Música e Educação: narrativas de amor à vida

 

Música e Educação: narrativas de amor à vida

                                                                                                                                                                     A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver.                                                                                                                                                                            Paul Klee (1879-1940), pintor e poeta suíço

 

Por muito tempo, quem nunca se conformou com monarquias absolutas ou ditaduras militares ou, como estamos observando o fenômeno neste século XXI, autocracias; quem não se conforme com quaisquer tipos de autoritarismo, em se tratando de sociedades ou mesmo grupos coletivos, imersos nas sociedades, sempre propugnou que o importante para a superação deste quadro social lamentável seria a “conscientização social”. Sim, é este o caminho, sem dúvida. Porém, é insuficiente. Até pelas palavras que são atribuídas a um conhecido militante político (digo atribuídas porque há quem afirme que ele nunca as pronunciou), “hay que endurecerse, pero sin perder la ternuna jamás” (há que se endurecer, mas perder a ternura jamais”. Bem, dito ou não pelo médico e diplomata marxista argentino Ernesto “Che” Guevara (1928-1967), o sentido é perfeito.

Devemos ser duros, no sentido de lutar por aquilo que achamos correto, mas nunca, jamais, perder a ternura de viver, para não nos enrijecermos a tal ponto de nos esquecermos de que somos seres humanos e não sacos de batata. Esta ideia me conduz a outras duas palavras, tão importantes quanto a conscientização: sensibilização e motivação. Dizem que uma coisa é saber o caminho, outra é percorrê-lo. É a conscientização, e os estudos, que nos mostram os melhores caminhos e as melhores formas para que percorramos os caminhos da vida. Contudo, para sairmos da inércia e da nossa “bolhinha de conforto”, que tendem a nos deixar parados sem nada fazermos (e isso agrava a situação geral), há que termos motivação, especialmente quando pensamos no coletivo e esta motivação, creio, chega, senão unicamente, mas bastante, por um intenso, sincero, solidário, gentil e afetuoso trabalho de sensibilização. É para esta situação existencial que aponta a frase em epígrafe de Paul Klee, que nos abre a mente e o coração para vermos muito além das aparências.

Arte em todas as suas formas tem este efeito em nós. A arte na qual me engajo é a literatura, mas também a música, secundariamente. Digo isso não porque considere a música secundária perante a literatura, mas porque, tendo aprendido piano na adolescência e o abandonado, agora, já na maturidade dos meus 55 anos, comecei a estudar violão e percussão, além de ter entrado na dança de salão e no forró. Ouço música o dia todo (além de muitas notícias). Música é vida, para mim, tanto quanto a literatura; são as duas formas de arte que mais aprecio, embora goste de arte, em geral. Música é, talvez, a mais popular expressão artística e que, além disso, responde, rapidamente, à “chamada social”, por assim dizer, de geração de empregos. Como uma de minhas propostas de vida é, além de escrever, fazer acontecer coisas boas e interessantes para outras pessoas (formei-me professor), achei por bem partilhar com você, querida leitora, prezado leitor, estimado gestor público da área de educação, uma ideia que tive sobre educação musical quanto, por 3 anos, estive à frente de um projeto de educação pela música. Convido-os a compor uma bela ação social para nossas crianças e adolescentes.

 

Música e Educação Musical: uma parceria pedagógica de sucesso

Toda longa marcha começa com o primeiro passo, já ensinou Mao Tsé-tung (1893-1976), líder da Revolução Chinesa de 1949. Uma longa sinfonia… como começa? Sinfonia de vida, no geral… sinfonia musical, propriamente dita… como começam? Bem… duas podem ser as questões centrais abarcadas por um projeto de Educação Musical, no nível da Educação Básica.

1 – A percepção dos estudantes sobre o mundo exterior, não raro, acaba por ser pouco desenvolvida, em face de sua pouca idade e vivência.

2 – Muitas vezes, as perspectivas de trabalho dos alunos, das redes públicas, notadamente, são limitadas por conta da falta ou da deficiência de qualificação para o mercado de trabalho, ao menos para o que o mercado vem exigindo, até mais de habilidades formadas do que de conteúdo aprendidos.

O contexto social dos estudantes, se não pode ser atacado de modo integral e estrutural pelos projetos de Educação Musical, e não pode mesmo, pode, contudo, ser positivamente impactado por iniciativa como as dispostas a seguir.

1° Impacto  – Desenvolvimento da percepção sensorial e cognitiva dos estudantes, por intermédio de aulas de música e socialização. A música trabalha questões basilares para a formação humana, como disciplina e trabalho em grupo, sensibilidade e habilidade técnica, tanto no tocante à coordenação motora que todo músico tem que ter, quanto no específico à capacidade analítica.

2° Impacto  – Oferta, ao estudante, de vivência e de participação no mundo simbólico-cultural da música e da poesia (letras musicais), ou seja, a oferta de um precioso bem cultural da sociedade humana.

3° Impacto – Suprimento de algo que, para muitas famílias, falta, por completo ou em parte: o eventual interesse dos estudantes pela cultura brasileira, posto não conhece-la, minimamente, com o oferecimento das aulas de educação musical e de letras e outras linguagens, como libras, por intermédio de oficinas temáticas.

I4°  mpacto – Disponibilização, para além do até aqui exposto, de conhecimento musical e do aprendizado e manejo de instrumentos e cursos de leitura e escrita, fatores que podem levar a uma profissionalização ou que podem ser um instrumento que a facilite, futuramente.

 

Habilidades a serem desenvolvidas: um caminho musical possível

Logo a seguir, proporemos uma espécie de “sequência didática e conceitual”; proporemos algumas poucas ideias, não de conteúdos e/ou exercícios, mas de fatores pedagógicos e habilidades a serem desenvolvidas na escola, inseridos nas teorias e práticas da Educação Musical, em face de mudanças de paradigmas pelos quais os estudos pedagógicos vêm passando há décadas, para que tenhamos uma escola afetuosa e que dê prazer ao estudante, além de qualificá-lo. Eis parte importante da fórmula geral da escola pública, por assim dizer, ofertada em particular pela Educação Musical, para não apenas reter o estudante na escola, como para atraí-lo de volta, caso dela tenha evadido e principalmente, para ser mais um fator em sua formação humanística e técnica.

Alegriaa palavra “alegria” vem do latim e designa alguém que está contente, animado, alguém que é vivaz, ou seja, que exala vida. Alguns dizem que alegria é um sentimento perigoso porque nos levaria a um estado de relativo torpor perante uma realidade que, não raro, não nos favorece. Contudo, não concordo com essa ideia: alegria é vida e é com essa perspectiva que o professor e o diretor da escola e sua equipe têm que trabalhar. Alegria é o diapasão pelo qual tocamos nossa vida e nossas ações pedagógicas. Para os não iniciados, diapasão é um instrumento metálico, em forma de forquilha, que emite sons, por vibração, com o qual afinamos o tom com que iremos tocar um instrumento musical ou cantar uma música. Assim, tendo por diapasão o prazer que a música proporciona a quem a toca e/ou a ouve, procuramos, pela Educação Musical, ensinar aos estudantes a alegria sonora da música, com toda sua poética e como, através dela, eles poderão se alegrar, posto que este é um possível primeiro passo de uma longa marcha. Os estudantes devem ter alegria de viver e de aprender e, portanto, prazer, para poderem (re)criar seu mundo interior e, igualmente, o exterior, com muito afeto, colaboração com os projetos de vidas de outras pessoas e competência técnica.

Sensibilidadeé a capacidade sensorial de perceber o mundo através dos sentidos e das emoções. Uma vez proporcionado o prazer ao estudante, pela busca do saber, de modo científico e lúdico, a continuidade de seus estudos será não apenas facilitada, como ele próprio, ao seu modo, no seu tempo e em alguma medida, deverá, acredito, buscar seu aprofundamento. Tal habilidade pode ser observada, na prática, pelo desempenho acadêmico de nossos estudantes de música, bem como em outras matérias escolares. O ensino deve desenvolver ou gerar, nos estudantes, cada vez mais aguçada capacidade sensitiva, o que costuma se refletir positivamente em seu aprendizado, na sua formação humana e no jeito como conduz sua vida acadêmica, em família e como cidadão ativo e consciente.

Percepçãoperceber é captar ou reconstruir subjetivamente a vida e o sentido cultural das coisas e do mundo. A alegria, ao aguçar a sensibilidade, contribui para preparar os estudantes para um passo possível seguinte, que é, como expresso por estudos como os da Gestalt (teoria psicológica das formas que prega que, antes de compreender as partes, é necessário que compreendamos o todo), apreender a forma pela qual o saber humano é construído, em toda sua Estética (subjetiva, mas eivada do sistema cultural no qual o ser está imerso), Ética (um valor coletivo de comportamentos aceitos) e Economia (regras de convivência) e isso deve acontecer com naturalidade e de modo prazeroso e potencializador de sua formação humana e acadêmica. Partindo das sensações que a música lhes oferece, buscamos oferecer aos estudantes novas percepções e novos sentidos culturais. Uma Inteligência Artificial já pode “escrever” um texto ou “compor” músicas, mas criação (ainda) é uma competência basicamente humana. Perceber não é apenas ver ou interpretar a aparência de algo ou de alguém, é ver ou interpretar, de modos alternativos e subjetivos, aquilo que todos veem, não desprezando a percepção do outro, tão legítima quanto a nossa; assim construímos visões e interpretações coletivas de mundo e de vida e as pactuamos, culturalmente.

Concentraçãoconcentrar é o ato de confluir nossa atenção e esforço para um objetivo específico pré-determinado. A música não é apenas um elemento sensitivo e/ou perceptivo, não é somente um fator pedagógico, mesmo quando se torna objeto central do que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e/ou da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e/ou das orientações curriculares de uma rede de ensino quando a prescrevem como elemento obrigatório da grade curricular, embora também seja isso tudo, quando utilizada como instrumento didático. A música pode atuar, igualmente, como um fator de concentração, na medida em que o estudo musical e a execução de uma música demandam que os estudantes, que os músicos, profissionais ou amadores, foquem sua atenção no esforço de realizar toda a combinação-base (ver abaixo) de sons e sensações/percepções que a compõe. Os estudos só atingem seus objetivos de modo pleno se houver, da parte dos estudantes, considerável grau de concentração para que o saber emerja das reflexões subjetivas, em face do saber histórica, geográfica e culturalmente produzido que ele assimilou e que (re)construiu, à sua feição, com a mediação do(a) professor(a) e, em alguma medida dos colegas, na sala de aula e mesmo em casa, na família (ou onde quer que os estudantes estejam e por onde transitam).

Análise combinatóriaé o ramo da Matemática que estuda as correlações infinitas de números e suas possibilidades combinatórias para formar outros números e toda gama de raciocínios matemáticos (como derivadas, áreas geométricas etc.), a partir de critérios específicos e regras pré-determinadas. A contagem dos elementos de um conjunto qualquer e as interações que o fazem ser o que é, e não outra coisa qualquer, é o foco desta área do conhecimento humano. Compor e executar uma música, ou mesmo percebê-la como um objeto cultural artístico (ou como um instrumento didático), na qualidade de ouvinte e apreciador, só é possível porque nosso cérebro, ainda que intuitivamente, analisa os sons produzidos isoladamente, os quais, matematicamente combinados, harmonizam-se no objeto cultural música, cuja contextualização e compreensão é, apesar de geograficamente posicionada e historicamente produzida, universalmente aceita e apreendida.

Coordenação motora é a capacidade de usar, de modo eficaz, os músculos e todo corpo, em nossos movimentos, para que possamos desenvolver nossas técnicas sobre alguma coisa (esportes, operação de máquinas, práticas musicais…), de modo o mais plástico (elegante) possível. Diga-se de passagem, o próprio corpo humano pode ser um instrumento musical ou ser utilizado, habilmente para, junto com objetos, em princípio, não musicais, produzirmos música. Artistas como Hermeto Pascoal e grupos de dança como os Stomp bem comprovam esta afirmação. Tente, numa roda de samba, resistir a batucar na perna, fazendo dela, um atabaque! A música, junto com a Educação Física (não é à toa que a dança compõe o currículo de várias graduações nessa área), é um dos mais poderosos fatores pedagógicos para o pleno desenvolvimento das habilidades motoras e corporais durante e depois do processo de ensino-aprendizagem. A plasticidade e a resistência corporais tornam-se, deste modo, fatores essenciais para a vida diária dos estudantes.

Trabalho em conjuntoé o esforço de um grupo de pessoas que têm um objetivo em comum a atingir e que cooperam entre si para que este objetivo seja alcançado o mais rápida e eficientemente possível. As práticas em Educação Musical, ou em outras, são, essencialmente, trabalhos coletivos, já que a execução da qualquer música, que não seja realizada por um único músico, pressupõe a harmonização das habilidades de instrumentistas desses músicos, mas também pressupõe a harmonização de suas sensibilidades e percepções, combinando suas diferentes leituras musicais. Não se produz saber sem trabalho em conjunto e não se trabalha em grupo, como em sala de aula e numa escola, se cada participante do coletivo não for sensibilizado, alegremente, de preferência, para alterar suas percepções de mundo, respeitando as dos demais, ampliando-as, concentrando-se nas mais diversas probabilidades científicas, artísticas e humanísticas, subjetiva e coletivamente.

Escrita e interpretação literária com a aprendizagem da escrita textual, o estudante passa a dominar o código linguístico do ponto de vista formal (grafia das letras, dos fonemas e das palavras e regras de uso gramatical da língua portuguesa e de outras que esteja estudando), e também nos sentidos culturais da peça discursiva. Interpretar um texto é um ato complexo e contextual, não basta ler umas tantas palavras, como já nos mostraram pensadores do quilate do filósofo brasileiro Paulo Freire (1921-1997) e outros estudiosos, como os da Análise de Discurso, como o filósofo, filólogo e escritor italiano Umberto Eco (1932-2016), o linguista francês Patrick Charaudeau e o filósofo francês Michel Pêcheux (1938-1984). Interpretar é decodificar os sentidos das coisas e das palavras escritas, bem como, especialmente, extrair os sentidos das linhas e das entrelinhas – estas que, muitas vezes, escapam do leitor mais desatento e/ou despreparado. Nem todas as músicas possuem letras, mas muitas as possuem. Escrever uma letra não musical, por assim dizer, uma letra textual, de todo modo, pede uma sensibilidade musical que é, no mais das vezes, fruto de atenta observação da Educação Musical. Desta feita, apreendida como um discurso do ser, a música pode ser ensinada a partir de determinadas técnicas, envolvendo a senso-percepção dos estudantes e conduzindo-os pelas combinações, mais ou menos harmônicas, do objetivo sonoro que lhes apresentamos.

Escrita e interpretação musicalescrever é “grafar”, do latim, “marcar” o que for, desde coisas concretas, como um belo grafite pelos muros da cidade ou como palavras em um pedaço de papel ou coisas abstratas, como os sentimentos, as percepções e os pensamentos humanos, conforme descrito até aqui. A música é uma abstração, mas também é prenhe de simbolismos abstratos; a música é uma das mais belas formas de marcação do Homem sobre a Terra. Isto posto, no caso do objeto cultural música, a escrita é expressa pelas notas musicais, com suas especificidades, os sons e as pausas que se impõem ao músico que, deste modo, (re)interpreta a pauta musical conforme sua vivência, suas percepções, sentimentos e pensamentos; o músico (re)combina as notações musicais para compor ou para executar música. Ainda quando a música se origina de um “iletrado” musicalmente, ou seja, quando ela vem ao mundo pela intuição do músico, mesmo nesse caso, há uma escrita e uma interpretação musical-existencial, por assim dizer. As metodologias de Educação Musical procuram caminhos para o “letramento” musical.

Aprendizado de um instrumento musicala música pode ser executada tanto pelas cordas vocais, um dos mais poderosos “instrumentos musicais” ao nosso dispor, quanto pode ser o resultado da sonorização produzida por instrumentos não corpóreos, como uma bateria, um piano, um xilofone, um violão ou um saxofone. Todas as habilidades anteriormente descritas, brevemente, são postas em prática quando os estudantes ampliam suas competências com a Educação Musical.

Autoconhecimentoo conjunto dos estudos realizados e a convivência que o sistema de ensino proporciona a todos os que participam da comunidade escolar, colabora para nos mostrar quem realmente somos ou para nos fazer sermos outra pessoa, mais sensível, mais perceptiva, mais focada, mais concentrada, mais analítica, mais colaborativa e mais habilidosa. A música colabora para nos mostrar quem realmente somos ou para nos fazer ser outra pessoa, mais sensível, mais perceptiva, mais colaborativa, mais focada, mais concentrada, mais analítica e mais habilidosa. Para quem trabalha na área da educação, o que conta é a própria vida que, não se bastando, extravasa por cada poro de nossas respirações, por cada palavra que escrevemos, por cada harmonia musical que criamos, por tudo o que ensinamos e construímos, juntos com nossos estudantes. Viver a musicalidade é (re)construir-se fora si e, com isso, criamos novos significados e percepções de vida que nos faz não apenas ser quem somos, mas também nos faz poder vir a ser quem desejamos ser, em alguma medida.

Harmonizaçãoharmonia é uma combinação de fatores ligados por uma relação de pertinência e de importância que produz uma agradável sensação de prazer, sem maiores conflitos. Na escola, os estudantes devem perceber toda harmonia existente nos estudos científicos, na convivência social e na relação com o mundo. As harmonias de nossos ensinamentos, de nossas aprendizagens, de nossas músicas guiam as harmonias de todos nós. Viver, dentre outras muitas definições possíveis, é o entrelaçamento simultâneo e dialético de sentimentos, pensamentos e ações que agradam o ser, tornando-nos belos, de um modo kantiano, e que o fazem (re)construir a si mesmo, fazendo-o relacionar-se com os outros seres e com o mundo, de um jeito heideggeriano e sartreano. Viver o ambiente escolar é, ou deveria ser, perceber a harmonização da própria vida.

 

Caminhando e cantando

Arroyo (2002: p.19) procura mostrar que, em sua visão, os processos e os produtos culturais devem ser entendidos em seu contexto inicial e de atuação de produção sociocultural, a partir do conceito de Cultura em Geertz (Arroyo Apud Geertz – 1989, 2002: p.19) que dizia que cultura é uma teia de significados construídos pelas pessoas e que orienta suas vidas, em sociedade. Não é a única definição de cultura, mas além da questão do significado do bem cultural, há um relativo consenso de que “cultura” representa o conjunto de princípios, valores e hábitos de um povo e são eles que dão os significados aqui aludidos. Como há muitos povos, podemos afirmar que, melhor do que falar em cultura, é pensarmos em Culturas. Essa compreensão, para Arroyo, levou a certa relativização cultural e esse fenômeno teria sido, no entender da autora, essencial na superação de uma visão eurocêntrica da produção cultural humana (Arroyo, 2002: p.20). A cultura de outros povos também passou a ter o seu valor. Não por outro motivo, as questões culturais passaram a ser apreendidas como construções sociais (Arroyo Apud Berger e Luckmann – 1985, 2002: p.20). Para Arroyo, deste modo, a Educação Musical assenta suas bases no relativismo cultural e nas músicas como construções socioculturais (Arroyo, 2002: p.20).

Foi em meados do século XIX que o cérebro passou a ser estudado, ao menos no ocidente, tanto como órgão da cognição, como da psique humana, e não como atribuo divino (Arroyo, 2002: p.8). Assim, Ilari (2003: p.8-10), baseada em autores como Campbell (1996), Kotulak (1997), Herculano-Houzel (2001), Cardoso (2001), Carneiro (2001), Costa-Giomi (2001), Gardner (1983), Antunes (2002) e Levine (2003), todos devidamente referenciados na bibliografia final, descreve o cérebro e algumas de suas funções do modo como passaremos a resumir a seguir.

O cérebro é um labirinto em forma de noz, como o descreve Ilari, sendo composto por aproximadamente 12 bilhões de células (em média) que recebem o nome de Neurônios, cujas informações são transmitidas por pequenos impulsos elétricos chamados de Sinapses. À medida que crescemos, o cérebro aprende, formando conexões, eliminando informações desconexas e evitando, desse modo, o excesso de dados e informações que poderiam atrapalhar a construção do conhecimento. Por essa razão, neurocientistas dizem que o cérebro é um órgão autorregulável, constituindo sua própria rede neural, antes mesmo do bebê completar um ano de idade. O desenvolvimento cerebral prossegue rápido até a maturidade e pode continuar até praticamente a velhice, quando inicia-se um processo de degeneração. Kotulak (1997) aponta 4 fases, que Ilari cita, para o desenvolvimento cerebral: a fetal; a que ocorre entre o nascimento e aproximadamente 5 anos de idade; a que acontece dos 5 aos 10 anos e após os 10 anos.

O cérebro humano é composto por duas metades ou hemisférios, à direita e à esquerda da caixa craniana, unidos por feixes de fibras de comunicação, como a maior delas, conhecida como Corpo Caloso, conforme mostrou Carneiro (2001). Idênticos na aparência, os dois lados cerebrais são, contudo, diferenciados no que toca suas funções para o corpo humano, a começar do fato curioso de uma inversão: o lado esquerdo do cérebro comanda o lado direito do corpo e o lado direito do cérebro comando o lado esquerdo do corpo. Não se sabe o porquê desse estranho fenômeno. Além disso, normalmente, o lado esquerdo do cérebro comanda funções como a linguagem, o raciocínio lógico, a maior parte da memória, a habilidade de calcular, de analisar e de resolver problemas. As habilidades manuais não-verbais, as intuições, a imaginação, os sentimentos e a capacidade de síntese são comandas, em regra, pelo lado direito. A percepção dos sons, algo que nos interessa diretamente aqui, neste artigo, aparentemente, é comandado pelo lado esquerdo do cérebro, muito embora a percepção musical, como algo organizado, supõe-se, ainda sem provas, que se situa, prioritariamente, do lado direito da massa encefálica.

Para autores como Levine (Apud Ilari, 2002: p.8-10), existem sistemas neurodesenvolvidos que organizam nossos comportamentos, movimentos, percepções e capacidade de aprender habilidades, as mais variadas. Baseada em Levine (2003), pois, Beatriz Ilari nos apresenta oito dos sistemas ora referidos (outros autores, que concordam com esses sistemas, possuem classificações um tanto diferentes, mas todas, de algum modo, convergem para o funcionamento de nosso cérebro, no processo de ensino-aprendizagem). Vamos a eles (Ilari, 2003: p.8-10).

1) Sistema de controle da atenção – responsável pelo direcionamento e distribuição da energia mental dentro do cérebro. É esse controle que mantém a criança concentrada, permitindo que dê atenção exclusiva a uma determinada tarefa e ignore as distrações.

2) Sistema da memória – responsável pelo armazenamento de informações, é importantíssimo no aprendizado de qualquer disciplina. Devido ao fato de a música ser uma arte temporal (isto é, que existe num determinado tempo e espaço), o sistema da memória tem uma importância fundamental para a educação musical.

3) Sistema da linguagem – responsável pela detecção dos diferentes sons de uma língua, pela habilidade de compreender, lembrar e utilizar um vocabulário novo, pela capacidade de expressão de pensamentos na forma da fala ou escrita, e pelo ritmo de compreensão com que o indivíduo atende às explicações e instruções verbais.

4) Sistema de orientação espacial – responsável pela capacitação do indivíduo para lidar ou criar informações organizadas em Gestalt, em padrões visuais ou em configurações específicas. A orientação espacial nos permite perceber que várias partes se encaixam em um todo, como num quebra-cabeça.

5) Sistema de ordenação sequencial – responsável pela capacitação do indivíduo para lidar com as cadeias de informação que têm uma ordem ou sequência. No caso da música, é esse sistema que permite ao aluno compreender o conceito de escalas e sequência musical.

6) Sistema motor – responsável pelas conexões entre o cérebro e os diversos músculos do corpo humano. Por exemplo, o sistema motor possibilita que uma determinada criança toque violino ou pratique um esporte.

7) Sistema do pensamento superior – responsável pelo raciocínio lógico, pela resolução de problemas, pela formação e utilização de conceitos, pela compreensão de como e onde as regras são aplicadas e válidas, e pela percepção do ponto central de uma ideia complexa.

8) Sistema do pensamento social – responsável pela capacidade de interagir através de relações interpessoais e de pertencimento em um grupo. Na educação musical, é o sistema de pensamento social que permite que as crianças façam música de câmara ou cantem juntas em um coral.

 

Autores como Gardner (1983) afirmam que possuímos vários tipos diferentes de inteligência, as famosas “inteligências emocionais”, que seriam comuns a todos os seres humanos. Para Ilari, temos o que autora chama de “inteligência musical” (Ilari, 2003: p.13), pode ser percebida/inferida/analisada por indícios como a habilidade em tocar um instrumento, em compor uma música ou em perceber diferenças sonoras musicais, embora a autora apresente a advertência de que essa inteligência musical não pode ser confundida com talento.  No entender de Ilari:

É importante que o educador utilize uma grande variedade de atividades e tipos de música. Cantar canções em aula, bater ritmos, movimentar-se, dançar, balançar partes do corpo ao som de música, ouvir vários tipos de melodias e ritmos, manusear objetos sonoros e instrumentos musicais, reconhecer canções, desenvolver notações espontâneas antes mesmo do aprendizado da leitura musical, participar de jogos musicais, acompanhar rimas e parlendas com gestos, encenar cenas musicais, participar de jogos de mímica de instrumentos e sons, aprender e criar histórias musicais, compor canções, inventar músicas, cantar espontaneamente, construir instrumentos musicais; essas são algumas das atividades que devem necessariamente fazer parte da musicalização das crianças. Todas essas atividades são benéficas e podem contribuir para o bom desenvolvimento do cérebro da criança (Ilari, 2003:p.14).

(…)

ato de compor música envolve a experimentação com sons, a utilização do ouvido interno e a resolução de problemas. Ao compor uma canção, a criança pode estar ativando os sistemas de controle da atenção, da memória, da linguagem, de ordenação sequencial e de pensamento superior, entre outros. Independentemente de ser representada graficamente, as canções e obras compostas pelas crianças parecem ser benéficas ao neurodesenvolvimento. Entre essas composições estão as canções espontâneas e improvisadas das crianças pequenas. A improvisação musical, acompanhada ou não de gestos e movimentos corporais, também pode servir para ativar os sistemas motor e de orientação espacial (Ilari, 2003: p.15).

 

Para Ilari, a Educação Musical atua não apenas na formação dos estudantes para melhorar seu desempenho acadêmico nas demais disciplinas escolares, mas também para a formação humana integral daqueles que dela participa. O neurodesenvolvimento é uma complexa teia de aprendizagens exponenciais, tanto quanto a fisiologia cerebral e a psique humana assim o permitem e a música, tudo considerado, é-lhe fundamental pela quantidade de conhecimentos e habilidades que trabalha e desenvolve, sensível e cognitivamente.

Como expõe Ilari (2002: p.13), existem “conexões que transformam sons em palavras com sentido”. Falar em sentido, notadamente, o figurado ou conotativo é pensar, tanto em termos musicais, propriamente ditos, a sonoridade harmônica de uma bela canção, quanto nas palavras que, não raro, compõe as letras da maior parte dos estilos musicais; é pensar em poemas, literariamente falando. Assim, afirma Penna (2005: p.8), “poesia e música são fenômenos distintos, que se encontram e se entrecruzam na canção, configurando, então, a poética musical”. A linguagem musical é, para Penna, uma abstração que se realiza em diferentes músicas e manifestações musicais, culturalmente produzidas e contextualizadas; a linguagem musical enseja, por suposto, distintas poéticas musicais (Penna, 2005: p.9). Esse é um fenômeno universal, geograficamente posicionado e historicamente produzido; a música também finca raízes não apenas nas subjetividades, como também nas coletividades. Assim, conclui Penna, uma música se torna significativa para nós “na medida em que, pela vivência cotidiana, nos familiarizamos com os seus princípios de organização sonora, com a sua poética” (Penna, 2005: p.11).

 

Curso Profissionalizante de Música: materializando sonhos

Música do grupo de rock Titãs nos encanta e esclarece ao dizer que nós não queremos só comida, queremos também diversão e arte e isso nos conduz a mais harmonização de vida e como harmonia pressupõe uma ligação holística das partes, para a formação de um todo complexo e que dê sensações agradáveis de prazer ao ser, faz parte dos objetivos pedagógicos que os estudantes participem de atividades que tenham uma formação profissional ao dele se desligarem, posta a importância da questão da empregabilidade deles, para eles e suas famílias. Para tanto, apresento uma ideia para as redes públicas de ensino, para ajudar a materializar alguns dos possíveis sonhos de nossos estudantes e proponho o curso abaixo resumido.

Público-alvo

Estudantes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, além dos participantes do Programa de Educação de Jovens e Adultos (PEJA).

Tempo do curso

Com duração prevista para 04 (quatro) anos, as aulas, sempre ministradas no contraturno dos estudantes, três vezes por semana, compor-se-ão de aulas teóricas e práticas, com vistas à certificação dos participantes, ao final, de diploma profissional de música, chancelado pelas secretarias de educação, municipais e estaduais, e pelas desejáveis parceiras delas com o Ministério da Educação (MEC). Esse curso está pensando, preferencialmente, para a modalidade concomitante; se não for possível, subsequente.

Especializações

A parceria acima mencionada poderá ofertar especializações em duas grandes categorias: música popular e música clássica, sendo opcional para o participante se especializar nas duas categorias, caso deseje, se houver a possibilidade de conciliar os horários e se houver vaga e possibilidade de os estudantes se matricularem, sem prejuízo de seus desempenhos acadêmicos no curso regular, fator determinante para seu ingresso e, especialmente, para sua permanência no curso. A frequência é a exigida pela Lei 9.394/1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), ou seja, 75% de presença nas aulas – que podem ser ofertadas, na parte teórica, na modalidade EAD, mas que, por óbvio, terão que ter parte prática presencial.

Local e horário do curso

Ainda por definir, porém, aqui, sugiro que os cursos sejam estruturados para acontecerem entre 08 horas e 11 horas, para o turno da manhã e entre 13 horas e 16 horas, para o turno da tarde, sempre nas mesmas escolas onde os estudantes fazer seu curso regular.

Quadro docente e sua remuneração

O curso deve ser composto por professores e músicos profissionais, na medida do possível e a verba pode ser do órgão público, de projetos financiados pelo MEC ou por captação junto à iniciativa privada.

Quadro discente e sua remuneração: bolsas de estudo

As bolsas de estudo, em valor a ser estipulado, poderão ser divididas em duas parcelas: uma a ser paga diretamente ao participante, como ajuda de custo para seu deslocamento e alimentação e a outra metade a ser depositada em seu nome, em uma caderneta de poupança, em banco a ser estipulado. O montante para as bolsas e com qual percentual cada instituição arcará deve ser rateado entre os parceiros e firmado no Termo de Compromisso da Parceria ou por acordo entre as partes. Além disso, novamente, parte da verba ou no todo talvez possa ser advinda de participação de órgãos como o Ministério da Educação (MEC), contataríamos a Comissão de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) etc. para o oferecimento de bolsas de iniciação científica ou equivalente aos estudantes que terão participado da formação.

Autossustentabilidade do curso

O financiamento do curso profissionalizante poderá se tornar realidade através de verba pública e das instituições participantes, mas outros apoios também podem ser buscados, pela realização de uma Parceria Público Privada (PPP). Contudo, ainda que venham os parceiros, tanto públicos quanto privados, talvez não seja suficiente para que o curso seja financiado de modo permanente e a forma dessa viabilidade financeira deve ser pensada e realizada. Os instrumentos musicais, tanto para as aulas quanto para os participantes, ao longo do curso (para os que não puderem comprá-lo, ficando o mesmo em comodato), como também ao final do curso, para que possam iniciar sua vida profissional, poderão ser doados pelos parceiros. Instituições públicas e privadas, antes como o Conservatório Brasileiro de Música, produtores culturais, empresários do ramo artístico, donos de estúdios musicais de gravação, lojas de instrumentos musicais etc. podem ser alguns dos parceiros contactados para a realização da formação acadêmica ora proposta. Por fim, doações de particulares (pessoas físicas e jurídicas) periódicas também podem ser tentadas.

 

Apontando novos rumos

A Educação Musical é um componente curricular obrigatório, tanto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), quanto pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), além de estar presente, também, no currículo de várias redes públicas, estaduais e municipais. De todo modo, a Educação Pública é, igualmente, responsabilidade de toda sociedade, em suas mais variadas instâncias e não apenas do poder público, eis porque, por exemplo, procuramos, sempre que possível e na medida do viável, envolver as famílias em nossas ações.

A Educação Musical é um poderoso fator pedagógico do qual podemos lançar mão para educar o estudante e para auxiliar o trabalho do professor (e não apenas o de música) em sala de aula. Basta relembrarmos as habilidades trabalhadas pelo ensino da música, ora expostas neste artigo, bem como a ideia do curso profissionalizante, resumido no item anterior. As crônicas a seguir bem o demonstram os rumos traçados, o que estamos seguindo e apontam para os que podermos vir a tomar, daqui por diante. Um rumo coletivo, prazeroso e estrondosamente alegre.

Que rufem os tambores e soem as trombetas: a Música e a Educação Musical pedem passagem!

 

Bibliografia consultada e sugestões para aprofundamento

  • ANTUNES, Celso. As inteligências múltiplas e seus estímulos. Campinas: Papirus, 2002.
  • ARROYO, Margarete. Educação Musical na contemporaneidade. Anais do II Seminário Nacional de Pesquisa em Música da UFG. Páginas 18-29, 2002.
  • BERGER, Peter L. & THOMAS, Luckmann. A construção social da realidade: tratado de Sociologia do Conhecimento. Petrópolis: Vozes, 1985.
  • CAMPBELL, Don. Introduction to the musical brain. Saint Louis: MMB Music, 1996.
  • CARDOSO, Silvia Helena. O que é mente? Cérebro e Mente. Revista Eletrônica. Universidade Estadual de Campinas, dez. 1997/fev. 1998.
  • CARNEIRO, Celeste. Lateralidade, percepção e cognição. Cérebro e Mente. Revista Eletrônica. Universidade Estadual de Campinas, maio/jul. 2001.
  • COSTA-GIOMI, Eugenia. Los beneficios extramusicales del aprendizaje del piano. Encontro Latino-Americano de Educação Musical.  Mar del Plata, 2001. Anais…Mar del Plata, Argentina, 2001.
  • GARDNER, Howard. Frames of mind: the theory of multiple intelligences. New York: Basic Books, 1983.
  • GEERTZ, Clifford. A interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Guanabara/Koogan, 1989.
  • HERCULANO-HOUZEL, Suzana. O cérebro nosso de cada dia: descobertas da neurociência sobre a vida cotidiana. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2002.
  • ILARI, Beatriz. A música e o cérebro: algumas implicações do neurodesenvolvimento para a educação musical. Revista da Abem (Associação Brasileira de Educação Musical), número 9, Páginas 7-16, setembro de 2003.
  • KOTULAK, Ronald. Inside the brain: revolutionary discoveries of how the mind works. Kansas City: Andrews McMeel Publishing, 1997.
  • LEVINE, Mel. Educação individualizada. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
  • PENNA, Maura. Poéticas musicais e práticas sociais: reflexões sobre a educação musical diante da diversidade. Revista da Abem (Associação Brasileira de Educação Musical), número 13, Páginas 7-16, setembro de 2005.

 

 

Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana
Fundador do Grupo Preserva Catete (uma livre iniciativa cidadã para, pensando universal, agir localmente)

Instagram: @cfgalvao54
profcfgalvao@gmail.com

 

 

 

 

 

 

Author

Carlos Fernando Gomes Galvão de Queirós é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 160 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil, também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Atualmente, escreve com alguma regularidade no Portal ArteCult. É autor, igualmente, de 14 livros.

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