Com Ana Lúcia Gosling

Foto: Deen David, em Unsplash
Sentaram-se na mesa do café da esquina. Ela, próxima à janela. Ele, no centro do salão.
Pão de queijo e capuccino, enquadrados numa foto por ela. O fundo de folhas amarelas, do flamboyant, em frente, desfocado. Na foto dele, queijo quente e açaí na bandeja colorida, equilibrada na mão esquerda, à frente da frase “prazer é comer bem”, na parede. Ostentaram os quitutes sob legendas alegres. “Pequenos prazeres”, ela. “Pit stop”, ele.
Ela empurrou o prato, esperando o capuccino esfriar. Rolou a tela do celular e ampliou a foto da amiga, sendo feliz no show da véspera. Recusara seu convite, exausta do dia de trabalho e triste pelo término do namoro. Não queria dançar nem sorrir, apenas encostar o corpo na almofada da sala e esperar as inutilidades da tevê substituírem a tristeza na mente.
Ele avançou no açaí, faminto, depois de ter-se exercitado para manter-se “ideal”. O cara de quem se deseja um convite para ir à praia ou ao cinema. As últimas investidas frustradas por não saber falar sobre o que escondem as telas, as postagens, as mensagens de autoajuda publicadas.
Estavam sós. Na cafeteria. Na vida. Ela achava que para sempre. Ele, aguardando o dia seguinte na academia ou uma festa no fim de semana.
Marcaram o nome da cafeteria na publicação: “Doce deleite”. O algoritmo os juntou, mostrando no feed de notícias de um a foto do outro. Ela riu da mistura açaí-queijo quente. Franziu a testa, imaginando a combinação pesar no estômago. Ele olhou para a janela, procurando o flamboyant. Talvez uma foto na rua, ao lado da árvore, quando saísse, para usufruir do amarelo.
Não se viram. Nem se olharam. Não souberam da solidão do outro. Não trocaram sorrisos. No momento de pagarem o lanche, mantiveram os olhos no celular, aguardando o caixa perguntar a um e, depois, a outro o que haviam consumido.
A noitinha caía, voltaram para suas casas. Ela encheu o peito de ar e suspirou, sob a marquise, sabendo ser vazio o trajeto da volta. Ele alongou as pernas no canteiro da frente e aproveitou o retorno para a última atividade aeróbica.
Tomaram seus banhos, vestiram pijamas. Responderam às reações às fotos postadas. Ela digitou “kkkk” no comentário da amiga sobre ser fotógrafa a verdadeira vocação desperdiçada. Ele aceitou a proposta do amigo para provarem o açaí com frutas de uma lanchonete conhecida.
Ela verificou as mensagens; nenhuma fora dos grupos. Ele também checou as suas; o convite recusado para o sábado.
Deitaram-se antes das dez. Cobriram-se de silêncio, em seus quartos, até a manhã seguinte.


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com César Manzolillo














Que melancolia e solidão nesses tempos modernos! Texto comovente e tecnicamente perfeito. Parabéns!
Obrigada, Tanussi, querido.