AC RETRÔ: JORGINHO VAI À ESCOLA

IArte – Chris Herrmann

JORGINHO VAI À ESCOLA

 

Por Jorge Ventura

 

Não havia moleza. Às segundas-feiras, tínhamos de acordar muito cedo para estarmos, pelo menos, meia-hora antes do início da aula matutina. Sabe por quê? Tínhamos de cantar o Hino Nacional brasileiro, enquanto a bandeira era hasteada. As turmas ficavam enfileiradas, as professoras (“tias”) encabeçavam a organização dos alunos em forma. Tudo era feito num clima solene e respeitoso. Era o tempo do regime militar, e as escolas públicas seguiam à risca o ritual cívico. A verdade é que nós, crianças, achávamos aquilo muito chato e cantávamos o hino tropeçando na letra e desafinando o coro – muito em razão da sonolência, é claro.

No meu tempo de escola, os alunos eram obrigados a usar o uniforme e a mantê-lo limpo sob a ameaça de serem impedidos de assistir às aulas.

Fotos: Acervo de Jorge Ventura

Havia a caderneta escolar em que se carimbava a frequência. “Presente” ou “Compareceu”, “Sábado”, “Domingo” e “Feriado” eram sinais de um bom aluno, exemplo de quem chegava na hora certa e participava das aulas, durante a semana, com dedicação. Quando ganhávamos um “Atrasado” ou “Faltou” é que as coisas complicavam para o nosso lado. Se ultrapassássemos o limite de marcas de atraso em um mês, os pais eram chamados a comparecerem à direção da escola e, dependendo do caso, podíamos até ser suspensos. A falta poderia ser justificada por motivos de doença mediante a apresentação de um atestado médico assinado e carimbado. Mas, se não houvesse justificativa, poderíamos ficar suspensos por tempo indeterminado, o que significava uma grande humilhação para o aluno e uma vergonha para a família dele.

 

Caderneta Escolar (do Colégio Franco Brasileiro nos anos 80) Foto: Acervo pessoal de Elisar Cristina do Amaral

 

Se o aluno fosse indisciplinado por ser bagunceiro ou brigão, a situação piorava: ele ganhava na caderneta escolar o carimbo de “Advertência”. E, se ganhasse três advertências em um mês, por exemplo, a marca “Suspenso” era inevitável. Em virtude do mau comportamento, o aluno poderia receber a jubilação, o que era uma espécie de demissão por justa causa. Com isso, ele ficava maculado e os seus pais encontravam dificuldades para matriculá-lo em outra escola pública. Muitas vezes, o seu destino era o colégio particular, independentemente das condições financeiras dos pais ou responsáveis.

Apesar desse controle rígido imposto à conduta do corpo discente, coerente com o contexto político daqueles anos, eu guardo boas recordações do meu tempo de escola e destaco algumas curiosidades sobre o uniforme e, principalmente, sobre o material escolar. Nos anos 1960/1970, do pré-primário, passando pelo primário e admissão ao ginásio, até o ginásio – que, mais tarde, passou a ser o 1º grau –, os uniformes-padrão tinham as cores branca e azul-marinho, o emblema era bordado no bolso e vinha com a logo e a sigla (ou iniciais) da escola ou colégio, visíveis na altura do peito. Sem dúvida alguma, eram mais do que peças de vestuário, simbolizavam respeito e organização nas instituições de ensino.

 

Uniforme meninas | Fonte: Amazon

 

As meninas, em geral, usavam saias plissadas na cor azul-marinho, camisas brancas de gola e botões, jardineiras, gravatinhas e meias-três-quartos brancas. Já os meninos, camisas brancas e calças sociais, com corte reto, ou bermudas curtas na cor azul-marinho. Chegou a ser moda, em dias de frio, o uso de uma japona (agasalho azul-marinho feito de lã), com botões dourados, cunhados com o desenho de uma âncora, lembrando o vestuário dos almirantes da Marinha do Brasil. Nas aulas de Educação Física, os meninos usavam camisetas brancas, shorts e tênis Conga ou Bamba.

Outra moda que ficou em nossa memória foi a de cobrir o fundo externo das pastas escolares com uma capinha de plástico transparente, que mais parecia uma camisinha de Vênus. Essa capa protegia contra a sujeira quando a pasta era colocada no chão, perto da carteira do aluno.

 

Carteira escolar antiga para aluno destro | Facebook

 

A minha geração, que estudou a cartilha de tabuada e passou pelo caderno de caligrafia, deve se lembrar de como era a mobília da sala de aula. Carteiras enfileiradas, as mais modernas, com acabamento em fórmica, vinham acopladas às cadeiras, com braço direito e esquerdo (para quem era canhoto). Havia também um comprido quadro-negro (ou lousa verde) e estojos de madeira que continham gizes coloridos. Às vezes, víamos nuvens de poeira provocadas pelo excessivo uso do giz, mas ninguém reclamava de rinite alérgica.

 

Fonte: antiguidadesdomestre-com-br

 

Os cadernos eram encapados, cuidadosamente, com papel pardo e depois etiquetados com o nome da disciplina: Português, Matemática, Ciências, História e Geografia; Ah, eu não me esqueço do meu pai, muitas vezes, perdendo noites para encapar os meus como um gesto de afeto. Havia crianças estudantes, no entanto, que chegavam com os cadernos encapados por um plástico rígido transparente, com as bordas nas cores verde, vermelho ou amarelo, que eram vendidos nas papelarias.

E a tal borracha bicolor, que a ponta de cor de telha apagava o grafite do lápis, enquanto a de ponta de cor azul apagava (ou diziam que apagava) a tinta da caneta? Na verdade, nunca conseguíamos apagar nenhuma palavra, muito menos uma linha feita pela tinta da caneta. O que acontecia era que, de tanto insistirmos, acabávamos rasgando o papel. Depois, surgiram as borrachas perfumadas (algumas com cheiro de chiclete de tutti-fruti, dava até vontade de mastigar ou mascar).

 

Fonte: megadias-com-br

 

Nessa coleção de itens imprescindíveis no dia a dia estudantil, havia o lápis-tabuada, as lapiseiras coloridas, cujas pontas desgastadas poderiam ser trocadas, sendo desprezadas ou inseridas novamente no tubo do artefato. Havia ainda as canetas de ponta porosa (eu colecionava as da marca Futura), as canetinhas Sylvapen, coloridas, de espessura fina, acondicionadas em um estojinho de acrílico. Isso sem contar os estojos de madeira com tampa deslizante de várias camadas de cor, os apontadores, com um compartimento para guardar as lascas de lápis apontados, que, anos mais tarde, foram substituídos pelos apontadores em forma de capacete de Fórmula 1. Havia os ábacos escolares, a caixinha de giz de cera, a caneta com várias cores (preta, azul e vermelha), o papel crepom, o papel almaço, a régua de madeira, que depois deu lugar à régua de plástico com letras e números vazados, além da famosa régua mágica. Era uma grande curtição.

 

Lapiseiras | Fonte: Facebook

 

Para a hora das refeições, nossos pais gostavam que nós levássemos de casa um lanche – por mais simples que fosse – dentro de um lancheira que vinha dentro uma garrafa térmica da Aladdin. Embora as escolas públicas dispusessem de um refeitório, onde eram servidos pratos de combinações duvidosas, mas que achávamos uma delícia, como arroz com frango desfiado ensopado, macarrão com salsicha ou sardinha.

 

Mimeógrafo | Fonte: reddit com

 

Agora, a saudade que eu tenho mesmo é daquele cheirinho gostoso de álcool que a gente sentia nos dias de prova. A professora usava o mimeógrafo, um aparelho manual que fazia as cópias impressas em tinta roxa ou azul. As folhas saíam úmidas e, eventualmente, mornas até a nossa carteira. As questões das provas, às vezes, vinham escritas à mão no estêncil, e eu, acredite, tinha a mania de cheirar a folha antes de começar a ler e a responder às perguntas.

 

Fotos: Acervo pessoal de Natalia Caninas (lembranças do Colégio Franco Brasileiro, nas Laranjeiras)

(clique na foto para ampliá-la)

 

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

 

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

5 comments

  • Eu também cheirava a prova. Amava o cheirinho de álcool do mimeógrafo.
    E no dia de macarrão com salsicha na cantina, a fila era imensa! Até hoje, o prato (nutritivamente incorreto) tem gosto de infância!
    Amei recordar, Jorge!

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    • Ah, querida Ana, agradeço a leitura e o prestígio! Esses momentos e detalhes da nossa infância marcam para sempre. Beijos!

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  • Eu também adorava cheirar as folhas que saiam fresquinhas do mimeógrafo… a merenda escolar … que lembrança gostosa… cheirosa…
    A escola é a nossa primeira experiência coletiva, além da família… para muitos, a única talvez…
    Obrigada pelo texto minucioso!

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  • Nossa Jorge… que delícia ! Voltei no tempo e bateu saudade. Nós tínhamos a consciência de que era um privilégio poder estudar. Nossas mães ficavam em filas para garantir uma vaga. Hoje muitos agem como se fosse um favor estar no colégio. Não precisávamos de incentivos. Sabíamos da importância do saber e parece que este discernimento está se perdendo…

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  • Que tema envolvente, emocionante e saudosista. Confesso que o emocional me tocou profundamente, lágrimas de saudades de um tempo que foi único e respeitado por todos. Jorge Ventura soube descrever com os mínimos detalhes, o que está armazenado em nossas memórias. Gratidão, por essa viagem à minha infância ❤️

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