Troféu ARTE EM MOVIMENTO: Após lançamento de livro que mescla Literatura e Psicanálise, Renata Quiroga é uma das contempladas pelo prêmio

 

A escritora, poeta, psicóloga e psicanalista Renata Quiroga foi uma das contempladas pelo Prêmio ARTE EM MOVIMENTO 2025. Renata foi selecionada pela comissão julgadora da APPERJ, uma das entidades associadas ao Prêmio.

A entrega da premiação será realizada no próximo dia 5/11, na Taberna da Glória, às 17h.

A premiação celebra um trabalho originado de sua dissertação de mestrado que mescla literatura e psicanálise:

“Receber o Troféu Arte em Movimento é uma realização do meu trabalho de articulação entre a psicanálise e a literatura, expresso também no lançamento do meu recente livro Extravazo (Ventura Editora, 2025), extraído da minha dissertação Ex-Nihilo arte e psicanálise entre dois Quirogas, na qual trabalhei o conceito de sublimação. Esse troféu celebra não um ponto de chegada, mas o movimento contínuo de transformar o não dito em palavra, e palavra em arte”, explica Renata.

 

CONFIRA NOSSA ENTREVISTA COM A AUTORA

1. Renata, você acaba de ser contemplada com o Prêmio Arte em Movimento 2025. O que esse reconhecimento representa para você, especialmente por celebrar a interseção entre literatura e psicanálise?

Receber o Prêmio Arte em Movimento 2025 é uma espécie de confirmação de que o trabalho da palavra como lugar de encontro entre o inconsciente e a criação é algo possível e reconhecido no laço social. A interseção entre literatura e psicanálise é onde o indizível pode assumir certa corporeidade, como se o Real permitisse ser tocado pela poesia. Esse reconhecimento celebra não somente uma trajetória individual, mas o movimento coletivo de fazer da própria articulação entre psicanálise e literatura uma forma de arte.

2. Seu livro Extravazo nasce da dissertação Ex-Nihilo arte e psicanálise entre dois Quirogas. Como foi transformar um trabalho acadêmico em uma obra literária sensível e acessível ao público?

Para transformar a minha dissertação de mestrado  Ex-Nihilo arte e psicanálise entre dois Quirogas em Extravazo, como toda adaptação entre estilos, foram necessários ajustes técnicos na dimensão dos textos e até mesmo em certas nomenclaturas técnicas para a obra ficar mais confortável aos olhos dos leitores em geral. Além da questão formal, acredito que o caminho da transformação já começou com a própria dissertação, sendo esta uma necessidade de fazer um gesto de travessia das interrogações que eu tinha sobre as bordas da sublimação e, principalmente, como esse circuito poderia se estampar na obra dos autores estudados, Marcus Vinicius Quiroga e Miguel de Cervantes. A passagem da escrita acadêmica para a obra Extravazo talvez tenha sido, então, o desejo de entregar para o ambiente externo as hipóteses teóricas com ritmo literário e linguagem viva.

3. A ideia de “criar a partir do nada” e de extravasar emoções é central em sua obra. Como a psicanálise contribui para esse processo criativo e simbólico?

A psicanálise se aproxima da arte desde sempre, Freud abasteceu seu corpo teórico de inúmeras referências literárias, a exemplo do método catártico, que ele utilizou antes da práxis psicanalítica, extraído dos espaços teatrais com Aristóteles na Grécia antiga que ritualizavam de forma vicária sentimentos de terror para atingirem a purificação. Dessa forma, podemos perceber a intrínseca relação entre arte e psicanálise, quer seja na mera influência ilustrativa da primeira pela segunda, quer seja no uso mais objetivo que a palavra, instrumento de ambas, possa ser utilizada como indutora de novos conceitos para produzir transformação nas modalidades de sofrimento do sujeito, apontando para um certo entendimento freudiano de que a arte pode ser percebida como uma forma de psicopatologia do futuro. A psicanálise não visa nenhuma espécie de limpeza ou normatização, pelo contrário, sua proximidade com a arte e com as encenações, por exemplo, está na possibilidade, de uma retificação subjetiva através também da narração do humano em sua falta e ao mesmo tempo seu espaço vazio que permite a potencialidade.

4.Você é autora de romances, poesia, livros técnicos e organizadora de coletâneas. Como você transita entre esses gêneros e como cada um dialoga com sua prática como analista e escritora?

Transitar entre gêneros literários pode ser uma forma de movimentar a escrita no sentido de deslocamento de estilos e criação não somente do texto em si, mas das formas de expressão das palavras que escolhem muitas vezes atalhos e desvios. A partir do conceito de intertextualidade desenvolvido pela psicanalista e crítica literária Julia Kristeva, no qual ela aponta para a influência que cada texto carrega em si vinda de tantos outros textos já existentes e lidos pelo autor, ou seja, um texto seria uma espécie de mosaico de ideias anteriores. Nesse sentido, o trânsito do autor pelos próprios estilos que desenvolve pode ser uma abrangência das relações dialógicas dentro da nossa própria obra. A poesia pode ser um espaço do indizível, do furo que se presentifica em ritmo e musicalidade. O romance e seu tempo mais alongados pelas páginas talvez seja um palco de metáforas para que o inconsciente se apresente como construção simbólica. Já as coletâneas são um trabalho muito prazeroso por reunirem diferentes pensamentos e estilos de expressão, além da logística de sua organização exigir uma aproximação entre os autores pelas trocas de textos, infinitas correções, formatações e inúmeras reuniões de ajustes técnicos, transformando a construção do livro em uma deliciosa convivência rica de troca e amizade. Por fim, os textos técnicos fazem o trabalho de amarração entre a minha prática psicanalítica e meu trabalho literário, é onde justamente o rio encontra o mar.

5. O Prêmio Arte em Movimento valoriza a diversidade cultural sem hierarquias. Como você enxerga o papel da arte como linguagem universal e ferramenta de transformação social?

A arte, conceituada como linguagem universal, provoca um debate mais amplo no sentido justamente da valorização da pluralidade da cultura não verticalizada, como tão respeitosamente o Prêmio Arte em Movimento organiza suas edições. Ainda que toda expressão artística evoque emoções a despeito da compreensão do idioma de cada cultura, que ela consiga lidar com o indizível, com a linguagem não verbal, a universalidade como conceito tem outras considerações a serem analisadas. Nesse sentido, não entendo a linguagem como algo universalizado que possa ser compreendido por todos igualmente com funcionamento de código comum. Caminhando na ideia da inexistência de um significado fixo e sim de códigos culturais específicos, estes convocam interpretação e leitura atravessadas pelo contexto do caldo cultural em que observador e obra estão inseridos. Outros aspectos também podem questionar a universalidade da arte, como o surgimento da hierarquia estética a partir de padronizações das produções artísticas baseadas em modelos eurocêntricos, promotores de desvalorização de outras culturas não ocidentais. Em relação à capacidade de transformação social, esse talvez seja outro importante ponto de amarração entre arte e psicanálise no que se refere a uma espécie de educação da forma do sujeito enxergar o espaço sociopolítico em que vive. A arte exerce o relevante papel de fazer emergir as adversas condições da sociedade, quando documenta injustiças e registra os sofrimentos ela evoca a ação de refletir tão necessária à promoção de mudanças. Em caminho paralelo à psicanálise, também como força política, oferta ao sujeito, operador das possíveis transformações e resistências sociais, uma maneira de desprecificar seu discurso e ter mais possibilidades tanto de circulação por si próprio quanto pelo laço social que o contorna. Unindo ambas as ideias, talvez pudéssemos pensar na linguagem como uma espécie de arte universal, se usarmos uma frase atribuída a Freud: “Onde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim” .

 

 

SOBRE O LIVRO EXTRAVAZO

LANÇAMENTO DE RENATA QUIROGA CONVIDA À REFLEXÃO SOBRE O PODER DA ARTE E DA PSCICANÁLISE PARA ESTRAVASAR SENTIMENTOS

Em Extravazo, Renata Quiroga navega pelas fronteiras estreitas entre arte e psicanálise, explorando a complexidade da experiência humana por meio de uma narrativa que mergulha nas memórias, emoções e possibilidades de transformação. Seu texto introspectivo revela o diálogo entre dois Quirogas, suas trajetórias entrelaçadas por encontros que oscilam entre o íntimo e o coletivo, o concreto e o simbólico. Com uma escrita sensível e experimental, a autora convida o leitor a refletir sobre o vazio criativo, o ato de criar a partir do nada (ex nihilo) e os processos de cura e descoberta interior. Extravazo é um convite à reflexão sobre o poder do artista e do analista no processo de extravasar emoções, confrontar o silêncio e transformar o excesso em símbolo.

Como adquirir Extravazohttps://www.lojaventuraeditora.com.br/pd-97e024-extravazo.html

 

SOBRE A AUTORA

Renata Quiroga é psicóloga, psicanalista, escritora e poeta. Mestra e Doutoranda em Psicanálise, Saúde e Sociedade pela   Universidade Veiga de Almeida (UVA). Coautora e organizadora do livro Psicanálise de Brasileiro – vol. 2. (Clube de Autores, 2021) e autora do romance O escutador da quaresma (Infinita Portugal, 2023). Extravazo, lançado pela Ventura Editora (2025), é seu mais recente lançamento.

 

 

 

 

SOBRE O PRÊMIO ARTE EM MOVIMENTO

Criado em 2015 pelo artista plástico José Pereira de Souza, conhecido como Zép (@zep_artista_plastico), o prêmio nasceu de forma afetiva, como um gesto de gratidão aos artistas que participaram de uma de suas exposições de mandalas em Diadema (SP). Desde então, ganhou dimensão nacional e internacional, chegando à Europa, África e América Latina.

O diferencial da premiação está em sua essência: não há categorias, melhores ou piores, vencedores ou vencidos. Todos os contemplados recebem o troféu como reconhecimento por sua contribuição à cultura. O objeto artístico, confeccionado pelas mãos de Zép, é oferecido sem custos aos trofelistas, simbolizando a arte como linguagem universal em constante movimento.

Entre os homenageados estão escritores, poetas, cordelistas, jornalistas, atores, cantores, músicos e acadêmicos. A entrega na Taberna da Glória, no próximo dia 05/11, será conduzida pela comissão APPERJ e promete ser um encontro de celebração, reconhecimento e valorização da diversidade cultural.

Idealização: @zep_artista_plastico

Apoio:

  • APPERJ – Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro ( @apperj.poesia )
  • Portal ARTECULT@artecult )

 

 

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Author

Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de 32 coletâneas literárias. Autor do livro de contos "A angústia e outros presságios funestos" (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos. Toda quinta-feira, no ArteCult, publica um conto em sua coluna "CONTO DE QUINTA", que integra o projeto "AC VERSO & PROSA" junto com Ana Lúcia Gosling (crônicas) e Tanussi Cardoso (poemas).

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