
Coluna de Márcio Calixto

IArte – Chris Herrmann
UM BANHEIRO
Passamos por banheiros todo santo dia. Só que tenho percebido um processo particular de paixão súbita por um banheiro em especial. Não é o de minha casa, vítima de tantas intimidades. Nele, dou banho em meus filhos. A ele, tenho profundo respeito e gratidão. Penso até que ele possa ter algum ciúme depois do que vou escrever. É sobre outro banheiro.
Logo depois de Maio de 25, passei a dar aulas em uma escola do subúrbio chamada José Emygio. Ela compartilha espaço com a Charle Chaplin, que usa apenas um dos andares. A José Emygio usa o prédio inteiro e se prepara parar virar um ginásio experimental tecnológico. Salas perfeitas, espaços com o melhor aparato tecnológico aos alunos, obras feitas, paredes adesivadas. Nem todos os espaços são mexidos, e se tem algo que as escolas da prefeitura têm em comum é serem alojadas em espaços antigos, que precisam de profunda modernização. Não dá, obviamente, para se fazer em todas ao mesmo tempo.
Nesse processo, o banheiro dos funcionários ainda não foi o alvo do desejo de mudanças. É aqui que reside a sorte. É um vestuário, pequeno, mas aconchegante, que tem mexido com meus humores. Depois de uma manhã de aulas, ali reside o feliz. Sua pia é enorme. O espaço destinado ao chuveiro é regular e resoluto. O sanitário tem espaço próprio, dotado de porta e sinergia aos silêncios. Tem uma cadeira, que acredito existir exatamente para silenciar um minuto a mais de fôlego, próprio das consortes escolares. Logo depois do almoço, paro nesse oásis de retidão e distanciamento, perplexo e vazio, e olho pelo buraco dos pogobós o topo de algumas árvores que saboreiam alguma luz sibilante. Ha um brilho de levedura, um sossego salutar. Faço questão de levar ali uma caneca de café. Há conexão. Entrega. Alguma delícia ao desprendimento. Pena não poder me estender mais. Naquela varanda à intimidade, eu me pego sonhando feliz.
Passei pouco tempo nessa escola. Estava apenas cobrindo uma licença. Penso até em tirar foto do espaço, guardá-la à particular posteridade. Nada, porém, é melhor do que a memória, nenhuma foto a suplanta. Espero também que crie memórias a esse banheiro de que falo. Acredito, inclusive, que também tenha um banheiro de estimação.
Volto a ter coração onde também durmo tranquilamente.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

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