
com César Manzolillo

SANTA SOFIA
Quando o sol mergulhava atrás das chaminés da fábrica de tecidos desativada, o Hospital Santa Sofia despia sua pele diurna de consultas marcadas e jalecos engomados. À noite, o vento frio da cidade empurrava para dentro dos corredores do prédio uma leva de homens e mulheres que haviam perdido tudo: casa, trabalho, família, amigos e dignidade. Para muitos, aqueles corredores azulejados representavam o próprio lar.
Sentada sempre no mesmo banco de madeira da ala B, Alzira, olhar fixo no vazio, movia as agulhas de tricô com velocidade hipnótica, produzindo um cachecol vermelho que nunca tinha fim. Outros moradores da noite iam chegando aos poucos, trazendo a crueza das ruas. Jerônimo atuava o dia inteiro como flanelinha nas vias do centro. A fim de matar o tempo, Sebastião circulava a esmo nos ônibus do município enquanto Vicente vinha diretamente das calçadas onde havia passado o dia a pedir esmolas. Por sua vez, os enfermeiros do plantão noturno acabavam deixando fatias de bolo, biscoitos e frutas espalhados pelos balcões de atendimento. Sabiam que seriam úteis.
Ao cair da madrugada, o chão do Santa Sofia se transformava num amplo dormitório. Homens e mulheres se ajeitavam pelos cantos, improvisando camas com cobertores velhos cheirando a mofo e pedaços de papelão recolhidos no comércio vizinho. Os mais sortudos encontravam uma maca vazia ou uma cadeira de plástico no setor de ortopedia,
Há alguns meses, um homem careca e miúdo, paciente do Santa Sofia, conhecido por todos como seu Nenê, sumiu. As autoridades o procuraram durante dez dias seguidos, e o caso chegou até a ser pauta de um programa de TV, famoso por tentar encontrar pessoas desaparecidas. Com direito a trilha sonora dramática e apelo de uma irmã que não o via há 20 anos, a história ficou conhecida no país inteiro. Seu Nenê nunca havia deixado o hospital, foi achado morto no forro desativado do antigo elevador de carga.
No dia seguinte ao enterro, Alzira seguia no mesmo banco tricotando a lã vermelha. O Santa Sofia também continuava ali, engolindo o sopro gélido da noite e abrigando em suas entranhas a dor daqueles que o mundo insiste em não enxergar.
CÉSAR MANZOLILLO

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