
Com Ana Gosling

Imagem criada por IA / Chat GPT
No auge do calor, tive um gesto tresloucado: comprei, numa tacada, dois novos aparelhos de ar condicionado. Um portátil, para meu local de trabalho, e outro, split, para a sala de estar.
Iniciei uma saga.
Tudo deu errado. Enviaram o portátil com a voltagem trocada. Os Correios se negaram a aceitar a troca sem eu embrulhar o aparelho em papel pardo (orientação não fornecida pela loja). Para não perder a viagem nem ter que voltar com uma embalagem com mais de 20 quilos, saí em busca do papel. Descobri, andando sob um sol de 40oC, que o papel estava em falta na cidade! Apelei por misericórdia e encontrei uma servidora empática, que encaminhou a troca.
Não parou por aí. A abertura para o tubo de ar quente feita na parede, por um pedreiro contratado, era mais estreita do que deveria. Chamei o pedreiro, para quebrar de novo e consertar o dessacerto. O marceneiro demorou mais de três meses para entregar a prateleira onde se apoiaria o ar portátil. E o técnico do split teve problemas de saúde na família. Com isso, a colocação dos dois aparelhos, de novembro a fevereiro, entre compra, troca, nova remessa, entrega de prateleira, ajuste de abertura, disponibilidade de profissionais, demorou a acontecer. Restava a última providência: fechar o rombo deixado pelo aparelho antigo na parede.
Nova odisséia.
Fechar a parede virou precisar pintar a sala. Já que se pintaria a sala, também os quartos e o corredor. Já que se pintaria o quarto, embutir os fios pendurados na parede. E colocar uma emenda no piso para esconder uma faixa escura de madeira aparente. Cada pequena decisão se abrindo em leques de problemas e gastos.
Obedecendo a minha agenda de trabalho remoto, a obra foi acontecendo, aos pulinhos. A sala inteira foi removida para o quarto para, depois, os quartos inteiros serem removidos para a sala. Não se transita livremente, da porta de casa até os quartos, há cerca de um mês.
Haja maracugina!
Obra é um vórtice. A mais inocente intenção nos joga em universos paralelos. A tinta escolhida não vem exatamente no tom. A massa comprada não é a melhor opção para o espaço, por ser mais ou menos úmido. A tinta descasca porque o teto tem determinada característica. O rapaz inicia o trabalho na segunda mas não é ele quem o finalizará na sexta. Descobre-se: é preciso colar uma canaleta aqui, renovar um rejunte ali. O que ficaria em cima, ornou melhor embaixo. As pastilhas são antigas, vendidas em cemitérios de azulejos. Chove e nada seca para a segunda demão. Faz sol e você não está em casa.
O piano vai e volta da sala para o quarto, desviando-se da poeira das lixas. As janelas se abrem dia inteiro para o cheiro sair. Os jabutis têm os cascos respingados de tinta. As plantas, uma ou outra, também. E onde estão as meias, a bolsa, o casaco, o batom?
De refúgio, só o quartinho transformado em miniescritório climatizado. Para trabalho, escrita e oxigênio. Fujo do pó, da tinta e dos móveis dispostos como obstáculos. Pior seria viver no calorão. As chaves? Daqui a pouco aparecem…


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com César Manzolillo













