O futebol arte pelas lentes do Canal 100
Por Jorge Ventura
Por Jorge Ventura
Imagine você, leitor(a), antes do início da sessão de cinema, ter a oportunidade de assistir aos melhores momentos de um clássico da rodada de fim de semana do campeonato carioca – que, na época, até os idos de 1970, tinha mais relevância que o Brasileirão ou mesmo a Libertadores. Era a magia do futebol arte projetada no telão. Dava para curtir as fintas, as gingas, os detalhes dos lances polêmicos, as tabelas e o principal: os gols. Tudo filmado em 35mm e exibido em câmera lenta para o delírio dos espectadores torcedores e fanáticos por essa paixão popular em nível mundial.
Devo admitir que essa atração extra, naquele tempo, seduzia mais o público masculino que, em razão da censura, pagava a entrada para assistir, na verdade, a uma sessão dupla. A primeira, sempre a de um filme B de Kung Fu ou de Karatê, e depois a da pornochanchada em cartaz. Mas, de um modo geral, a rapaziada esperava ansiosa pela exibição do Canal 100, mesmo quando levava a namorada a uma sala de projeção para assistir a algum clássico de bilheteria.

Uma idealização inovadora do cineasta Carlos Niemeyer que, em 1957, passou a cobrir e a filmar os jogos de futebol de maneira revolucionária, utilizando planos fechados, closes, ângulos dinâmicos, slow motion, com o intuito de exibir esse esporte nos cinemas como uma verdadeira obra de arte. E que obra de arte! Às vezes, as jogadas pareciam um espetáculo coreográfico, com movimentos belos e precisos, sendo narrado pela voz imponente do saudoso Cid Moreira. O cinejornal funcionava como um minidocumentário periódico, que destacava, também, a “semana do presidente da república” e as realizações do governo vigente – sendo, muitas vezes, criticado por querer agradar ao sistema – além de divulgar acontecimentos sobre política, economia, ciência, moda e artes em geral.
Mas, em relação à cobertura dos jogos da seleção brasileira e dos campeonatos regionais, o encantamento não se limitava às imagens captadas pelas lentes do Canal 100. Ia além. A edição dos lances e a reação da torcida na geral – espaço extinto do antigo estádio do Maracanã – apresentados em câmera lenta era ritmada pelo tema musical que ficou marcado na memória afetiva. “Na cadência do samba”, canção composta em 1956, por Luiz Bandeira, lançada num compacto sob o título homônimo. Aí vem uma curiosidade que chama a atenção. O famoso fundo musical das cenas de futebol do canal cinematográfico, de Niemeyer, era, na verdade, uma versão instrumental de “Na cadência do samba” criada, um ano depois, por Waldir Calmon e sua Orquestra, no LP intitulado “Samba! Alegria do Brasil”. Esse arranjo instrumental do samba passou a ser conhecido com o título de “Que bonito é”, tornando-se uma espécie de hino nacional do futebol brasileiro, apesar de nunca ter sido composta com esse fim (nem na letra original havia alguma referência ao futebol).
No entanto, com o sucesso do tema musical, a Rádio Globo encomendou, anos mais tarde, uma adaptação da letra para esse samba, dessa vez, sim, fazendo alusão ao futebol. Leia, abaixo, a letra original, por Luiz Bandeira:
Samba/ Representa uma nação / Samba /Orgulho da gente/ Retrato de um povo/ De alma e coração/ Bate que vai batendo /A cadência boa do samba tem/ Bate que repicando o pandeiro/ Vai tamborim também/ Que bonito é/ Ver um samba no terreiro/ Assistir a um batuqueiro/ Numa roda improvisar/ Que bonito é/ A mulata requebrando/ Os tambores repicando/ Uma escola a desfilar/ Que bonito é/ Pela noite enluarada/ Numa trova apaixonada/ Um cantor desabafar/ Que bonito é/ Gafieira, salão nobre/ Seja rico, seja pobre/ Todo mundo a sambar/ O samba é romance/ O samba é fantasia/ O samba é sentimento/ O samba é alegria/ Bate que vai batendo/A cadência boa do samba tem/ Bate que repicando o pandeiro/ Vai tamborim também.
Agora, leia a letra adaptada pela Rádio Globo e adotada por outras emissoras de rádio:
Que bonito é!/ As bandeiras tremulando/ A torcida delirando/ Vendo a rede balançar/ Que bonito é!/ A mulata requebrando/ Os tambores repicando/ Uma canção de amor no ar/ O pandeiro vai batendo/ O ganzá vai sacudindo/ O povo vai aplaudindo/ Vem chegando a evolução/ O surdo marca o compasso/ E o povo sai do espaço/ Numa linda vibração…/ Lá, lá, lá, lá…/ Vem chegando a evolução/ Lá, lá, lá, lá…/ Numa linda vibração.
É importante não confundir, leitor(a), “Na cadência do samba”, título homônimo de outro sucesso popular, samba de composição de Ataulfo Alves e Paulo, de 1962, cujo refrão é Eu quero morrer numa batucada de bamba/ Na cadência bonita do samba…
Após a morte de Carlos Niemeyer, em 1999, o Canal 100 foi, aos poucos, deixando de realizar as filmagens jornalísticas. Visando à recuperação e à conservação de um vasto e valioso acervo cinematográfico, o filho de Carlos, Alexandre Niemeyer, em 2001, deu início a um projeto de preservação, que incluía a revista Canal 100, na qual apresentava fotos raríssimas e um site oficial no qual seria possível assistir a pequenos trechos de filmes.

O Canal 100 produziu em torno de 8 mil rolos de 35mm – entre jogos memoráveis da seleção canarinho e de clubes regionais, fatos políticos, coberturas de carnaval e o comportamento social no país. O cinejornal chegou a ser tema de livro e a ganhar exposições pelo Brasil. Segundo fontes, atualmente, todo o seu material histórico, cultural e esportivo está sob responsabilidade da Cinemateca Brasileira, que cumpre um extenso trabalho de recuperação, catalogação e digitalização de imagens.
Que bonito foi o Canal 100… Que bonito é!
Ah, tempos bons! Quem se lembra?
* Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.
BONUS:
Confira abaixo alguns vídeos que nos trazem de volta a magia do Canal 100!

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.
Instagram
@jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ
Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️
Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.
Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨













