ÀS QUARTAS – Se, ao menos, fosse afinada

Foto: Yoel J Gonzalez, em Unsplash

Sabe a cena de “O casamento do meu melhor amigo” em que Julia Roberts incentiva a moça desafinada a cantar em público, pra constranger a concorrente? O tiro sai pela culatra: o noivo se encanta e o bar inteiro vibra com a apresentação? Comigo, foi diferente.

Nunca tinha cantado em público mas decidi que “ser desafinada” era um rótulo imposto. O cara quis subir ao palco comigo, eu queria ficar com ele, tramei: “canto baixo, finjo que não sei uma parte da letra”. Fui. Ele tomou pela mão uma mulher flertiva, madura, recém-separada. Mas pôs sob holofotes uma menina de cinco anos. Enrubescida e trêmula. A voz desalinhada desde a primeira estrofe. Calei nas outras partes do dueto, tentando diminuir os danos. Ele fingiu compreensão, me deu carona mas não uma segunda chance.

Quando criança, adorava dançar e cantar. A Broadway não me descobriu porque, filha de coronel, se levantasse olhos, pernas ou voz, o olhar de “comporte-se” me vestiria na hora. Longe das vistas, ensaiava canções e ligava a tevê de madrugada para ver musicais de Gene Kelly.

Meu repertório eram as românticas do Roberto e do Chico. Bethânia e Gal. Desejava ser uma das meninas da Blitz e deixava o pai horrorizado com as letras.

Frígida, Betty frígida, rígida

Eu não consigo relaxar

 

Quando mamãe se cansava da cantoria, dizia: “se, ao menos, você fosse afinada…” Os irmãos riam. Eu murchava. Era unânime: eu cantava mal. Cresci lamentando ser gralha e não sabiá. Conformada.

Mas a maternidade montou armadilha pra mim. Colocar filho pra dormir é guerra e, na guerra, perde-se a dignidade. Entoei canções de ninar e clássicos da MPB, atravessando noites intermináveis. Pasmem: o neném adorava. Quando aprendeu a falar, se eu parasse, tirava a chupeta e pedia “eu cai, eu cai”:

Serenou, eu caio, eu caio

Serenou, deixai cair

Serenou na madrugada

Não deixou meu bem dormir

 

Regenerei a auto estima. Até compus duas ou três musiquinhas pro bebê.

Se, na infância dos filhos, somos mitos, na sua adolescência, somos julgados. Quando o menino resolveu aprender a tocar piano, voltei a pensar em fazer aula de canto. “Você é muito desafinada, mãe”. Minha popularidade sofreu um golpe mas reagi com coragem: “vou aprender, ué!”

Não aprendi. Deixei pra lá. Restringi as performances a carro e chuveiro. Mas provocava o filho, por diversão: “quando fizer ‘canto’, vou querer você ao piano”. Ele rechaçava as chances irreais. E ríamos.

Cantamos juntos nas caronas das manhãs. Há um vídeo nosso na plateia do show do A-Ha, com as vozes misturadas a outras centenas. Se eu falar, hoje, ao filho adulto em tocar pra eu cantar, sorrirá, sabendo ser brincadeira. Talvez me devolva: “se, ao menos, você fosse afinada”.

Não ligo. A frase soa engraçada. Vira anedota em conversa ou crônica em oficina. Talvez eu comece por aí, se precisar justificar nova recusa de cantar com outro pretendente. Quem sabe, assim, garanto um segundo encontro?

 

ANA LÚCIA GOSLING

Ana Lucia Gosling (@analugosling)

 

 

 

 

 

 

 

 

Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, aqui no ArteCult, há texto novo da autora. Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

One comment

  • Novamente, um texto preciso, precioso, humorado. Ler Ana Lúcia Gosling, às quartas, já é mais que hábito obrigatório: é prazeroso. E sua crônica, com certeza, nunca desafina. Obrigado.

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