagem por uma rede social de uma pesquisa sobre amigos que têm se movido para condomínios só pelo desejo de morarem próximos e que isso representaria um ganho de expectativa de vida. Dai e Simone também já me moveram a esse desejo, de morarmos em um mesmo local, em um mesmo terreno, para que cuidássemos um do outro nesse momento em que caminhamos para a terceira idade. Minha sogra já me apresentou a sua ideia sobre o Apocalipse, que aqui expus em uma crônica com o nome Projeto Apocalipse. O preço dos terrenos é que de alguma forma parece nos demover da ideia. No início desse ano, eu fui conhecer TIo Antônio, tio de meu pai, e meu pai não o conhece pessoalmente. Vejo que de alguma forma temos de colocar uma agenda que nos demova dos absurdos do capitalismo para que possamos ter amigos plenos. Falo isso até mesmo com o desejo de sempre estar com Paulo, Aline, Adolfo, Elaine, Fábio, Amanda, Henrique, Paloma, Giovanninha, meus pais, todos, que precisam também alucinadamente viverem suas vidas em nome de todas as imposições que a vida nos coloca e que de alguma forma isso nos afasta. Vamos nos afastando e aceitando esse afastamento como consequência de um universo de responsabilidades que nublam a perfilagem óbvia de nossa existência, que se dá pelo viés do cognitivo amoroso, do sentimento, do existir para rir. Do existir para ir.

E fui.

Subi na Kansas. Cruzei a ponte, olhando para o Rio de Janeiro e fui ao encontro de Daiana.

Ela tinha de trabalhar às duas da tarde. Foi até esse horário em que almoçamos. Depois subi na moto, dei uma volta pela cidade. Quis subir ao Parque da Cidade, fechado por causa da possibilidade de fortes ventanias, que haviam tomado o Rio no dia anterior. Ela mesma falou, “Cuidado com a ventania, parece que vai ser que nem a de ontem”. Não foi. Mas a revi. E esse reencontro varreu de vez a saudade que parecia mais do que cotidiana, era de vida.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

 

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Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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