Com Ana Gosling

O ninho – Foto da Autora
Berçário de sanhaços
Quando você passa a observar os passarinhos da vizinhança, um novo mundo se apresenta. Aprendi sobre as dinâmicas das relações. Por exemplo, se o bem-te-vi chega, todos o esperam alimentar-se para comerem depois. Se o gavião sobrevoa a área, todos somem e só reaparecem no dia seguinte. Em determinada época, as mães trazem seus filhotes, ensinando-os a buscar alimentos.
Toda primavera, quando os pássaros surgiam com palhinhas e gravetos nos bicos, sinal de ninho sendo feito, eu desejava minha casa ser escolhida para abrigá-lo. Mas sabia ser difícil sentirem-se seguros aqui porque a varanda é muito exposta.
O sonho quase se realiza quando achei, há meses, no vão entre o ar condicionado do meu quarto e a parede da fachada do prédio, um ninho com dois ovinhos. Por não saber que estava ali, havíamos tirado abruptamente o aparelho de ar e, mesmo tentando repô-lo, disfarçando nossa intervenção, descobertos, os pais abandonaram os ovos. Imaginem minha frustração.
Há poucas semanas, um casal de sanhaços resolveu apostar no esconderijo. E, dessa vez, só foram descobertos quando seus filhotes estavam recém-nascidos. Descobri o ninho por acaso, de novo, mexendo no aparelho de ar. Não toquei em nada, com medo de o meu cheiro separar a família. Deixei-os quietos por vários dias, apenas notando a movimentação da família em torno do meu quarto. Muitos pios à primeira hora da amanhã. Vários rasantes da mãe em frente à janela. O pai, pousado na bancada do vizinho, me vigia todas as vezes que a mãe está alimentando os filhotes. Todas.
Agora, imaginem minha alegria por ter um berçário de sanhaços, escondidinho na parede do quarto! Por duas vezes, com muito cuidado para não espantá-los, puxei a proteção para espioná-los: os irmãos penudinhos, colados um ao outro, quietos, aguardando a mãe. Não me temeram, em sua inocência. A mãe, sempre ressabiada, já não foge quando me vê. Alimenta-os rapidamente, para não dar chance ao azar, mas volta, certa de que eu não lhes farei mal.
Como o amor não escolhe hora para chegar, apaixonei-me pelas criaturinhas. Seus piadinhos frenéticos me acordam às 5 horas, como um reloginho. A música de fundo, no meu quarto, ouvida através da parede, ora é filhotes pedindo comida, ora pais conversando entre si.
Aproxima-se o momento de deixarem o ninho. Hei de vê-los na varanda, bicando as frutas, ao lado da mãe e aprendendo a serem livres. Viveremos separados. Ensinam-me: o amor nos pede, às vezes, abrirmos mão.
Mas esse meu coração enternecido vai sentir um vazio… ah, isso vai.


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com César Manzolillo

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