DOS DIAS GRIS TAMBÉM NASCEM POEMAS

Coluna de ROSE ARAUJO

Foto: Rose Araujo

 

Entre os Correios

[prenúncio de boas-novas]

e o Multicenter

[templo do que de imediato não se precisa]

um homem chora

 

molha a calçada, já umedecida,

desaguando a sua dor

lava velhas cicatrizes,

leva recentes feridas.

 

Um homem chora

terno roto, camisa vinho,

de punhos largos

displicentemente abotoada

[casas perdidas dos botões e do tempo].

 

Um homem chora

sua mochila de alças curtas

traz algo de longas histórias

o choro doído vai de encontro

a cada um que por ele passa.

 

Ele chora

transborda e chora

expõe-se e revela

lamenta-se

talvez de fome,

talvez de frio,

talvez da falta de gente

que lhe aqueça o dia com um abraço.

 

O homem

perambula imperfeito

devastado no malfeito

de esfumaçados dias.

 

Durante o seu choro

enxugamos os olhos.

 

ROSE ARAUJO

Rose Araujo (@rose_araujo_poeta). Foto: Divulgação.

 

 

 

 

 

 

 

 

Author

Rose Araujo considera-se paranaóca: paranaense de raiz e carioca de toda a vida. No entrelaçar das culturas algumas vezes de lá e outras tantas de cá. Assim leva a vida gostando de gente, de bicho, de livro, de planta e - sobretudo - de poesia, tecendo artes, aguçando o olhar, em meio a tantas gentes. Desenhista industrial de formação, é também poeta, fotógrafa e produtora cultural por paixão. Realizou inúmeras produções de shows, eventos e projetos gráfico sendo, alguns, em parceria com o maestro e pianista Haroldo Goldfarb. Desde 2020 Rose coordena o Espaço Cultural da CasAmarElinha, em Itaipu - que carinhosamente renomeou de ItaiPAZ - na Região Oceânica de Niterói- RJ. Em seus seis anos de efervescência, realizou lives, saraus premiados pela Comissão de Arte e Cultura do Rio de Janeiro e APPERJ e lançamentos e entrevistas sob o projeto itinerante da Passarela da Poesia, projeto onde já passaram significantes nomes da poesia contemporânea brasileira. Estreou na literatura em coletâneas e antologias, mas seu primeiro livro solo nasceu em 2022, em plena pandemia. Em Quando Vida Poesia (Editorial Casa, 2022) foi presenteada pelo prefácio de Tanussi Cardoso e orelha de Ricardo Alfaya, tendo grande receptividade de público e crítica. Rose Araujo e membro da APPERJ-RJ, UBE-RJ, IICEM e PEN Clube, segue nas feituras de dois livros, já no forno, com lançamentos despontando logo ali. A convite do editor-chefe Rapha Gomide, vem somando à grande família de colunistas do portal ArteCult, em sua coluna quinzenal Poesia em Todas as Artes, desde janeiro de 2025. Rose acredita no coletivo, nas somas, no vamos juntos, no enquanto e no encanto da vida, sendo mais e mais poesia. @rose_araujo_poeta @passareladapoesia @rosearaujofotosafetivas

10 comments

  • Como diz a música: – ” Cantar nunca foi só de alegria. Em tempo ruim todo mundo também dá Bom Dia.

    Adorei Rose !

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  • Nossa querida poeta nos emociona sempre com suas poesias de visão e sensibilidade à flor da pele. Parabéns Rose!

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  • Nossa querida poeta sempre nos emocionanando com suas poesias de visão sensível e grande talento.
    Parabéns, Rose!

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  • Que tocante, humano, crítico, triste, real, pungente e, infelizmente, retrato fiel de nossas ruas. Cabe ao poeta entender o quanto de ternura cabe dentro do fato. E agir logo, transformando o real em poema. Parabéns, Rose!

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  • Gostei muito do comentário do nosso amigo e poeta Tanussi Cardoso, sobre seu belo e sentido poema .
    Ele tem um quê de cena de filme de Charles Chaplin: a humanidade, o outro, em lágrimas e milagres.
    Aquele homem mal ajambrado tem uma dor profunda, em sua alma.
    De que chora, este meu outro? Suplica por algo que só ele sabe e pode dizer.
    O homem exala dignidade em seu febril choro de desespero. Vulnerabilidades.
    A poeta Rose Araujo fisgou o momento dramático, repleto de detalhes e pétalas humanas, traduzindo em poesia. Bravo!

    Luis Turiba.

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