André Sant’Anna: o autor de O paraíso é bem bacana é o convidado desta semana do AC Encontros Literários

 

André Sant’Anna (@santanna4541) nasceu em Belo Horizonte e atualmente vive em São Paulo. É autor, entre outros, do romance O paraíso é bem bacana (2006) e da coletânea Sexo e amizade (2007), constituída por uma narrativa longa e 23 contos curtos. Além de escritor, atua também como roteirista, publicitário e músico.

Confira a entrevista exclusiva que preparamos pra você.

ArteCult: Como a Literatura entrou na sua vida? Talvez a convivência com seu pai tenha algo a ver com isso, não?

André Sant’Anna: O gosto pela leitura veio pelo meu pai e pelo meu avô, em cuja casa havia muitos livros. Quando criança, eu gostava tanto de ganhar um livro no aniversário quanto um brinquedo. E muito cedo, comecei a escrever, ia bem nas redações da escola etc. Mas, vendo a vida que meu pai levava, sempre angustiado, aquele barulho de datilografia vindo do quarto onde trabalhava, aquela solidão nas madrugadas, nunca desejei ser um escritor. Na adolescência, fiz teatro, depois fui músico, fiz alguns “filmes experimentais” e tal. Nessas atividades, a escrita aparecia um pouco, mas só como um complemento. Só comecei a escrever mesmo, com pretensões literárias, quando fui morar em Berlim, fiquei longe dos meus amigos músicos. Aí comecei a escrever um livro, também sem maiores pretensões. E esse livro não deu certo mesmo.

AC: Como é sua rotina de escritor? Escreve todos os dias? Reescreve muito? Mostra para alguém durante o processo?

AS: No momento, estou trabalhando muito na base da demanda, escrevendo contos para revistas, teatro e roteiros para cinema e televisão, esperando uma brecha para escrever um romance que tenho na cabeça. Então, meu dia a dia está meio caótico, misturando vários trabalhos diferentes. Lancei um livro no ano passado (Discurso sobre a metástase) que reúne teatro, conto, crônica e textos não muito classificáveis. Nos primeiros livros, sempre mostrava para meu pai, a um ou outro amigo. Mas depois parei de mostrar antes de pronto. Eu acabava ficando confuso com algumas opiniões.​​​​​​​

O paraíso é bem bacana foi publicado pela Companhia das Letras. Foto: Divulgação.

AC: No seu caso, de onde vem a inspiração?

AS: Meus três últimos livros falam sobre o Brasil, as questões políticas, a insensatez ganhando espaço. Então a inspiração vem do que ouço na rua, na televisão, nos personagens cada vez mais estranhos que surgem no ambiente.

AC: O fantasma da página em branco: mito ou verdade? Isso acontece com você? Em caso afirmativo, o que faz para resolver esse problema?

AS: Acontece mesmo na cabeça. Às vezes, sinto uma certa angústia por estar sem ideias. Mas quando abro a tela em branco do computador, começo a improvisar, como se fosse música, e as ideias começam a aparecer, influenciando a linguagem, que por sua vez, acaba influenciando as ideias.

AC: Um livro marcante. Por quê?

AS: É até um lugar-comum, mas é mesmo o Grande sertão: veredas. É uma aventura espetacular. É música pura. É profundo filosoficamente. Consegue tratar de todos os assuntos sob todos os pontos de vista.

AC: Um escritor marcante. Por quê?

AS: José Agrippino de Paula. A literatura dele me trouxe liberdade para escrever o que eu quero, do jeito que eu quero. Me mostrou que a escrita não tem limites, que ela nos permite ir a qualquer lugar, nos permite pensar qualquer pensamento, que podemos ser quem quisermos.

AC: Sei que, além de escritor, você também é roteirista, publicitário e músico. Como se divide entre essas atividades?

AS: Televisão, cinema e publicidade são trabalhos que derivam da literatura, meu ganha-pão. Senti bastante frustração quando deixei de ser músico e  de fazer teatro em prol da literatura. Mas foi a literatura que me reabriu as portas da música e do teatro.

 

Sexo e amizade: narrativas ambientadas numa metrópole caótica. Foto: Divulgação.

AC: Na sua opinião, que características um bom conto deve apresentar?

AS: Um conto pode ser bom de muitas formas diferentes. Não há uma fórmula única. Mas a boa literatura, de uma forma geral, é aquela que gera pensamento e emoção. Pessoalmente, não gosto muito das regras de “como escrever bem”. Gosto dos autores que escrevem aquilo que só cada um deles poderia escrever, aqueles que não se parecem com nada. ​​​​​​​

AC: Projetos em andamento: o que vem por aí nos próximos meses?

AS: Estou escrevendo muito teatro. Aqui, em São Paulo, estão em cartaz Guerra em Iperoig e Os insensatos, onde estou até trabalhando de ator. Em outubro, vem O Brasil é bom,  adaptada do meu livro. Escrevo também um monólogo para o ator Bruce Gomlevsky e duas óperas: O jogo de todas as coisas que há, com o compositor Arthur Faria, e Shakespeare experiência, com a cantora e compositora Vanessa Bumagny.

O Brasil é bom: coletânea de contos apresenta uma linguagem cáustica, irônica e mordaz. Foto: Divulgação.

AC: Entre os seguidores do canal de Literatura do portal ArteCult, muitos são aqueles que escrevem ou que desejam escrever. Que conselho ou dica você poderia dar a eles?

AS: Não sei se é assim com todo mundo que escreve, mas creio que o que faz a gente crescer como escritor é estar sempre pensando em escrever algo único, que não se pareça com nada, especialmente com os autores que mais exerceram influência. Que sejam artistas. O Godard, cineasta, diz que “cultura é regra, enquanto arte é exceção”.

Para encerrar, pediria que deixasse aqui uma amostra de seu trabalho como autor.

 

Os Desmandamentos

I – Deus é bom.

II – Eu sou bom.

III – Eu raciocino.

IV – Eu gosto de Deus.

V – Eu sou bom porque gosto de Deus.

VI – Eu gosto de bifes.

VII – Foi Deus quem fez as vacas.

VIII – Gosto de comer vacas.

IX – As vacas não são boas.

X – As vacas não gostam de Deus.

 

 

Bem, é isso. Até a próxima!

 

O projeto AC Encontros Literários venceu o troféu APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro) 2021 na categoria Encontros Literários on-line.

 

César Manzolillo

Colunista do canal LITERATURA

Clique abaixo para ler as demais entrevistas exclusivas do projeto!

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LIVES
AC Encontros Literários

AC Encontros Literários tem curadoria e apresentação (lives) de César Manzolillo (@cesarmanzolillo).

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Author

Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de vinte e quatro antologias literárias. Autor do livro de contos A angústia e outros presságios funestos (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos.

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