Às Quartas – A vida na selva

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A VIDA NA SELVA

 

Moro na cidade. Mas, ao acordar, encontrei a cozinha sujíssima: um morcego de fruta entrou de madrugada e fez a festa com as bananas deixadas na fruteira. Não bastou varrer. Foi preciso lavar, desinfetar, esfregar, tirando o que ficou agarrado no piso.

O trabalho de limpeza fixou para sempre um lembrete na memória: jamais deixar as frutas à mostra. O morcego sabe onde as guardo e, vez ou outra, volta pra conferi-las, mesmo se não estão lá. Aposta num deslize. Dessa vez, ele se deu bem: quem espera sempre alcança.

Agora, quando a tarde se despede, cubro as bananas, recolho os restos de fruta deixados pelos passarinhos na varanda e fecho a janela. Sem chamarizes. Sem morcegos.

Ele reapareceu, dois dias depois. Deu de cara comigo em pé lavando a louça. Era cedo, ainda 17h. Luzes do dia ainda acesíssimas. Pude ver suas asas perfeitamente recortadas no movimento do voo, ao afastar-se. Do nojinho pela criatura, veio-me uma espécie de encanto. A silhueta perfeita, a memória privilegiada, o instinto, um mamífero que voa.  Quero-o longe. Nada de laços com quem nos ameaça a saúde. Mas são incríveis os pequenos milagres de sua constituição.

A casa tem sido um observatório. Durante a semana inteira, os passarinhos piavam, encostados à janela, ao raiar do dia. Às 6h, a conversa estava intensa. Desconfiei: será que constroem um ninho? Tanto assunto assim deveria ser ajuste de engenharia e arquitetura, debate sobre os planos futuros, o casal organizando o chá de palhas e folhas.

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Bingo! Puxei a espuma que veda a passagem do ar do aparelho de ar condicionado, após o casal de pássaros distanciar-se. E atrás, um ninho vazio, caótico, esperando seus últimos detalhes arquitetônicos.

Fiquei felicíssima quando, no ano passado, construíram um ninho no mesmo lugar. Espionei os filhotinhos e ouvia, através da parede, seus piadinhos frenéticos, no assanhamento de serem alimentados pelos pais. Meu coração se inundou de alegria por dias. Quero repeteco.

Se a fauna está à vontade para aboletar-se em minha casa, a flora anda tímida.

Nesses dias sem cor, colhe-se o efeito dos vendavais passados. O vaso da jabuticabeira virou duas vezes, mesmo escorado. Sinto-a ressentida. As demais plantas sofreram também. O bougainville se veste só de três florezinhas. A lágrima-de-cristo é só caule.

Mas a natureza é vezeira em produzir milagres: o hibisco se abriu em flor. Quero acreditar que foi ele quem chamou o Sol, depois das semanas de chuva. A flor é vermelho-paixão. Vívida. Farol na varanda. De qualquer janela do apartamento, é avistada. Eu a tomei como prenúncio de dias melhores.

Morcego barrado. Pássaros construindo. Flor se exibindo. O sol banha as plantas machucadas pelos ventos, destacando o tom forte do seu verde. Estão saudáveis. Observo da porta da varanda o mundo voltar ao seu lugar. É preciso aguardar.

Um bem-te-vi pousa no estrado e olha para mim. Não se arrisca a comer o mamão entre nós, no comedouro. Como confiar essa espantalha não ser caçadora? Eu, no lugar dele, desconfiaria. Mas ele não foge com o susto. Vivemos um impasse. Se mexer-me, ele fugirá. Se eu ficar, ele não se aproximará. Ele cede, pousando no galho do Bougainville. Fujo da sua vista, para dentro do apartamento. De longe, ouço seu grito, avisando a outros que o almoço está servido.

Moro na cidade. Ai de mim se a natureza não me fizesse companhia.

ANA GOSLING

@analugosling

 

com Márcio Calixto


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Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (https://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, no ArteCult, há crônica nova da autora, que integra o projeto AC VERSO & PROSA junto de Tanussi Cardoso (poemas) e César Manzolillo (contos). Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

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