Às Quartas – Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais

Com Ana Lúcia Gosling

Foto: Joshua Earle, em Unsplash

 

Nascemos filhos. E esperamos ser filhos para sempre. Mimados, educados, amados. Que nossos pais invistam doses cavalares de amor em todo nosso caminho pela vida. Que, quando a vida doer, haja um colo materno. Que quando a vida angustiar, encontremos neles um conselho sábio. E, quando isso nos falta, há sempre uma lacuna, um sentimento estranho de sermos exceção.

Mesmo adultos, esperamos reconhecer nossa meninice nos olhos dos nossos pais. Desejamos, intimamente, atenções miúdas, como a comida favorita no dia do aniversário ou a camiseta do time de futebol se estamos na casa deles.

Não estamos prontos para trocar de lugar nesta relação.

É difícil aceitar que nossos pais envelheçam. Entender que as pequenas limitações que começam a apresentar não é preguiça nem desdém. Que não é porque se esqueceram de dar o recado que não se importam com a nossa urgência. Que pedem para repetirmos a mesma frase porque não escutam mais tão bem – e às vezes, não está surdo o ouvido mas distraído o cérebro. Demora até aceitarmos que não são mais os mesmos – que dirá “super-heróis”? Não podemos dividir toda a nossa angústia e todos os nossos problemas porque, para eles, as proporções são ainda maiores e aí tudo se desregula: o ritmo cardíaco, a pressão, a taxa glicêmica, o equilíbrio emocional.

Vamos ficando um pouco cerimoniosos por amor. Tentando poupar-lhes do que é evitável. Então, sem querer, começamos a inverter os papéis de proteção. Passamos a tentar resguardar nossos pais dos abalos do mundo.

Dizemos que estamos bem, apesar da crise. Amenizamos o diagnóstico do pediatra para a infecção do neto parecer mais branda. Escondemos as incompreensões do casamento para parecer que construímos uma família eterna. Filtramos a angústia que pode ser passageira ao invés de dividir qualquer problema. Não precisam preocupar-se: estaremos bem no final do dia e no final das nossas vidas.

Mas, enquanto mudamos esses pequenos detalhes na nossa relação, ficamos um pouco órfãos. Mantemos os olhos abertos nas noites insones sem poder correr chorando para a cama dos pais. Escondemos deles o medo de perder o emprego, o cônjuge ou a casa para que não sofram sem necessidade e, aí, estamos sós nessa espera; não há colo nem bala nem cafuné para consolar-nos.

Quanto mais eles perdem memória, vigor, audição, mais sozinhos nos sentimos, sem compreender por que o inevitável aconteceu. Pode até surgir alguma revolta interior por esperar deles que reagissem ao envelhecimento do corpo, que lutassem mais a favor de si, sem percebermos, na nossa própria desorientação, que eles não têm a mesma consciência que nós, não têm como impedir a passagem do tempo ou que possuem, simplesmente, o direito de sentirem-se cansados.

Então pode chegar o dia em que nossos pais se transformem, de fato, em nossos filhos. Que precisemos lembrá-los de comer, de tomar o remédio ou de pagar uma conta. Que seja necessário conduzi-los nas ruas ou dar-lhes as mãos para que não caiam nas escadas. Que tenhamos que prepará-los e colocá-los na cama. Talvez até alimentá-los, levando o talher a sua boca.

E eles serão filhos piores porque lembrarão que são seus pais. Reagirão as suas primeiras investidas porque sabem que, no fundo, você acha que lhes deve obediência. Enfraquecerão seus primeiros argumentos e tentarão provar que ainda podem ser independentes, mesmo quando esse momento tiver passado, porque é difícil imaginarem-se sem o controle total das próprias rotinas. Mas cederão paulatinamente, quando a força física ou mental reduzir-se e puderem encontrar no seu amor por eles o equilíbrio para todas as mudanças que os assustam.

Não será fácil para você. Não é a lógica da vida. Mesmo que você seja pai, ninguém o preparou para ser pai dos seus pais. E se você não o é, terá que aprender as nuances desse papel para proteger aqueles que ama.

Mas, se puder, sorria diante dos comentários senis ou cante enquanto estiverem comendo juntos. Ouça aquela história contada tantas vezes como se fosse a primeira e faça perguntas como se tudo fosse inédito. E beije-os na testa com toda a ternura possível, como quando se coloca uma criança na cama, prometendo-lhe que, ao abrir os olhos na manhã seguinte, o mundo ainda estará lá, como antes, intocável, para ela brincar.

Porque se você chegou até aqui ao lado dos seus pais, com a porta aberta para interferir em suas vidas, foi porque tiveram um longo percurso de companheirismo. E propor-se viver esse momento com toda a intensidade só demonstrará o quanto é grande a sua capacidade de amar e de retribuir o amor que a vida lhe ofereceu.

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(Nota da Autora: Há 10 anos, escrevi a crônica acima, que viralizou. Originalmente publicada na Obvious Magazine, num link inativo atualmente, em sua publicação original contou com mais de 415 mil leitores, além dos sítios que a compartilharam internet afora, no Brasil e em Portugal. Com a desativação do link de origem, muitos me perguntam onde encontrá-la. Agora, está aqui, nesta minha casa. Com a permissão do meu editor neste portal, eu a republico para quem, de tempos em tempos, me pede para relê-la.)

 


 

ANA LUCIA GOSLING

@analugosling

 

Confira as colunas do Projeto AC Verso & Prosa:


com Ana Lúcia Gosling

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com Tanussi Cardoso

 

 

Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, no ArteCult, há crônica nova da autora, que integra o projeto AC VERSO & PROSA junto de Tanussi Cardoso (poemas) e César Manzolillo (contos). Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

8 comments

  • Minha cara Ana, essa é uma crônica para ser divulgada diariamente em todos os lugares: delicada, forte, certeira. Verdadeira. Sim, ninguém nos ensina a sermos pais, principalmente, a sermos pais dos nossos pais. Mas, um dia, acontecerá e teremosde nos erguer dos escombros emocionais e erguermos um edifício amoroso e fraterno de proteção para eles. Obrigado por essa lição plena de sabedoria e afeto. Vc escreve bem demais! Parabéns!Grande beijo meu

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  • Disse tudo, Ana. Amei a crônica. Eu me tornei pai da minha mãe e do meu irmão. Por isso, eu sei exatamente como isso “funciona”…rs Beijos.

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  • Pois, é! Temos um desafio e tanto!
    Como não cuidar daqueles que mais nos amaram em toda sua jornada?
    Como não encontrar qualidade na assistência das necessidades dos Nossos Mais Amados?

    Independentemente da velocidade louca da vida cotidiana, temos uma oportunidade de sermos pais novamente! A paternidade para mim foi algo que me humanizou de fato!

    É certo que as dificuldades são outras, o tempo é outro, assim como a forma de lidar com a situação.

    É uma oportunidade de mantermos a humanização, necessária na nossa evolução, aproveitando-nos do convívio diversificado entre nós aqui da Terra!

    O quão importante é isso para os nossos pais!

    E por que não para as pessoas que necessitam da nossa Assistência, também?

    Sorte de voltarmos a raciocinar positivamente e agir com humanidade, atualmente, mesmo entranhados num período de sentimentos frios, de absolutismos e, infelizmente, de guerras.

    “Vambora” sermos felizes? Façamos a nossa parte!

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  • Ana Lucia, uao!!! O seu texto me emocionou muito!!! Ao ler, eu sentia que você estava entrando na minha mente e dando nomes para todas as sensações, inquietações e percepções que estou vivenciando na minha relação com a minha mãe que está com 85 anos. Muita gratidão, suas palavras me fizeram me sentir acompanhada e reconhecida no contexto que vivêncio hoje. Foi muito terapêutico. Esse texto deve ser lido por muitas pessoas, pois muitas vão se reconhecer no seu texto. O mundo precisa de você e dos seus textos!!❤️

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