
Carolina Pismel e Paulo Verlings em cena de Medeia – Crédito: Rodrigo Menezes | Divulgação
MEDEIA
Montagem inédita com dramaturgia original de Diogo Liberano, direção de Paulo de Moraes e atuações marcantes de Carolina Pismel e Paulo Verlings, parte de onde os textos clássicos terminam, obrigando Medeia e Jasão a permanecerem frente a frente, diante do que ainda não foi resolvido. O que ainda não foi dito, e o que se torna possível quando essa história volta a ser contada?
O Teatro Firjan SESI Centro recebe, a partir de 27 de abril, o espetáculo “Medeia” com dramaturgia inédita de Diogo Liberano, que se baseou nas versões de Eurípides e Sêneca, além da mitologia grega, mas começando de onde as tragédias terminam. Na construção de Liberano, Medeia interrompe o desfecho clássico e confronta, diante de Jasão, a história que ficou sem resolução. A direção de Paulo de Moraes conta com atuações marcantes de Carolina Pismel e Paulo Verlings. A temporada de estreia nacional será no Teatro Firjan SESI Centro, com apresentações às segundas e terças, às 19h, até 2 de junho.
No imaginário ocidental, o mito de Medeia e Jasão permanece como uma das narrativas mais perturbadoras da antiguidade por condensar amor, traição, ambição política e violência em uma mesma trama: depois de ajudar Jasão a conquistar o tosão de ouro, abandonar sua terra e romper com a própria família, Medeia vê-se descartada quando o herói decide casar-se com a filha do rei de Corinto em busca de prestígio social; a resposta da personagem, marcada por uma vingança extrema, transforma o mito em reflexão duradoura sobre exclusão, poder e condição feminina. Na leitura clássica de Eurípides, Medeia deixa de ser simples monstruosidade para se afirmar como voz trágica de uma mulher estrangeira e humilhada, cuja dor expõe as fissuras morais de uma sociedade patriarcal, da figura que é aceita enquanto útil e rejeitada quando se torna inconveniente. Ferida por uma estrutura de poder que a marginaliza por ser mulher, estrangeira e sem proteção política, sua vingança impede leituras simplificadoras: ela não cabe nem na figura da vítima passiva nem na da vilã absoluta. Sua ambiguidade é o que sustenta sua atualidade.
Ao final das tragédias clássicas de Eurípides e Sêneca, Medeia parte. Suspensa em um carro alado, ela escapa, levando consigo uma história que parece encerrada. A dramaturgia de Diogo Liberano começa justamente aí. Em vez de permitir a partida, a peça interrompe esse desfecho e segura Medeia e Jasão no mesmo espaço, obrigando-os a permanecer diante daquilo que ainda não foi resolvido.
Em uma casa comprimida no espaço e no tempo, os dois se reencontram. Do lado de fora, uma cidade em convulsão; do lado de dentro, um ar denso, onde memória e linguagem parecem não avançar. É nesse ambiente instável que o mito de Medeia – amplamente conhecido pelo gesto extremo de uma mãe que mata os próprios filhos – é colocado sob tensão. E se essa história, tal como chegou até nós, não tivesse sido devidamente contada?
A peça se constrói como um confronto direto entre Medeia e Jasão, interpretados por Carolina Pismel e Paulo Verlings, que atravessam diferentes registros de atuação e linguagem. Ao mesmo tempo em que encarnam as figuras centrais do mito, também desdobram outras presenças – como o rei Creonte – sem recorrer a marcações fixas, fazendo do próprio jogo cênico um campo de instabilidade e transformação.
Para o diretor Paulo de Moraes, “o meu grande desafio junto aos atores é manter sempre pulsante essa troca constante entre contar e viver a história de Medeia e Jasão, proposta no texto”.
A encenação organiza um sistema em que luz, trilha sonora, figurino e espaço não ilustram a ação, mas operam como extensão das rubricas do texto, tornando visível aquilo que se passa no limite entre o que é dito e o que permanece em suspensão. A pequena casa em cena, longe de qualquer realismo, funciona como um dispositivo de pressão: um lugar onde o passado insiste, onde as versões colidem e onde o tempo parece poder ser interrompido.
A linguagem do texto também acompanha esse movimento. Partindo de um registro mais formal, associado à tradição trágica, o texto desloca progressivamente sua forma de dizer, aproximando-se de uma fala mais direta, sem abandonar a densidade que sustenta o embate. Nesse percurso, a peça expõe não apenas o conflito entre duas figuras, mas também os modos pelos quais uma história é construída.
A dramaturgia refaz e atravessa momentos centrais das tragédias clássicas, ao mesmo tempo em que inventa situações que nelas não aparecem: o primeiro encontro entre Medeia e Jasão, as negociações entre Jasão e Creonte para o casamento do herói com a princesa Creusa. Ao avançar diretamente a partir dos desfechos consagrados dessas obras, o texto desloca o foco da ação para aquilo que resta: o que não foi dito, o que foi transformado em versão dominante.
Nas palavras do dramaturgo Diogo Liberano, “escrever Medeia hoje jamais poderia ser um ato para tornar o texto mais palatável e compreensível. O ponto, para mim, foi indagar por qual motivo Medeia é simplificada como uma mãe assassina e uma mulher vingativa. Por que as violências que ela sofreu são menores do que os crimes que cometeu? Escrever outra versão para Medeia é reconhecer, com dificuldade, que o mundo não é o mesmo e está mudando”.
Mais do que uma releitura, esta “Medeia” opera como uma escrita que desafia a narrativa hegemônica do mito. Ao convocar referências que atravessam a filosofia, a teoria crítica e a música – como Isabelle Stengers, Susan Sontag, Walter Benjamin e Florence Welch – a dramaturgia tensiona o próprio estatuto da história: quem a conta, quem a sustenta e quem é fixado nela.
O que se apresenta em cena não é a tentativa de corrigir uma história, mas de expor sua construção. Entre versões que se impõem e vozes que são apagadas, “Medeia” coloca em jogo uma pergunta central: o que ainda não foi dito, e o que se torna possível quando essa história volta a ser contada?
Minibios
Paulo Verlings capacitou-se como ator na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna. Na TV Globo, está atualmente no ar em Coração Acelerado, interpretando o personagem Ricardo. Atuou nas novelas Rock Story, Segundo Sol, Malhação: Vidas Brasileiras, Amor de Mãe, Joia Rara, Em Família e Babilônia, além das séries Suburbia, de Luiz Fernando Carvalho; Força-Tarefa, de José Alvarenga; Romance Policial – Espinosa; e Os Parças. No cinema, atuou nos longas Rio, Eu Te Amo, de Fernando Meirelles e Vicente Amorim; Capitão Astúcia, de Filipe Gontijo; Operações Especiais, de Tomás Portella; Tudo Acaba em Festa, de André Pellenz; Bate Coração, de Glauber Filho; e Três Verões, de Sandra Kogut. No teatro, desde 2006, desenvolve seu trabalho como ator, produtor e diretor com a Cia. Teatro Independente. Em 2014, idealizou e atuou no espetáculo Maravilhoso, com direção de Inez Viana. Em 2015, integrou o elenco de Beije Minha Lápide, com Marco Nanini. Também atuou em Conselho de Classe, Dorotéia e O Menino que Vendia Palavras, entre outros. Em 2018, idealizou e atuou na ópera rock A Peça Escocesa, na Caixa Cultural Rio. Em 2019, idealizou e atuou no espetáculo infantil Piquenique, no CCBB Rio. Como diretor, encenou Alguém Acaba de Morrer Lá Fora (2016), de Jô Bilac; ELA (2017), de Márcia Zanelatto, pelo qual foi indicado ao Prêmio Botequim Cultural de Melhor Direção; e A Peça Escocesa (2018), uma ópera rock livremente inspirada em Macbeth, também de Márcia Zanelatto. Recebeu os prêmios CBTIJ de melhor ator pelo espetáculo Piquenique, Festival de Cinema de São Bernardo do Campo e Orange County Latino Film Festival, ambos de melhor ator pelo longa-metragem Capitão Astúcia.
Carolina Pismel é atriz, diretora e professora de teatro, bacharel em Artes Cênicas. Integra as companhias OmondÉ e Teatro Independente, com sólida trajetória nos palcos e no audiovisual. No teatro, destacam-se seus trabalhos em Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera, Último Ensaio, Caravana Alucinada e Salvador (indicação de Melhor Atriz Coadjuvante no Prêmio Musical.Rio). Por sua atuação em Piquenique, recebeu o Prêmio CBTIJ de Melhor Atriz. Acumula ainda indicações como Melhor Atriz e Atriz Coadjuvante por espetáculos como ELA, Os Impostores (Prêmio Botequim Cultural) e Beije Minha Lápide (Prêmio APTR). Na televisão, integrou o elenco das novelas Lado a Lado, I Love Paraisópolis e da série A Segunda Dama (Rede Globo), além de Questão de Família (GNT). Possui participações em produções como Sob Pressão, Tapas & Beijos, Todas as Flores, Topíssima, Mania de Você, Travessia e Dona de mim. No cinema, atuou nos longas-metragens Campo Grande e Três Verões, ambos de Sandra Kogut.
Diogo Liberano (1987) é dramaturgo, diretor teatral e professor brasileiro, residente em Portugal desde 2021. Sua prática se concentra na dramaturgia contemporânea, articulando criação, pesquisa e pedagogia nas artes da cena. É criador do Platô – Pesquisa e Produção, plataforma dedicada ao desenvolvimento de projetos artísticos, formativos e editoriais. Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, com ênfase em dramaturgia, é mestre em Artes da Cena e graduado em Direção Teatral pela UFRJ. Em 2008, fundou a companhia Teatro Inominável, no Rio de Janeiro, onde atuou como diretor artístico e de produção por mais de uma década. É autor de mais de cinquenta dramaturgias encenadas e dirigiu mais de trinta criações teatrais. Seus trabalhos circularam por países como Argentina, Colômbia, Escócia, Estados Unidos, Itália, Inglaterra e Portugal. Ao longo de sua trajetória, foi indicado a prêmios do teatro brasileiro, como Shell, APTR, Cesgranrio, Aplauso Brasil e Questão de Crítica.
Paulo de Moraes (1965) começou seu trabalho de diretor e dramaturgo em 1987, quando fundou a Armazém Companhia de Teatro. Já foi premiado ou indicado como diretor aos Prêmios Shell, Cesgranrio, Eletrobrás, Molière, Mambembe, APTR, Cultura Inglesa, Contigo, Qualidade Brasil e Faz a Diferença (Jornal O Globo). Foi premiado com o Prêmio Shell 5 vezes, 2 vezes como autor, 2 vezes como cenógrafo e 1 vez como diretor. Recebeu por 2 vezes o Fringe First Award, no Festival de Edimburgo/Escócia. Entre os atores dirigidos por Paulo de Moraes estão: Paulo Autran, Adriano Garib, Dan Stulbach, Celso Frateschi, Louise Cardoso, Suzana Faini, Ana Beatriz Nogueira, Fernando Eiras, Malu Valle, Ana Kutner, Zécarlos Machado, Eriberto Leão, Luis Lobianco e Malvino Salvador, além dos coletivos Grupo Galpão e Intrépida Trupe. Entre seus espetáculos mais importantes estão A Ratoeira é o Gato (1994), Sob o Sol em meu Leito após a Água (1997), Alice Através do Espelho (1999), Da Arte de Subir em Telhados (2001), Pessoas Invisíveis (2002), Toda Nudez Será Castigada (2005), Pequenos Milagres (2007), Inveja dos Anjos (2008), Mente Mentira (2010), A Marca da Água (2012), Jim (2013), O Dia em que Sam Morreu (2014), Hamlet (2017), Angels in America (2019), Neva (2022), Brás Cubas (2023) e Dias Felizes (2025). Além do Brasil, seus espetáculos também foram apresentados no Uruguai, Portugal, França, Reino Unido, Noruega, Rússia e China.
Ficha Técnica
- Dramaturgia: Diogo Liberano
- Direção: Paulo de Moraes
- Elenco: Carolina Pismel e Paulo Verlings
- Iluminação: Maneco Quinderé
- Figurinos: Carol Lobato
- Música: Ricco Viana
- Cenário: Paulo de Moraes e Carla Berri
- Preparação corporal: Toni Rodrigues
- Assessoria de imprensa: Ney Motta
- Designer gráfico: André Senna
- Captação de apoio: Renata Leite
- Produção executiva: Carolina Pismel e Renata Leite
- Idealização e direção de produção: Paulo Verlings
Serviço
Medeia
- Sinopse: “Medeia” começa onde o mito termina. Em vez de ir embora, ela permanece e obriga Jasão a encarar o que foi feito. Em uma casa isolada, a história conhecida começa a ruir. E se nada tivesse sido como foi contado?
- Temporada: 27 de abril até 2 de junho. Segundas e terças, às 19h.
- Local: Teatro Firjan SESI Centro – Av. Graça Aranha nº 1, Centro, Rio de Janeiro (Próximo ao Metrô Cinelândia).
- Ingressos: R$ 40,00 (inteira)
- Classificação: 14 anos | Duração: 60 minutos | Capacidade: 338 lugares


CHRIS HERRMANN
Escritora, musicista, editora, designer.
Editora-chefe Redação e Colunista ArteCult.com
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