Com Ana Lúcia Gosling

Foto: Carol Pires, tirada em “Gingers, uma obra de arte do tempo”, temporada 2024, Sala Mario Tavares, RJ
Penso em “Gingers, uma obra de arte do tempo” como um espetáculo sobre o compromisso com a alegria de viver, sobre resistência e resiliência.
O momento passou num segundo. Muitos ensaios, angústias, noites mal dormidas, aprendizados e contagens de coreografia, áudios e vídeos para treino, repetições de movimentos. Tudo virando rotina de vida para chegar a três dias de apresentação. Abrimos um sorriso, ao pisar o palco, no primeiro dia, e quando abaixamos para agradecer as palmas, já terminava o terceiro. Um piscar de olhos.
Não vimos passar, no momento em que, nas nossas vidas, fomos artistas, dedicadas, sonhadoras, transgressoras. Um sopro. Mas sopro de vida, ânimo, felicidade.
Chegar àquele palco não demorou mês nem ano. Cerca de uma década, sonhando, juntando, paulatinamente, aquele grupo e o tornando harmônico, a ponto de dividir os mesmos passos e o mesmo objetivo. Aliás, mais de década: foi vida inteira com vontade de aprender a sapatear, de mostrar-se, criando oportunidade para subir num palco.
Talvez, justamente, por ter-nos custado uma existência, a fala da amiga na hora da despedida me vestiu de realidade: “me emocionei por ser transitório”. O teatro sempre é. A vida, em cada momento, é. Nós juntas ali, dadas as características do grupo, somos ainda mais. Mas isso não é motivo para tristeza e, sim, para valorização. As lágrimas são de alegria. Vencemos o tempo, o espaço, as correntezas contrárias, desejamos o impossível e paramos ali. Nossa vontade e nosso amor nos trouxeram à porta dos nossos sonhos. Abrí-la, entrar e dançar no centro da festa foi gesto natural.
Novas companheiras anunciam sua chegada. A visibilidade em torno do trabalho realizado pela nossa professora (Rafaeli Mattos, única, visionária, semeadora de fé e profissional focada; agora, Doutora em Dança, com tese pioneira sobre “sapateado e envelhecimento”). O interesse pelas aulas aumentou. Mais que professora e alunas, viramos referência da possibilidade. Não há orgulho maior para ostentar-se, timidamente, no fim dos dias comuns.
Para nós, nada muda. Há cafezinho com bolo no intervalo da aula, na mesa que, habitualmente, arrumamos. Há alegria no aquecimento da aula e no bater de pé e de palmas. Os sábados continuam tomados pelo som das nossas chapinhas e das nossas risadas. Pensamos em novos projetos pois não paramos de desejar futuro. Atravessamos o rio. Ocupamos nova margem. O mundo se alargou em expectativas. Ou desnudamos as lentes do nosso olhar que, hoje, alcança horizontes mais além?
No aplauso final, no último dia, as emoções se misturam. A melancolia da transitoriedade, a alegria da conquista, o tesão da vitalidade esbanjada, a esperança de continuar, inspirar, crescer, reviver, e o amor, o imenso amor que nos cerca na saída do camarim, nos abraços amigos, nos sentimentos dos estranhos identificados com esse lugar, essas histórias, essa mesma alegria. Não pertencem só a quem se torna “Ginger” mas a todos aqueles capazes de entender que somos, todos nós, obras de arte do tempo.


Confira as colunas do Projeto AC Verso & Prosa:
com César Manzolillo














Que linda, Ana! É isso… Seguir em movimento e com a vida nos oferecendo cada dia novos enredos e a inspiração. Vc arrasa! Bjs
E você inspira! Obrigada, querida.