
por César Manzolillo

Imagem gerada por IA
LODO
O reflexo no espelho do banheiro da cobertura no Leblon não mostrava apenas o terno de linho de Augusto, refletia o maior investidor imobiliário do Rio de Janeiro. Para ele, a Cidade Maravilhosa existia para ser dominada por sua inteligência. Naquela noite, após ser homenageado num jantar no Copacabana Palace, ele entrou no seu sedã blindado. No banco da frente, Tomás, seu motorista há mais de dez anos. O céu começava a desabar num temporal típico de verão.
— Senhor Augusto, a Lagoa está transbordando, e o acesso ao túnel está inundando — alertou Tomás, olhando pelo retrovisor. — Seria melhor voltar ao hotel para esperar a água baixar.
— Esperar? De forma alguma! Tenho uma reunião virtual com empresários japoneses daqui a meia hora. O carro aguenta qualquer enxurrada.
— É perigoso, senhor. A força da água…
— Você está velho e medroso, Tomás. Saia do volante agora!
Augusto assumiu a direção, ignorou os alertas no painel e acelerou o carro importado. Não seria um capricho da natureza que iria mudar seus planos. Durante o trajeto, o motor aspirou água e apagou. O sistema elétrico entrou em pane e travou portas e vidros blindados. O pânico subiu pela espinha de Augusto ao ver a água suja minar pelo painel. Tomás conseguiu sair pelo teto solar e subiu no teto do veículo. Em seguida, quebrou o vidro traseiro com uma chave de roda.
— Senhor Augusto, segure a minha mão, o carro vai afundar.
A água já chegava ao peito do investidor, mas a empáfia de Augusto pesava mais do que o bom senso.
— Eu dou um jeito, afaste-se! — gritou, tentando forçar a porta travada.
Vencido pela tempestade, o carro inclinou e afundou na correnteza. Àquela altura, Augusto já não gritava. Preferiu afogar-se em silêncio.
CÉSAR MANZOLILLO

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com Márcio Calixto
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