METRÔ

Coluna de ROSE ARAUJO

METRÔ

de Rose Araujo

Uma jovem
de vestido lilás
e cabelo cor de céu
entra no vagão

ela claudica
até o assento
contorcendo-se em dores

ninguém a percebe
repara enxerga ou vê
quiçá cede lugar

apenas uma senhora
sem seu celular

 

Dirijo-me à estação do metrô Siqueira Campos, a mais profunda das estações cariocas: escadas rolantes, esteiras rolando e a costumeira corrida para alcançar o próximo embarque. Procuro o vagão cor de rosa, na garantia de uma viagem minimamente tranquila. O dia cede à tarde, que se apresenta efusiva e apressada.
Há pessoas agasalhadas ao modo carioca e também gringos distraídos nesse inverno sendo inverno na terra de São Sebastião.
Em meio a ponteiros e cansaços há mulheres e meninas, crianças e alguns homens também. Chama-me a atenção a cena cotidiana, descrita em meu poema, e traz-me a reflexão sobre o canto da sereia luminosa e piscante que a todos seduz: a empatia anda distraída, em meio as notificações, como se o mundo, em têmperas e temperos, se reduzisse a palma das nossas mãos.

ROSE ARAUJO 

Rose Araujo. Foto: Divulgação.

Conheça a coluna de Rose Araujo

 

 

Author

Rose Araujo considera-se paranaóca: paranaense de raiz e carioca de toda a vida. No entrelaçar das culturas algumas vezes de lá e outras tantas de cá. Assim leva a vida gostando de gente, de bicho, de livro, de planta e - sobretudo - de poesia, tecendo artes, aguçando o olhar, em meio a tantas gentes. Desenhista industrial de formação, é também poeta, fotógrafa e produtora cultural por paixão. Realizou inúmeras produções de shows, eventos e projetos gráfico sendo, alguns, em parceria com o maestro e pianista Haroldo Goldfarb. Desde 2020 Rose coordena o Espaço Cultural da CasAmarElinha, em Itaipu - que carinhosamente renomeou de ItaiPAZ - na Região Oceânica de Niterói- RJ. Em seus seis anos de efervescência, realizou lives, saraus premiados pela Comissão de Arte e Cultura do Rio de Janeiro e APPERJ e lançamentos e entrevistas sob o projeto itinerante da Passarela da Poesia, projeto onde já passaram significantes nomes da poesia contemporânea brasileira. Estreou na literatura em coletâneas e antologias, mas seu primeiro livro solo nasceu em 2022, em plena pandemia. Em Quando Vida Poesia (Editorial Casa, 2022) foi presenteada pelo prefácio de Tanussi Cardoso e orelha de Ricardo Alfaya, tendo grande receptividade de público e crítica. Rose Araujo e membro da APPERJ-RJ, UBE-RJ, IICEM e PEN Clube, segue nas feituras de dois livros, já no forno, com lançamentos despontando logo ali. A convite do editor-chefe Rapha Gomide, vem somando à grande família de colunistas do portal ArteCult, em sua coluna quinzenal Poesia em Todas as Artes, desde janeiro de 2025. Rose acredita no coletivo, nas somas, no vamos juntos, no enquanto e no encanto da vida, sendo mais e mais poesia. @rose_araujo_poeta @passareladapoesia @rosearaujofotosafetivas

24 comments

  • Querida Rose, há lirismo em sua prosa e poesia numa só conexão. O cenário urbano preenchido pelos personagens cotidianos nos servirá sempre de inspiração. Parabéns!

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  • Rose nos leva, através da sua reflexão poética , a atitudes cada vez mais presentes no nosso cotidiano.
    É a desumanização do ser humano.

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  • Lindo, minha flor! As pessoas perderam a essência da empatia, não olham mais pro seu próximo. É triste mas é a nossa realidade e você, como sempre, delicadamente definiu bem. Parabéns.

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  • Poema suave, mas duramente realista, como é o dia a dia corrido e urgente dos frequentadores do metrô. A necessidade imediata de empatia se faz presente.

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  • É uma bela cena, um recorte do cotidiano carioca.
    Rose Araujo “caça” poema no espaço da aparente normalidade.
    Parabéns, poeta!

    .

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  • Uma cena cotidiana. Invisível. Como quase tudo no meio da aglomeração urbana. Sólida profunda.

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  • Muito bonito e tocante, Rose querida! Admiro muito sua capacidade de dizer tanta coisa em poucas palavras. E diz muito!

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  • No poema “Metrô”, Rose flagrou um momento em que o uso pervertido da tecnologia leva as pessoas a se tornarem indiferentes à sorte humana, insensíveis. Essa cena ela soube transformar e sintetizar em poesia, que nos move e nos comove.
    Parabéns, poeta!!

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  • Empatia distraída, mente anestesiada. Conexões que nos desconectam. Ah o cotidiano e suas camadas profundas!

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  • Rose
    Que lindo o seu olhar sensível e de amorosidade ao cotidiano. Você em uma parte de sua vida vivendo o aqui e agora. Se conectando com o momento presente, por isso canalizou esse lindo poema. Que venham mais poemas do cotidiano com esse seu olhar do momento presente. Parabéns, achei lindo ❤️

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  • Rose, seu poema é profundo. É a fala de muitos. Quantas dores alheias, viajam com a gente no metrô? Só a nossa própria dor é companheira e torturadora. Parabéns. Gostei de conhecer Artecult.com

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  • Mais uma vez colho uma belíssima pérola escrita pela nossa grande poeta Rose Araújo num texto e contexto comovente.

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