Com Ana Gosling

Foto: WikiAves
LIÇÃO DE PÁSSARO
Já falei, antes, dos ninhos de sanhaços construídos ao lado do meu aparelho de ar condicionado. A experiência se repete: acompanho, agora, o desenvolvimento dos filhotes nascidos há uma semana.
Dessa vez, consegui gravar, sem perturbá-los, os pais os alimentando. Sei que serão poucos os dias em que seremos vizinhos e, logo, logo, os filhotes ensaiarão seus primeiros voos, para não mais voltarem. Parece mais triste se é domingo e você está arriado por uma gripe. Mas há uma lição muito bonita que me ensinam os pássaros, desde que começamos a conviver: amar exige liberdade; amar, às vezes, é deixar ir.
Com eles, aprendi: a graça está em vê-los voar. Pularem os galhos do bougainville. Vigiarem os movimentos da casa. Desenhar com seus bicos as cascas das frutas, depois de comê-las durante o dia. A graça está em deixá-los construir um ninho, bagunçando a lógica: entre o aparelho de ar e a parede, fugidos dos vendavais, encontrando segurança num cantinho que não se nota. A graça está em admirá-los, livres como são. Ressabiados, distantes e presentes.
É isto: são presença. Ouço pios, desde o amanhecer até o fim da tarde: os filhotes anunciam sua fome, os pais conversam entre si. Vejo rasantes na frente da janela, no vai-e-volta com os alimentos. Enquanto a mãe os alimenta, flagro o pai fixado em mim, no cantinho do vidro, certificando-se de que não os surpreenderei.
Pudesse eu me fazer entender ao sanhaço-pai… Não me temeria, amo seus filhotes. Quero que fiquem, que se demorem, que façam barulhos. Quero suas companhias. Nesse ano cinza, de coração chuvoso, depois de tantos dias sem sol, suas existências são um milagre, um lembrete de que a vida se renova em alegrias. Por mim, moravam aqui para sempre.
Por eu não voar desejava que o tempo de espera passasse devagar. Mas, eu dizia, aprendi a deixar ir. Se a ideia do ninho vazio me aperta o coração, eu tão acostumada com a algazarra desses dias, imaginá-los descobrindo a imensidão do mundo me faz abrir um sorriso. Confinados no vão estreito entre o aparelho e a parede, pouca luz lhes chega, nem o vento os alcança. Que pensarão ao sentirem o ar percorrendo as penas das suas asas quando descobrirem o voo? Sentirei orgulho de tia.
Mas, calma, ainda é o tempo da convivência. Seus corpinhos estão impróprios para a independência. Trêmulos, olhos fechados, biquinhos escancarados em direções aleatórias. Frágeis, frágeis, enternecem-me. Estão providos de amor, alimento, proteção.
Falta pouco. Dia desses, partem. Combinamos assim: até lá, eu os amarei profundamente.


com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo
















