Sobre Reencontros familiares

Coluna de Márcio Calixto

 

IArte – Chris Herrmann

 

SOBRE REENCONTROS FAMILIARES

 

Um detalhe me aviltou pensamentos: a questão de um reencontro depois de cinco anos, de minha família. Desde a morte de minha avó, em 2021, toda a família por parte de mãe havia se dissipado. Não houve mais os momentos em que realmente nos uníamos, fazíamos questão de que isso acontecesse, na casa de minha avó, no bairro de Brás de Pina, subúrbio do Rio. Íamos para lá pela velha. Depois de sua partida, perdemos essa âncora emocional.

Veio minha mãe, em seus 70 anos, unir todos por uma festa. Era 70. Precisávamos comemorar. Vó Martiniana, essa que se foi, chegou aos 90. Meu avô, que partiu há mais de 20 anos, também chegou aos 90. Acho que 92. Quando ele se foi, eu tinha pouco mais de 20 anos. Chorei o que podia e o que não podia. Por minha avó também. A morte dela me foi muito traumática, mais sentida. Acredito que por todos.

Tenho uma prima que suplantou em nossa avó a mãe que já fora há mais tempo. Sim, minha avó teve de suportar o peso de uma filha que partira. Deixou 3 filhos. Dois, de alguma maneira, adotamos, não me são mais primos, são irmãos. Nesse aniversário de minha mãe, esse primo me disse que estava carente de mãe, disse-lhe para se aprumar, para aproveitar, pois tinha espaço, aconchego. Há bastante espaço para todos. Minha prima mesmo já passara o Natal conosco, principalmente depois de sua traumática separação. Sua filha e minha filha já são muito amigas. Algo que facilita.

Foi com esse primo que pensei em criar um Moto Clube com o nome da família. Sei que, pelo menos, os meus irmãos irão embarcar nessa história. É hora de realmente nos reencontrar.

Penso nisso depois que experimentei a morte de uma amiga no trabalho. Sua partida precoce mexeu demais comigo. Ela, tão jovial, consumida às pressas por um câncer, nos deixa. Não houve tempo à vida em si, em querer aproveitar. Acho que a ida de Carla me trouxe um senso de urgência em querer viver que eu não sei se darei conta. Ver essa parcela da família reunida, depois de exposta às ruínas dos destemperos, trouxe-me um desejo à redenção dos poucos momentos. É preciso reviver. Reunir.

Claro que iremos sentir saudades. Dos que foram, dos que estão longe, daqueles que parecem perdidos no mundo, quando fizermos essa reunião. O que deve acontecer é que não podemos deixar que nos percamos de si mesmos, que é o que primordialmente tem nos acontecido. Durante o velório de minha avó, dois acontecimentos me marcaram: o discurso de meu primo mais velho, que chamou pela nossa manutenção como família. Esse primo não mora aqui no Rio. Sua irmã, em uma publicação na internet, afirmou que nossos encontros seriam cada vez mais escassos. Não deu outra, levamos 5 anos, e só foi possível por uma festa de minha mãe.

Durante toda a festividade, ficou categórico o nosso desejo de reencontro. Muito categórico. Precisamos colocar nossos filhos para serem primos entre si. Eu que tive primos estou tirando de meus filhos a capacidade de ter primos. Eu não tive todos os primos. Brigas entre os adultos da época levaram a certa bancarrota familiar. Não posso deixar que o mesmo aconteça com meus filhos, sem primos e primas. Para a contemporaneidade, parece um contrassenso, quero que meus filhos tenham a presença de primos. É um reencontro com a tradição familiar.

Logo logo será noite e sei que não vou ter mais tempo a nada. Preciso desse reencontro. Até por mim mesmo.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


Coluna de Márcio Calixto

 

 

com Chris Herrmann

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Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.