Rosália Milsztajn: a autora, que também é psiquiatra, é a convidada desta semana do AC Encontros Literários

Rosália Milsztajn  é médica e escritora. Foto: Reprodução redes sociais.

Rosália Milsztajn (@rosaliamilsztajn) é carioca, poeta, contista, médica psiquiatra e psicanalista. Publicou seis livros de poemas: No azul (1991), Itgadal – memória dosausentes (1997), Luminosidades (2000), Aqui dentro de mim (2003), Esse recorte (2014) e PuroCristal (2021), além de dois livros de contos: A história dos seios (2010) e Era uma vez e outros contos (2018). Conquistou o Prêmio Literário Nacional do Pen Clube do Brasil na categoria Poesia (Esse recorte) em 2016. Lançou seu primeiro livro infantil, Não briga comigo, em 2019. Tem poemas publicados na revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional e na revista Agulha de Cultura; e em espanhol na revista Altazor, de Santiago. Também em blogs e revistas da internet, tais como mallarmargens.comCult.

Confira abaixo a entrevista exclusiva que preparamos pra você.

ArteCult: Como a Literatura entrou na sua vida?

RosáliaMilsztajn: A literatura entrou de fato na minha vida quando, de um simples rabisco ou uma palavra solta numa folha de papel, ou, às vezes, uma atenção maior para um som de uma palavra que soava como música, anunciava um tempo que começava a chegar. A certeza veio com a força desses instrumentos que se combinavam em versos. Essa revelação seria a partir de então as ferramentas que me possibilitariam perceber, sentir o mundo e a realidade à minha volta. E assim, foi numa madrugada em que não conseguia dormir – porque um verso soava insistentemente em minha cabeça –, até que sentei na escrivaninha e pousei esse verso na folha branca de papel, surgindo um longo poema – sem interrupções – sobre a minha infância, que mais tarde foi vencedor de um prêmio literário. E assim, obtive uma aprovação maior do que a do meu círculo de amigos e familiares, que começaram a ler tudo o que eu passei a escrever.

Aqui dentro de mim. Livro de poemas foi lançado em 2003. Foto: Divulgação.

AC: Como é sua rotina de escritora? Escreve todos os dias? Reescreve muito? Mostra para alguém durante o processo?

RM: Quando estou no processo de criação de um livro, isto é, com um conjunto de poemas já selecionados, algumas opções de títulos  e outros poemas não selecionados e ainda um número de poemas que faltam para completar um exemplar, sigo a rotina de me sentar todas as manhãs, ficar diante do projeto e ler, reler, consertar, escrever e, se me ocorre inspiração, o que nesse processo costuma acontecer, fico incansavelmente nesta rotina o tempo que for preciso. Fora esse processo não tenho rotina para escrever. Sento-me para escrever quando me ocorre um verso, uma inspiração e sento para desenvolver o que está como um iceberg, sendo apontado para mim, o inicio de um poema. Posso concluí-lo no instante ou não conseguir, e esse pequeno esboço pode ficar anos guardado no computador à espera do seu tempo de nascer. Esses flocos podem surgir em qualquer lugar e em qualquer hora, e é rotina eu tomar nota e, ao chegar em casa, sempre voltar a eles, que mais adiante serão provavelmente trabalhados. Costumava mostrar os poemas para meus amigos, às vezes até lê-los ao telefone, rápido como uma catarse, ou nas redes sociais, à espera de aprovação ou júbilo com a reação do ouvinte. Hoje não mais necessito e, muito ao contrário, descobri que o silêncio ao redor daquilo que ainda está sendo desenvolvido é de extrema importância. E hoje mostro os poemas para quem é capaz de acrescentar observações e comentários que possam realmente enriquecer meu trabalho.

AC: No seu caso, de onde vem a inspiração?

RM: A inspiração não vem quando estou preocupada com algum problema familiar, com alguma dor física, algum problema da realidade objetiva que tenho que resolver. Fora isso, a inspiração pode ocorrer a qualquer hora e em qualquer lugar. Não sei explicar de onde vem exatamente. Isso é um grande mistério! Mas associo a produzir qualquer verso ou esboço de um poema quando estou em contato com a natureza, que pode ser: uma noite de lua cheia, um céu estrelado, um perfume de jasmim no anoitecer, um céu azul, um ventania, ou ainda sozinha numa mesa de um restaurante com pessoas em outras mesas, e a poesia surge me fazendo companhia. Muitas vezes estimulo a musa ouvindo uma música clássica, por exemplo, Debussy, e ao som, como exercício de escrita, vou escrevendo em associação livre tudo o que me vem à cabeça. Desse escrito costumo aproveitar uns versos, umas palavras soltas e a partir daí  tento desenvolver um poema. É um bom exercício!

Era uma vez e outros contos. Coletânea foi lançada em 2010 pela editora Patuá. Foto: Divulgação.

 

AC: O fantasma da página em branco: mito ou verdade? Isso acontece com você? Em caso afirmativo, o que faz para resolver esse problema?

RM: Acho que o fantasma da página em branco é verdadeiro quando o poema, ou algum escrito, como conto, crônica, ou até mesmo um romance, tem prazo de entrega, e a conclusão do trabalho não ocorre. Entendo que a arte possui outra temporalidade, e a produção de arte, de um poema, possui outros parâmetros, que não se relacionam muito diretamente com a realidade objetiva, como diante da folha de papel em branco, com o editor, com o jornal ou com a ansiedade. E sim com “coisas da alma”. Nesta altura de minha vida, entendi que existem períodos mais ou menos produtivos e, uma vez que a identidade de poeta já seja reconhecida  e estabelecida pela própria pessoa, o tempo da criação de um novo poema ou de um novo livro chegará!

AC: Fale dos livros que já publicou até hoje.

RM: Meu primeiro livro foi No azul, de 1991. Foi criado e desenvolvido a partir do primeiro poema que deu início à minha atividade como poeta, descrito acima como a minha entrada na literatura. Meu segundo livro foi de 1996, Itgadal memória dos ausentes. Nesse intervalo, achei que não mais escreveria, que não era poeta e que o primeiro livro era somente fruto de minha vaidade de ter um livro publicado. Mas felizmente, fui me constituindo e me identificando com a poesia e com cada novo livro. Nesse segundo livro, abordei as perdas, as separações e o luto pelos entes queridos. O terceiro livro de poemas, Luminosidades, foi também desenvolvido a partir de um poema vencedor do Festival SESC de Poesia (1999). É um livro mais iluminado, principalmente pelos estudos de literatura que comecei a fazer, leitura de outros poetas, cursos, saraus que comecei a frequentar e de oficinas literárias. No meu quarto livro, Aqui dentro de mim, aprofundei meus estudos literários, cursando uma especialização em literatura numa universidade, já que vinha da área médica e não tive muito tempo para poesia e literatura em geral. Meu quinto livro,  A história dos seios (2010), foi um livro que me revelou a contista que não sabia que era. Foi a partir de minha experiência com o câncer de mama que comecei a desenvolver memórias e histórias sobre seios  na forma de pequenos contos. Meu sexto livro, Esse recorte, foi publicado em 2014, apesar de estar quase pronto  já em 2009. Mas a urgência do tema do livro anterior passou na frente. Mas o tempo que  o livro Esse recorte esperou para ser publicado talvez tenha propiciado maior elaboração, na medida em que o reescrevi algumas vezes e foi vencedor do Prêmio Literário Nacional do Pen Clube do Brasil (2016). O sétimo livro, Era uma vez e outros contos (2018),  foi uma outra experiência, o segundo livro de contos, o que fortaleceu minha escrita também como contista. Em 2019,  Não briga comigo, meu primeiro livro infantil, foi publicado a convite de uma editora que descobriu num dos meus poemas um livro de histórias para os pequenos. Meu oitavo livro, Puro cristal (2021), foi produzido, em sua maior parte, com poemas que criei durante a pandemia e alguns outros guardados à espera de seu tempo devido. Também fiz parte de antologias, revistas, cadernos e sítios literários.

Puro Cristal, o mais recente livro, foi lançado no final de 2021. Foto: Divulgação.

AC: Um livro marcante. Por quê?

RM: Houve muitos livros que me marcaram. Desde O pequeno príncipe, ao Profeta, de Khalil Gibran, livros que abordam temas como amor e autoconhecimento de forma profunda. Mas quando li a A paixão segundo G.H., levei um susto! Fiquei totalmente tomada! Acho que foi esse o mais marcante! Pela peculiaridade do tema, pela conversa interna que a personagem estabelece consigo mesma e pela raridade do escrever dessa autora fabulosa.

AC: Um escritor marcante. Por quê?

RM: Clarice Lispector. Pelo que foi descrito acima.

AC: Sei que você também escreve para crianças. Como se relaciona com esse público?

RM: Comecei a escrever literatura infantil por acaso, como comentei acima. Mas sempre gostei de contar histórias de minha infância para os meus netos. E eles adoravam. Acho que muitos livros infantis são por demais infantis! Isto é, escondem verdades das crianças, subestimando-as! Gosto demais de crianças. Um público sincero… Elas nos presenteiam, quando gostam, com muito amor e carinho.

AC: Projetos em andamento: o que vem por aí nos próximos meses?

RM: Sempre tenho poemas guardados a serem trabalhados. O projeto continua nessa criação incessante, ininterrupta de prazer, suor e lágrimas! Se serão transformados em  novos livros, é um pouco misterioso! Continuar escrevendo, sempre!

AC: Para encerrar, gostaria que deixasse aqui um poema de sua autoria.

COMO DIZER

Como dizer que é noite

se dentro de mim é dia

como dizer do frio

se dentro de mim é fogo

como dizer não sei

se dentro de mim eu sei

como dizer de ti

se dentro de mim sou eu

(In, Esse recorte, 2014.)

 

Bem é isso.

Até a próxima!

César Manzolillo

 

 

 

 

Clique abaixo para ler as demais entrevistas exclusivas do projeto!Não deixe de ver também:LIVES
AC Encontros Literários
AC Encontros Literários tem curadoria e apresentação (lives) de César Manzolillo (@cesarmanzolillo).

 

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Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de vinte e quatro antologias literárias. Autor do livro de contos A angústia e outros presságios funestos (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos.

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