NOITE PORTUGUESA: meu novo evento como chef convidado na WINE FLOW

Novamente, fui convidado pela equipe da WINE FLOW (@wineflow.rj) para desenvolver uma outra noite temática. Como já contei aqui, o local é um bar de vinhos e casa conceito que tem como principal proposta  “tirar o vinho do pedestal”, focando em uma experiência leve, descomplicada e com curadoria de rótulos autênticos, naturais e de pequenos produtores. Além disso, passou a oferecer ao seu público vivências únicas e diferenciadas.

Depois do grande sucesso da NOITE GREGA, meu primeiro evento – contei tudo o que aconteceu nesse artigo AQUI – a ideia, agora, seria desenvolver um cardápio de clássicos portugueses que harmonizassem com os quatro vinhos do país escolhidos pela sommeliére Clara Ramos, pertencentes ao portfólio da casa.

Claro que, assim como fiz da outra vez, minha primeira iniciativa foi me inteirar, tanto quanto podia, sobre a culinária e viticultura de Portugal, adentrando nas possibilidades que o tema permitia.

Pra nós, brasileiros, a culinária portuguesa não é algo assim tão diferente, já que a nossa própria culinária é fruto de uma fusão entre as cozinhas indígenas, africanas e, principalmente, a portuguesa. Por isso, nossa familiaridade com ela, o que me facilitou encontrar o caminho.

A cozinha portuguesa é uma combinação de tradições do Mediterrâneo e costeiras, influenciada por ocupações ao longo da história e pela Era dos Descobrimentos. A partir da base de pão, vinho e azeite, a culinária se desenvolveu com ingredientes romanos, mouriscos e especiarias trazidas pelos navegadores, criando uma identidade fortemente associada ao mar e aos peixes.

Antes da fundação de Portugal, a alimentação básica na Antiguidade era composta por bolotas e caça. Com a chegada dos romanos, houve a introdução de trigo, azeite, alho e vinhas. Posteriormente, a ocupação moura transformou a agricultura da região, introduzindo produtos como arroz, figos, citrinos, amêndoas e especiarias aromáticas, além de métodos de refogado. A partir do século XV, a Era dos Descobrimentos representou o maior marco transformador da culinária portuguesa. As caravelas trouxeram do Oriente e das Américas produtos essenciais nos dias de hoje, como tomate, batata, milho, canela, curry e piri-piri.

Os portugueses não só incorporaram culturas durante a expansão marítima, como também exportaram ingredientes e métodos. Tanto a técnica de conservação da carne, como a salga, quanto o gado bovino foram trazidos ao Brasil, resultando na carne de sol. Além disso, a técnica de fritura em massa foi introduzida no Japão, originando o famoso tempurá.

O peixe é amplamente encontrado na costa atlântica, sendo o bacalhau o mais predominante. Devido à sua conservação em sal, o bacalhau se tornou a proteína ideal para longas viagens marítimas e um alimento básico essencial, gerando centenas de receitas. A carne suína também desempenha um papel importante na gastronomia do interior, servindo como base para pratos tradicionais como o Cozido à Portuguesa e as Tripas à Moda do Porto.

A religião católica está fortemente ligada à doçaria portuguesa. Entre os séculos XV e XIX, os mosteiros e conventos empregavam grandes volumes de claras de ovos para engomar hóstias e vestimentas. As gemas excedentes eram utilizadas por freiras e monges na produção de doces elaborados com açúcar e amêndoas, como o conhecido pastel de nata e as queijadas.

Bastava entender um pouquinho mais sobre os vinhos portugueses…

A história do vinho em Portugal data de aproximadamente 2.000 a.C. A viticultura prosperou com os romanos, impulsionada pelos fenícios e gregos, e foi solidificada por ordens religiosas durante a Idade Média. Portugal é um dos países mais antigos a salvaguardar sua produção e delimitar suas áreas de produção de vinho.

Os povos antigos, como os Tartessos e os Celtas, foram os primeiros a produzir vinho na Península Ibérica. Contudo, foi durante o Império Romano que as técnicas de plantio se expandiram e aprimoraram, período em que o vinho lusitano ganhou fama e começou a ser exportado. Depois das invasões bárbaras, foram os monges e mosteiros medievais que preservaram e aprimoraram a arte da vinicultura, fazendo do vinho um componente fundamental das dietas, do comércio e das cerimônias religiosas.

Os séculos XVII e XVIII marcaram o grande avanço para a exportação em larga escala. O comércio do famoso Vinho do Porto foi fortemente impulsionado pelo Tratado de Methuen, assinado por Portugal e Inglaterra em 1703. Em razão de fraudes e desvalorização do produto, o Marquês de Pombal tomou uma medida histórica: em 1756, criou a Região Demarcada do Douro, a primeira do mundo com regulamentação oficial, assegurando a qualidade e a autenticidade do vinho.

Depois de vencer a devastadora praga da filoxera no final do século XIX, que destruiu grande parte dos vinhedos europeus, a viticultura em Portugal passou por uma reestruturação. A formação de cooperativas nos anos 1950 e 1960 contribuiu para a democratização da produção. O setor foi modernizado com a adesão de Portugal à União Europeia em 1986, priorizando a qualidade, a valorização das castas autóctones e os terroirs de áreas como Alentejo, Dão e Vinho Verde.

Passei, então, a elaboração de um menu que harmonizasse com as quatro propostas de vinho sugeridos para a NOITE PORTUGUESA. São eles: AZEVEDO LOUREIRO ALVARINHO VINHO VERDE 2025, o SEIXO AMARELO RESERVA 2019, COLINAS DO DOURO 2021 e H.O MOSCATEL GALEGO 2024.

Como primeiro prato, optei pela tradicional PUNHETA DE BACALHAU, uma iguaria que, antigamente, já foi considerada como uma comida vulgar típica dos pobres. Sua origem remonta aos tempos medievais, quando os viajantes não possuíam grandes recursos alimentares, sendo o peixe seco a base de sua alimentação. O nome curioso surgiu do método de preparo rústico, onde o bacalhau cru dessalgado era desfiado à mão, utilizando os “punhos”. O peixe é misturado apenas com azeite, cebola, alho e azeitonas.

A combinação de PUNHETA DE BACALHAU com vinho verde é vista como um clássico impecável. A acidez vibrante e a leveza do vinho verde neutralizam a gordura do azeite e limpam o paladar, harmonizando a salinidade e o tempero cru da receita.

Para o segundo prato, escolhi BIFANAS À MODA DO PORTO. A bifana clássica surgiu nas proximidades de Vendas Novas, no Alentejo, durante a década de 1960. Contudo, ao chegar ao Porto, a receita passou por uma adaptação significativa para se ajustar ao gosto local e à vibrante cultura das tascas da cidade. A grande transformação local ocorreu em 1976, quando Manuel Oliveira inaugurou o famoso Café Conga, na Rua do Bonjardim, após retornar de Angola. Com um toque de genialidade, ele trouxe o prato para a Invicta: em vez de grelhar a carne em bifes, ela passou a ser cortada em tiras finas e cozida lentamente em um tacho com um molho espesso e picante. Servi as bifanas com o tradicional PAPO SECO, ou carcaça, um pãozinho tradicional de Portugal, amplamente consumido em todo o país.

As BIFANAS À MODA DO PORTO são saborosas e suculentas, cozidas em um molho denso e levemente picante. A casta Touriga Nacional, reconhecida por seus taninos robustos, acidez vibrante e notas de frutos silvestres e florais, cria um contraste sofisticado, no qual a fruta do vinho harmoniza a intensidade e o tempero do molho.

Não poderia faltar nessa viagem o clássico COZIDO À PORTUGUESA, prato que tem origem na tradição rural, sendo criado para utilizar sobras e ingredientes disponíveis durante períodos de escassez. O prato, que foi adaptado ao longo dos séculos, estava originalmente associado à olla podrida espanhola. O livro “Arte de Cozinha”, de Domingos Rodrigues, publicado em 1680, trouxe a primeira receita oficial de Portugal.

Para harmonizar o COZIDO À PORTUGUESA com Vinhos do Douro, principalmente aqueles que misturam castas autóctones clássicas da região, como  Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, a melhor escolha são vinhos tintos de médio a encorpados, como é o caso do exemplar escolhido. A riqueza das carnes, enchidos e legumes exige um vinho com estrutura, boa acidez e taninos marcantes para limpar o paladar e equilibrar a gordura do prato.

Para fechar, depois de alguma pesquisa, encontrei a SERRADURA – também conhecida como “pudim de Serradura –  uma tradicional sobremesa da culinária portuguesa, cuja criação exata é desconhecida. Preparada com apenas três a quatro ingredientes, ganhou enorme popularidade em Macau, uma ex-colônia portuguesa, e em Hong Kong e, atualmente, é encontrada em vários países de língua portuguesa.

O termo “serradura” tem o significado literal de serragem. A sobremesa recebeu esse nome porque a cobertura ou as camadas intercaladas de bolacha Maria ou Maizena bem moída lembram visualmente a serragem de madeira (resíduo de corte).

A harmonização entre esse doce português e o vinho Moscatel é um clássico. Porém, o vinho escolhido subverte um pouco a regra de ouro, de que a bebida deve ter um nível de açúcar igual ou ligeiramente superior à sobremesa, já que não se trata de um vinho doce. Porém, harmoniza à perfeição!

As noites temáticas criadas pela WINE FLOW estão se mostrando um acerto, na medida em que combinam vinhos selecionados com uma culinária harmonizada e uma atmosfera desenhada para explorar um conceito, região ou país específico e, ao final, elevam a experiência da degustação de vinhos a um outro patamar. E, para mim, tem sido uma aventura nova, de grande aquisição de conhecimento. Afinal, mergulho na cultura de cada lugar específico e procuro encontrar, em cada prato – do mais simples ao mais complexo – o liame que o une ao vinho escolhido. Escolher uma única opção na gastronomia de um país, dentre tantas e tantas disponíveis, que se encaixe perfeitamente com a bebida selecionada, é um exercício delicioso!

Digno de nota e muito importante ressaltar o empenho da equipe da WINE FLOW para que toda a experiência sensorial fosse perfeita, valendo mencionar a incrível plasticidade dos elementos visuais, seja do material de divulgação ou dos slides da apresentação, elaborados pelo LORENZO ANTICO (@loreenzoantico), dos quais me utilizei de vários deles para compor essa matéria;  os detalhes dos materiais utilizados na decoração “portuguesa” criada pelo proprietário PAULO GOMES;  a clareza e didática das explicações sobre cada um dos vinhos degustados feitas pela CLARA RAMOS (@clararamos.sommeliere); e nas belíssimas fotos e vídeos capturados em vários momentos da noite com maestria pela DRICA RIBEIRO (@dricaribeiro).

A noite ainda teve um convidado especial para abrilhantar ainda mais. Trata-se do ANDRÉ da JAÉVINHOS (@jaevinhos), sommelier formado pela WSET – certificação mais reconhecida no mundo em vinhos – especialista em vinhos portugueses, que forneceu um amplo panorama sobre os rótulos apresentados.

E, mais uma vez, ao encerramento do evento, uma pausa para a tradicional foto do grupo – e mais uma pra guardar de recordação. Novamente foi uma experiência ímpar, que superou grandemente minhas expectativas – tudo deu certo, tudo caminhou nos trilhos.

E já aqui dando um pequeno spoiler do que ainda está por vir, segundo me contou o LORENZO, estão programados os seguintes eventos na WINE FLOW:

31/07/2026 – NOITE PORTUGUESA

15/08/2026 – NOITE ITALIANA

26/09/2026 – 4ª TURMA DO CURSO DE INTRODUÇÃO AO MUNDO DO VINHO

Fiquem atento às redes sociais. Muita coisa boa está sendo preparada com muito carinho e acho que vai ser muito legal!

Nos vemos em breve! Até!

DEL SCHIMMELPFENG

@del.schimmelpfeng

Author

Del Schimmelpfeng é Analista Judiciário do TJERJ, mas desde que se lembra - e coloca tempo nisso! - ama cozinhar! Apesar de ter feito as faculdades de arquitetura e direito, é se misturando aos pratos, panelas e temperos que se sente inteiro, completo, pleno. É autodidata, nunca fez curso de culinária, tampouco se imaginou um profissional da área. Considera-se apenas um curioso, que procura o conhecimento em tudo e que tenta, de todo jeito, viver da melhor forma possível - apesar de todas as dificuldades. Afinal, não haveria graça se elas não existissem... Participou da seletiva da segunda edição do Masterchef e da décima nona edição do reality "Jogo de Panelas", apresentado por Ana Maria Braga no programa "Mais Você" da Rede Globo, na qual sagrou-se campeão. Possui, ainda, textos publicados em livros de conto e poesia. Blog: http://delschimmelpfeng.blogspot.com Instagram: @del.schimmelpfeng

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