
com César Manzolillo

LETARGIA
A casa pintada de amarelo pálido cercada de outras poucas casas. Espalhadas no terreno seco salpicado por uma vegetação rasteira e rala. De vez em quando, um cachorro de uma dessas casas late um pouco. O quarto branco de paredes desbotadas. Manchadas. Perto da janela, um pedaço de tijolo aparente. Uma cama, um criado-mudo, uma lâmpada nua, sem lustre, um prato com resto de canja e um aparelho de rádio antigo. Uma cadeira. Deitado na cama, um homem magro e fraco. Olhar ausente, baba escorrendo do lado esquerdo, barba e cabelos desalinhados completamente brancos. Respiração difícil. Deseja balbuciar alguma coisa. Esforça-se. Tosse. Um muco ralo escorre do nariz. Eva aparece na porta. Avental marrom encardido e gasto, coração vermelho desbotado costurado no centro. Mãos úmidas de quem trabalhava na cozinha. Ela não costuma desistir. Jurou diante de Deus, da Santa Cruz e do padre Juarez jamais desistir. Um vento esquálido balança de leve as cortinas puídas. Anoitece e faz um frio insípido. Um dia terminando como tantos outros. Eva e o homem deitado na cama já se acostumaram, há pelo menos dois anos é assim. O gato branco e preto ameaça entrar. Para no limiar da porta por alguns instantes. Espera. Hesita. Observa e desiste. Eva liga o rádio. Procura uma estação. Encontra uma música. Aumenta o rádio. A música termina, começa o noticiário, e as tragédias do mundo se sucedem. O homem deitado na cama faz um gesto. Ele quer água. Ela se dirige à cozinha. No curto trajeto, a canção recém-ouvida lhe faz companhia. Voz rouca, ela canta um pouco, o que recorda da letra Bom dia, tristeza Que tarde, tristeza Você veio hoje me ver Já estava ficando Até meio triste De estar tanto tempo Longe de você e preenche o que falta com murmúrios. Em cima da pia, a moringa. Copo d’água na mão, Eva volta ao quarto.
CÉSAR MANZOLILLO

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