
IArte – Chris Herrmann
Mais um dia de vida ou um dia a mais?
“Algo me diz que tenho escrito muito sobre a morte.
Aliás, por que há tanta gente que até se benze
quando tocamos neste assunto?
A morte é a única verdade e cada dia a mais
vivido é um dia a menos que se vive.
Pra que fazer tanta cara de enterro
quando deveríamos tratar dela com humor?
Desta vida não escaparemos com vida (…).
A verdade é que eu queria mesmo é ser abduzida
por um disco voador e sumir sem maiores
explicações.”[1]
Tenho um fascínio de vida pela morte. É um tema que estudo há alguns anos e não se esgota. Fui lá na antiguidade clássica grega para estudar e tentar entender como esse assunto era visto por pensadores como Epicuro ou o estoico Epicteto. Fui também estudar os saberes ancestrais dos povos originários e há muitas outras possibilidades de estudo, nas mais diferentes culturas e tempos. É um tema que definitivamente permeia e dá contornos éticos à vida de qualquer ser racional (ou deveria).
E por que falar da morte é tão atual e relevante? É um pouco o que vou articular neste artigo de hoje: refletir sobre nossa finitude e como podemos ter uma vida mais autêntica com a consciência de nossa brevidade. Afinal, não somos soberanos em nada diante desta natural finitude. Nenhum ser vivente o é. A diferença, talvez, é que nós, animais homens temos a capacidade de pensar (logos) e de escolher (livre-arbítrio) sobre como agimos conosco e com os outros viventes. Qualquer ser vivente. Isso é muita coisa já!
A tradição filosófica atribui a Tales de Mileto (século VI a.C.) o ‘início’ da Filosofia, quando este lançou a pergunta “tí estin?” – o que é isto? É uma questão, uma curiosidade, um querer saber. Este ponto ‘inaugural’ marca o começo do nosso fazer filosófico. Para Martin Heidegger, filósofo alemão do século XX, “o espanto é, enquanto páthos, a arkhé da filosofia.” (p. 21)[2]. Páthos entendido como paixão, turbilhão de afetos e arkhé “designa aquilo de onde algo surge”; mais adiante ele afirma que “o espanto carrega a filosofia e impera em seu interior.” (p. 21).
Com isso, eu volto ao título do artigo de hoje: mais um dia de vida ou um dia a mais? Daí eu questiono: para quem? Com quem? Como? Onde? Por que esse dia? As perguntas são múltiplas e suas respostas variam (ainda bem), de acordo com nossa capacidade de reflexão, de pensamento e deliberação. E neste caso, é um pensar para si, já que cada indivíduo só pode viver a sua própria vida. E olha que lindo isso! Cada uma e cada um vive apenas e a sua própria vida. Parece bastante óbvio, mas é preciso repetir as perguntas anteriores, para tentarmos entender a potência de possibilidades que é a vida.
A escritora Rosa Montero, em seu livro O perigo de estar lúcida[3] nos lembra que:
“Morrer faz parte da vida. Morrer é um fato profundamente humano. Você morre sozinho, sim, talvez com sua dor e com seu medo, mas morre sabendo que todos iremos pelo mesmo caminho. É cumprir mais uma vez com o destino comum. Todos os indivíduos experimentaram essa realidade desde o princípio do mundo.” (p. 19).
Complementando o argumento, cito duas Sentenças[4] do filósofo Epicuro de Samos (século IV a.C.):
“Nascemos só uma vez, não é possível nascer duas vezes, teremos de não ser por toda a eternidade. Tu, porém, que não és de amanhã, postergas tua alegria; mas a vida se desperdiça com a demora e cada um de nós morre envolvido em seus afazeres.” (Sentença # 14).
“Alguns gastam a vida preparando aquilo que é relativo à vida, não percebendo que ao nascer tomamos, cada um de nós, uma poção mortal.” (Sentença # 30).
Como vimos até aqui, a morte nos atravessa indistintamente. É um fato inelutável. Mas a abertura para a possibilidade da mudança se dá a partir do que cada uma e cada um de nós pensa sobre esta finitude. É neste ponto – que para mim é basilar – onde se estrutura um bem viver autêntico e talvez sereno. Para ajudar no raciocínio, trago um fragmento de Epicteto[5], filósofo estoico, ex-escravizado, do século I d.C.:
“V. Não são as coisas que inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. Por exemplo: a morte nada tem de terrível, ou também a Sócrates teria se afigurado assim, mas é terrível a opinião sobre a morte, segundo a qual ela é terrível. Então, quando formos impedidos, quando nos inquietarmos ou nos afligirmos, jamais consideremos qualquer outra causa senão nós mesmos – isto é, nossas próprias opiniões. É ação do ignorante acusar os outros pelos equívocos que ele mesmo comete. É do que começou a se educar acusar-se. É do homem educado não acusar os outros nem se acusar”. (p. 34).
Para mim, dos cinquenta e três fragmentos que temos do filósofo, contidos no Manual, este é o mais iluminado, no que diz respeito sobre como devemos lidar com o que ocorre a nossa volta: pessoas, atitudes e acontecimentos. Porque não são as coisas em si que perturbam os homens, mas o que estes pensam sobre aquelas. Vejo aqui um traço marcante da influência socrática: afastar-se da opinião, do falso conhecimento e ao mesmo tempo um convite ao autoconhecimento. Como um conselho para um ‘exercício’ filosófico, o que vemos no fragmento é uma orientação ética de autorreflexão para um distanciamento do que aflige a alma. Difícil e por isso mesmo requer ‘exercício’.
Pois para os estoicos, sobretudo para Epicteto, a morte é tão parte da vida quanto o contrário. Por isso mesmo não devemos temê-la. E assim, nosso agir consigo e com os outros precisa levar em consideração que devemos bem agir e bem viver aqui e agora. Sem postergação ou temores: porque não sabemos – e nem nos cabe saber – quando será o derradeiro instante de vida.
Neste sentido, Michel Foucault[6], filósofo francês do século XX nos propõe o exercício do último dia:
“que consiste não apenas em dizer a si mesmo: oh! Poderei morrer hoje; poderia ocorrer-me um acontecimento fatal que não previ. Trata-se antes de organizar, de experimentar o período de um dia, como se cada momento dele fosse o momento do grande dia da vida, e o último momento do dia, o último momento da existência. Pois bem, se conseguirmos viver o período de um dia seguindo este modelo, no momento em que ele se acabar, no momento em que nos prepararmos para dormir, poderemos dizer com alegria e o semblante risonho: ‘eu vivi’”. (p. 430).
É um ‘olhar do alto’ que o filósofo francês destaca; também uma visão panorâmica do momento presente e uma aproximação do caráter autêntico que devemos ter em mente para o agir. Em resumo: enaltece o valor do presente, do aqui e agora. Afinal, como afirma o Padre Antônio Vieira em seus Sermões da Quarta-Feira de Cinzas[7]:
“Sois pó, e em pó vos haveis de converter.” (p. 69).
O artigo de hoje pretende uma reflexão sobre nossa finitude porque entendo que a contemporaneidade está ‘deixando de lado” e atropelando seus próprios limites, com autossofrimento, adoecimentos (físicos e psíquicos) e violências (falta de respeito, falta de empatia, de tolerância…a lista é longa). Mas é necessário nos voltarmos para uma reflexão sincera (consigo) da nossa dimensão do humano finito e de nossos valores éticos. Como estamos vivendo? Como estamos nos sentindo? Como estamos tratando os outros à nossa volta? As perguntas, neste sentido, são muitas. Mas o melhor disso tudo, no meu entendimento, é que dá pra mudar, porque estamos vivos! E podemos a qualquer instante, recalcularmos a ‘rota’.
Nesta trilha da vida, permeada de bons afetos, temos as amizades, que são ‘molho’ fundamental para uma boa caminhada compartilhada. São essas amigas e esses amigos que estão ali e nos revelam sua face e oferecem a mão na caminhada. São aquelas e aqueles que silenciam ao nosso lado, que escutam, que falam, que choram, que dançam… ao nosso lado. E por esse tanto de possibilidades entendo que é absolutamente imperativo desfrutarmos e cuidarmos desses bons afetos, como nos alerta o filósofo Sêneca, estoico do século I, sobre a relevância de aproveitarmos as nossas amizades, diante da imprevisibilidade do último dia:
“Desfrutemos avidamente dos amigos justamente porque é incerto por quanto tempos poderemos contar com isso. […] Desse modo, devemos pensar assiduamente tanto na nossa condição mortal como na de todos que amamos.” (Epístola # 63)[8]
Complementando o ponto de vista anterior, o escritor José Eduardo Agualusa[9], nos lembra que:
“É isso que a proximidade da morte faz conosco. Anula os minúsculos dissabores do cotidiano, os rancores inúteis. De repente, tudo o que importa aparece nítido, iluminado.”
Acredito e entendo que é sobre esta chance que temos – de refletir sobre nossa natural condição de finitude – que pode abrir uma possiblidade para valorizarmos os bons afetos e as boas relações. Uma chance de mudarmos nosso modus vivendi e modus operandi e assim uma vida mais autêntica, porque como diz Mestre Vitalino[10]: “nóis morre, as coisa fica.”. Ou também porque:
“é suficiente o que a vida nos oferece, mas ficamos ávidos por suas dádivas: parece que nos falta algo e vai parecer sempre. Não são nem anos nem dias que garantem termos vivido o suficiente, mas nosso espírito. Vivi o suficiente, caríssimo Lucílio. Satisfeito, espero pela morte.”, como afirma Sêneca em sua Epístola # 61, endereçada a Lucílio.
Com isso, encerro o artigo de hoje, afirmando e conclamando sobre a urgência do bem viver mais um dia de vida. Consigo e com o outro. E pra alegrar o final da sua leitura, deixo aqui trecho de uma música que gosto bastante e diz muito sobre essa alegria de viver – O que é o que é? [11], de Gonzaguinha:
Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita
Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz”
E pra você, mais um dia de vida ou um dia a mais?
Então vamos “viver o dia de hoje”, que é o que nos cabe?
A citação anterior parte de uma frase-lema de vida de uma grande amiga, D. Maria Lúcia, a quem dedico este artigo. Ela é aqui a amada representante das minhas amigas e amigos, com quem tenho o encanto e o privilégio de (com)partilhar esta existência.
Um abraço fraternal e até o próximo artigo na ArteCult.
[1] LEE, Rita. Outra biografia. 1ª ed. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2023.
[2] IN: HEIDEGGER, Martin. Conferências e escritos filosóficos. Tradução e notas Ernildo Stein. 4ª ed. – São Paulo: Nova Cultural, 1991.
[3] MONTERO, Rosa. O perigo de estar lúcia. Tradução Mariana Sanchez. São Paulo: Todavia, 2023. p. 19
[4] EPICURO. Sentenças vaticanas. Tradução e comentários João Quartim de Moraes. São Paulo: Edições Loyola, 2014.
[5] ARRIANO, F. O Manual de Epicteto. Tradução de Aldo Dinucci. Campinas, SP: CEDET, 2020.
[6] FOUCAULT, M. A hermenêutica do sujeito. Tradução Márcio Alves da Fonseca, Salma annus Muchail. 3ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
[7] IN: VIEIRA, Antônio. Sermões de quarta-feira de cinza. Org. Alcir Pécora. Campinas, SP: Ed. Da Unicamp, 2016.
[8] IN: SÊNECA. Edificar-se para a morte. Tradução de Renata Cazarini de Freitas – Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 86-88.
[9] IN: O Globo de 14 de março de 2026. Segundo Caderno, p. 6
[10] Frase atribuída ao Mestre Vitalino. É também nome de uma exposição de artes populares no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Acervo digital disponível em http://antigo.cnfcp.gov.br/ Acesso em 18 set 2024.
[11] Compositores: Baiana / Mauricio De Britto Freire Pacheco / Mauricio Pacheco / Roosevelt Ribeiro De Carvalho / Vanessa Sigiane Da Mata Ferreira
Letra de Gente feliz © Sony/ATV Music Publishing LLC, Universal Music Publishing Group











Zao … Escrever é um ato de coragem, e filosofar é um ato de resistência. Você tem ambas. Que as palavras fluam com a mesma profundidade que os seus pensamentos. Parabéns pelas palavras e pensamentos. Vc e uma pessoa maravilhosa e iluminada . Um grande e fraterno abraço.