De potinhos sem tampa e meias sem pares: crônica de um país que não se acha

IArte – Chris Herrmann

 

De potinhos sem tampa e meias sem pares: crônica de um país que não se acha

 

Se não há significado, não é linguagem.

Noam Chomsky, filósofo e lingüística norte-americano

 

Eis que, naquela manhã, ela saiu da cama disposta a limpar a relativa bagunça em que ficara a cozinha, depois do jantar que o marido fizera por conta do aniversário de casamento deles. Com o marido ainda roncando pelo vinho a mais que ingerira durante a noitada, ela se dirigiu à mesa onde jaziam não apenas as taças do dia anterior, como também copos e potinhos plásticos e de vidro d´outras festinhas. Ela, mulher organizada, varreu o chão e foi, cuidadosamente, guardando os copos e as taças. Contudo, na hora de guardar os potinhos, eram oito no total, três deles, para seu terror, estavam sem tampa. “Ai, meu Deus, e agora?!”, exclamou, perguntando-se sem ter como responder. O marido, que já acordara e entrava na cozinha, espantou-se e ensaiou uma retirada estratégica, crente que ela descobrira a besteira que ele fizera na madrugada. Mas não, ela não descobrira. Ufa! Apenas perguntou para ele se vira as preciosas e insubstituíveis tampinhas dos estimados potinhos “que são da mamãe e ela vai me matar se não achar as tampas!”. Aliviado, o marido apontou para o escorredor e disse “amor, olha ali, não são aquelas?”. Ela olhou, correu e descobriu que sim, quatro delas eram as tampas faltantes, outras duas eram tampas de outros potinhos, dela, que havia emprestado para a filha, sem tampa porque não as achara na hora e que aguardava a devolução para os conjuntos serem restabelecidos. Mas ainda faltavam duas tampinhas. Depois de quase uma hora procurando e da casa revirada (até a casinha do cachorro foi revistada), após achar uma delas debaixo da almofada do sofá da sala, que estava debaixo de dois casacos que não sabia de quem eram, ela desistiu e começou a pensar na desculpa que ofertaria à mãe para o desastre do potinho remanescente e sem tampa.

Pouco depois, enquanto o marido limpava a piscina, ao som de Beatles e regado à cervejinha, para preparar a casa para o churrasco pelas bodas de prata do casal, que aconteceria dali a pouco, ela foi estendendo a roupa da família, que acabara de lavar na máquina e descobriu, embora sem nenhum espanto, que o pé de uma de suas meias e que o pé de uma das meias do filho mais novo haviam, ambos, sumido! Como fizera tantas outras vezes, ela separou as duas meias para aguardar aquele momento em que os outros pés seriam (nem sempre) localizados para completar os dois pares, agora díspares.

Há quem afirme que existe um universo paralelo para onde se encaminham pares de meia e tampas de potinhos. Dizem, também que, uma vez abduzidos, esses objetos viram entidades etéreas e jamais retornam, embora alguns consigam escapar e voltar à realidade deste mundo. Uns tantos falam, não sem um quê de provocação, que as bolsas femininas também são passagens místicas, espécies de sumidouros temporários para os aparelhos de celular, mas essa é outra história… Fato é que este universo paralelo não é, apenas, segundo percebo, das tampas dos potinhos e dos pares de meia (além, talvez, de um e outro celular), é também do Brasil atual. O problema maior ocorre quando o intangível se sobrepõe ao tangível; quando a vida começa a não fazer muito sentido, não mais do que um roteiro de quinta categoria ou do que a busca, infrutífera, por tampas e meias perdidas em Nárnia.

Em 2018, o candidato à presidência, de triste e trágica memória, que fugiu dos debates de ideias, certamente por não as tê-las em profusão suficiente para encher uma lauda ou um áudio de 30 segundos, dizia as maiores sandices e algumas pessoas ignoravam; dizia as maiores impropriedades históricas e políticas e umas tantas pessoas até achavam engraçado. Esta criatura bisonha e das trevas esteve como Deputado Federal por quase 30 anos no Congresso Nacional, mas seus admiradores diziam que ela era “novo na política”; foi filiado a muitos partidos todos originários da ditadura militar, mas vive falando em liberdade e em democracia; foi filiado ao partido com mais investigados, acusados e condenados no episódio conhecido como “petrolão”, o PP, e fez parte dos acusados de receber propina, além de esconder patrimônio, mas seus eleitores diziam, muitos ainda o dizem, que ele era honesto (e para ficar em um único exemplo, sua família compro 107 imóveis com dinheiro vivo!). Ele diz, até hoje, dentre outras coisas nebulosas, a maior das violências, que é pregar contra a vida, abertamente, contrário aos melhores valores humanos e espirituais e as pessoas que o seguem o aplaudem, algumas sem perceber a crueldade e o engodo, outras o desejando, por preconceitos e autoritarismo, outras muitas, percebendo, mas ou ignorando, deliberadamente, por interesses vários ou compactuando, pura e simples, com suas crueldades.

Esses são fatos bizarros que, esperava (ainda espero!), não mais aconteceriam após o nazi-fascismo ter sido derrotado no “pós II Guerra Mundial” – mas o Estado Nazissionista de Israel (atenção: nada contra judeus, falo do desgoverno genocida que existe por lá) e a autocracia de Donald Trump me lembram que ainda estamos muito longe de defenestrar esse pessoal para seus antros dos quais nunca deveriam ter saído. O universo paralelo dos “sem noção e sem humanidade” está, contraditoriamente, se comunicando com o mundo real e estamos presenciando o maior dos disparates políticos: o terror pré-medieval e inquisitorial está vencendo a liberdade, a igualdade e a fraternidade. E isso transcende a dicotomia direita-esquerda: lutar contra ideias escatológicas e antidemocráticas é uma briga civilizatória e sanitária. E aparentemente, eterna. Há boas pessoas de todas as ideologias e devemos nos unir para barrar o avanço dos desumanos autocratas.

Uma nuvem carregada paira sobre nós e estamos brincando de tomar banho de chuva (ácida), sem ver os raios que se aproximam, novamente, e que por aqui poderão nublar o tempo por décadas, como em passado recente. Vai ser muito difícil reconstruir este país, caso o obscurantismo autoritário prevaleça. Contudo, é absolutamente necessário, como nos mostrou o pensador norte americano Noam Chomsky na frase em epígrafe, que não desanimemos de todo (difícil manter o humor e a alegria, em muitos momentos, mas não podemos esmorecer para não dar a vitória para os mal intencionados e mal amados), novos significados devemos produzir e não apenas nas nossas formas de comunicação, mas também e, sobretudo, nas nossas formas de sentir, pensar e agir para uma vida melhor e, não sendo egoísta, que esta vida melhor venha para todos ou, ao menos, para a maioria e não apenas para uns poucos privilegiados.

Sinal dos tempos: a decência, a gentileza, a sutileza, a fraternidade, o respeito pela diversidade e o amor ao próximo, todos esses valores (e uns tantos mais) que estão sumindo deste país, se forem encontrados, um dia, quem sabe, talvez o sejam se os acharmos ocultados pelos pares de meias e escondidos pelas tampas dos potinhos no universo, que parece ser, ou estar se tornando, paralelo, de um mundo realmente humanitário e democrático. Talvez possamos ligar para os celulares abduzidos, com o intuito de achar esses valores humanitários; talvez os reencontremos. Vai saber! O que indago, neste momento tenebroso é: vamos realmente permitir que a tempestade se instale e que as forças do mal deste universo paralelo invadam nosso universo real do Brasil e do mundo em que vivemos? Gente, só temos este mundo!

 

P.S. – este texto, ora retrabalhado, foi publicado, originariamente, no dia 09 de novembro de 2018, no Jornal do Brasil.

 

 

 

Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana

Instagram: @cfgalvao54

E-mail: cfgalvao1980@terra.com.br

 

 

 

Author

Carlos Fernando Gomes Galvão de Queirós é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 160 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil, também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Atualmente, escreve com alguma regularidade no Portal ArteCult. É autor, igualmente, de 14 livros.

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