A resignação estoica e/ou a cogitação cartesiana? (“é o que temos para hoje”).

A resignação estoica e/ou a cogitação cartesiana? (“é o que temos pra hoje”).

“Atenção ao dobrar uma esquina
Uma alegria, atenção, menina
Você vem, quantos anos você tem?
Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão

Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino, maravilhoso
Atenção para o refrão, uau!

É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte” 

(Divino, Maravilhoso)

 

Começo o artigo de hoje com uma frase muito ouvida em nosso dia a dia. Acaba sendo banalmente repetida quase como uma ‘vírgula’ no meio de tantos afazeres e de tantas coisas que falamos irrefletidamente, pois seguimos o curso de nossas rotinas num mecânico ‘automatismo’, sem dar atenção às nossas (re)ações diante do que nos causa incômodo e perturbação. Mas por que é necessária uma reflexão entre a resignação que Epicteto nos fala e a cogitação cartesiana em nossos dias? Eis o problema que proponho para hoje: articular as ideias éticas do filósofo estoico acerca da aceitação e da resignação com o princípio racional do francês René Descartes. O fio condutor da discussão é o elo secular entre o logos e o éthos (substantivo feminino grego έθος = costume, hábito).

 

Parece um bom debate, entre dois pensadores tão distantes, cronologicamente, mas que trazem, em suas ideias e em seus contextos históricos, questões comuns à nossa atualidade e por isso acho que pode contribuir para expandir nossos horizontes de pensamento. Não se trata de um confronto (este x aquele), pois aqui não é o tradicional embate entre razão OU emoção, mas sim uma conjunção harmônica, na medida do possível, entre pensamento E ação, para que tenhamos a possibilidade de, a partir dos nossos questionamentos, vivermos uma vida autêntica, em seu pleno sentido, longe das aflições e daquilo que não podemos mudar. Afinal, o que não depende de nós, não deveria (deve) nos perturbar. Parece óbvio, mas nem sempre nos damos conta (olha o logos) e seguimos muitas vezes com uma carga de sofrimento psíquico desnecessário. 

Vivemos uma época de múltiplas crises, de cobranças e de padecimentos psíquicos que nos sitiam e nos lançam numa clareira de dilemas éticos, e para não sucumbirmos neste abismo devemos continuamente (re)pensarmos e questionarmos – tendo o logos como mestre-de-cerimônia – o que nos incomoda, o pode podemos ‘deixar de lado’, porque não vale a pena e para o que devemos realmente voltar nossa atenção. E como ‘pano de fundo’ estamos nós, eu e você, com nossas expectativas, nossas individualidades e nossas crenças. Neste sentido, é imperativo atentarmos para o que nos afirma o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em seu livro O espírito da esperança contra a sociedade do medo:

“Estamos numa multicrise. Olhamos amedrontados para um futuro sombrio e falta esperança em toda a parte. Saltamos de uma crise para outra, de uma catástrofe para outra, de um problema para outro. Entre pura resolução de problemas e gerenciamento de crises, a vida definha: torna-se sobrevivência. A ofegante sociedade da sobrevivência assemelha-se a um doente que tenta de todas as maneiras repelir a morte iminente. No entanto, apenas a esperança nos permite recuperar a vida que é mais que sobrevivência. Ela estende o horizonte do significativo, que revitaliza a vida e lhe dá asas. A esperança nos presenteia com o futuro.” (P. 10) 

Nosso tema de hoje não é sobre a esperança, muito embora esteja irremediavelmente à espreita, mas a questão das tribulações que nos cercam e das quais precisamos nos questionar e muitas vezes devemos nos abster, este último um verbo muito usado por Epicteto (do grego απέχου / apékhou) em seu Manual. Nosso filósofo, um ex-escravizado, que por volta de 94 foi obrigado a deixar Roma devido á perseguição do imperador Domiciano. Refugia-se na Grécia e para lá transfere sua escola. Epicteto está inserido na fase do estoicismo imperial, junto com outros célebres pensadores como Cícero, Sêneca e Marco Aurélio: os últimos ‘regentes’ desta escola filosófica, onde a ética é o legado mais importante e talvez o que mais se destaca. De Epicteto restam apenas as Diatribes e o Manual, um compêndio de cinquenta e três fragmentos, organizados por um de seus alunos, Flávio Arriano. Em grego, o Manual tem o título original Enkheirídion (Έγχειρίδιον), substantivo neutro que pode ser interpretado como punhal, arma portátil ou até mesmo um livro, um manual, que pode ser consultado a qualquer momento que se faça necessário. É um manual para ser consultado sempre que tenhamos necessidade, diante das dúvidas éticas e existenciais, de uma orientação de como agir e como pensar: uma possibilidade de saída das encruzilhadas de questões que a vida permanentemente nos apresenta. Considero que o Manual é uma ‘adaga’, que nos liberta das dúvidas, das angústias e dos tormentos da alma, conduzindo-nos a uma vida feliz e livre de inquietações. Aliás, a frase mais usada no Manual é justamente AFASTAR-SE das coisas que não estão sob nosso controle, como vemos no Fragmento I:

“Das coisas, algumas estão sob nosso controle, outras, não. Estão sob nosso controle o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa – em suma: o quanto for ação nossa. Mas não estão sob nosso controle o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos – em suma: o quanto não for ação nossa. As coisas que estão sob nosso controle são por natureza livres, desimpedidas, desobstruídas. As que não estão sob nosso controle são fracas, escravas, obstruídas, alheias.”

Este talvez seja o fragmento mais importante e que mais represente o pensamento de Epicteto. Não são as coisas externas que perturbam o homem, mas sim o que o homem pensa delas. São as opiniões frágeis que escravizam, influenciam e estremecem o agir do homem. O que podemos destacar ainda de ‘novidade’ para a Filosofia dos estoicos e principalmente do nosso pensador é um convite imperativo para o voltar-se para si e o agir consigo e com os outros. É o que penso sobre o fato e não o fato em si. É a ação voltada para um esforço ético, e um contínuo exercício do pensar (interpretar o que ocorre à sua volta) e do agir. Uma espécie de homologação e que serve de permanente bússola para as ações humanas. É o que Epicteto nos diz sobre o que depende de cada um, diante de qualquer circunstância – a partir do pensar. E livrar-se dessas opiniões externas é absolutamente libertador, segundo nosso filósofo, um ex-escravizado. Mas sem dúvida, um árduo exercício. 

Já no Fragmento V, lemos que:

“Não são as coisas que inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. Por exemplo: a morte nada tem de terrível, ou também a Sócrates teria se afigurado assim, mas é terrível a opinião sobre a morte, segundo a qual ela é terrível. Então, quando formos impedidos, quando nos inquietarmos ou nos afligirmos, jamais consideremos qualquer outra causa senão nós mesmos – isto é, nossas próprias opiniões.”

Considero este o fragmento mais importante de Epicteto – onde vemos muito explicitamente o fundamento de seu pensamento sobre a questão da aceitação do que não podemos mudar, alterar, de forma racional. Não é uma passividade. Ao contrário: um entendimento dos nossos limites, de nossas fraquezas e também de nossas potências. Aceitar os acontecimentos como se apresentam sem tentar mudar a realidade para caber em nossa forma de pensar e perceber o mundo. Muito apropriado para a reflexão atualmente, onde impera a tentativa da não aceitação da realidade que se nos apresenta e o escape pela via da crença na opinião e no senso comum, no consumo material e nas crenças religiosas radicais. E o fato da finitude, inerente à condição do corpo, também se enquadra nesta perspectiva. É inelutável e por isso mesmo o alerta de Epicteto para o suportar.

Outra passagem que considero bastante relevante para nossa abordagem de hoje é o Fragmento XVII:

“Lembra que és um ator na peça teatral que o Mestre quiser: se Ele quiser breve, breve será; se longa, longa será; se Ele desejar que interpretes o papel de um mendigo, é para que interpretes esse papel com habilidade. E, da mesma forma se coxo, se magistrado, se homem comum. Pois isso é teu: interpretar belamente o papel que te é dado.”

Neste excerto, uma aproximação com duas ideias centrais no pensamento de Epicteto: ανέχου/anékhou (suportar) e απέχου/apékhou (abster-se). Aceitar os acontecimentos que nos ocorrem, como se apresentam sem tentar mudar a realidade para caber em nossa forma de pensar e perceber o mundo. E o entendimento – com nosso logos – de que temos um limite de ação, pois, segundo os estoicos, há um Cósmo racional que tudo rege.

E por fim, trago o Fragmento L

“Respeita o quanto te é exposto como fosse lei, como cometesses uma impiedade se o transgredisses. Se alguém disser algo de ti, não te voltes a ele, pois isso não é teu.”

Nada me parece tão atual quanto este chamamento de Epicteto: “. Se alguém disser algo de ti, não te voltes a ele, pois isso não é teu”. É DO OUTRO. Devo me voltar para o que depende de mim. No fragmento vemos o termo “impiedade” – que na antiguidade clássica era um delito grave não crer na providência Divina. Os deuses são soberanos, bons, sábios e eternos. O Cosmos tem uma racionalidade soberana. E nós, humanos, somos portadores e tutores desta partícula cósmica de racionalidade. Portanto, para aqueles pensadores, devemos respeitar este ‘perímetro’ e bem agir, homologado com o Cosmos. 

Para os estoicos, notadamente para Epicteto, uma vida tranquila está assentada num éthos (costume, hábito) apontado para viver uma vida longe das inquietações e das aflições da alma – é a ATARAXIA que estes pensadores tanto nos falam sobre uma vida feliz. Mas o que nos desassossega hoje? Por que isto nos aflige? São questões primordiais, herdeiras da primazia do logos, que não devem ser esquecidas, pois o ‘efeito colateral’ desata autonegligência pode nos custar uma vida amarga, inautêntica e dolorosa.

É preciso ter autovigilância, um olhar sobre si, a busca do autoconhecimento, a parresía, que significa fala franca e a coragem para aceitar o que não dá pra mudar, o que não depende de nós, o que nos é exterior e a resignação para seguir adiante. A frase é atraente, mas não é minimamente fácil sua adesão/entendimento. Mas podemos – temos a oportunidade, o kairós – de elaborar o que acontece conosco a cada instante e a partir da auto-observação, do autoconhecimento, do silêncio e da resignação seguir adiante. 

A época de Epicteto não foi muito diferente da de Descartes, em termos das múltiplas crises que falei anteriormente. Na história da Filosofia, René Descartes é considerado o ‘pai’ da era moderna. Viveu apenas 54 anos (1596 – 1650), mas rompeu a fronteira epistemológica numa época de incertezas (final da Id. Média). Suas ideias acenderam a ‘luz do palco’ do COGITO. Em 1637 ele publicou o Discurso do método, obra basilar acerca da teoria do conhecimento e a relação entre o cognoscente e o cognoscível. Logo na Primeira Parte (de seis ao todo) desta obra, o francês chama a atenção para o bom senso, terreno bastante ‘movediço’, digamos:

“O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída, porquanto cada um acredita estar tão bem provido dele que, mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa, não costumam desejar tê-lo mais do que já o têm. 

Não é provável que todos se enganem a esse respeito. Ao contrário, isso prova antes que o poder de julgar e distinguir bem o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se denomina bom senso ou razão, é naturalmente igual em todos os homens. Desse modo, a diversidade de nossas opiniões não se origina do fato de que alguns são mais racionais que outros, mas somente pelo fato de dirigirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não considerarmos as mesmas coisas.” (P. 10).

Ou seja, de saída, temos divergências – como é próprio de uma coletividade – e o consenso é difícil, mas há em comum o logos, o cogito e dele não devemos nos afastar. 

Já na Quarta Parte, nosso filósofo traz a ‘cereja do bolo’ de seu Discurso:

“A partir do momento, porém, em que desejava dedicar-me exclusivamente à pesquisa da verdade, pensei que deveria agir exatamente ao contrário e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse supor a menor dúvida, com a intenção de verificar se, depois disso, não restaria algo em minha educação que fosse inteiramente indubitável. 

[…]

Ao notar que esta verdade penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de abalá-la, julguei que podia acatá-la sem escrúpulo como o primeiro princípio da filosofia que eu procurava.” (P. 30-1).

Nosso pensador prossegue em suas teorias acerca do cogito, ergo sum também na obra Meditações metafísicas, de 1641. E na Meditação # 7, ele reflete sobre a alma racional e seus atributos, sendo um deles justamente o pensar:

“e noto aqui que o pensamento é um atributo que me pertence. Só ele não pode ser desprendido de mim. Eu sou, eu existo: isto é certo; mas por quanto tempo? A saber, durante o tempo em que penso; pois talvez pudesse ocorrer, se eu cessasse e pensar, que cessasse ao mesmo tempo de ser ou de existir.”. (P. 46)

E logo em seguida, na Meditação # 9, ele lança algumas perguntas:

“Mas o que é que sou então? Uma coisa que pensa. O que é uma coisa que pensa? Isto é uma coisa que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que não quer, que imagina também e que sente. Por certo não é pouco se todas essas coisas pertencem à minha natureza.” (P. 47-8).

Apesar de vivermos na era pós-cartesiana do ‘império’ da racionalidade, do cogito, ergo sum (penso, logo existo), onde o senso crítico racional deveria direcionar o homem para um caminho menos doloroso – do ponto de vista das (re)ações – vivemos miseravelmente perturbados e pré-ocupados, muitas vezes, com questões superficiais, não relevantes e que definitivamente estão aquém do nosso campo de atuação. 

“É o que temos para hoje”: o que isto pode nos ensinar sobre viver uma vida com menos sofrimento e mais autenticidade? Ao ouvirmos esta máxima popular podemos ter múltiplas reações, dependendo do nosso contexto e no estado de espírito. Eu elencaria aqui três respostas imediatas: raiva, indiferença OU reflexão (cogitatio, do latim cogitare = pensar, considerar). Esta última, a ‘protagonista’ da vida do homem moderno, segundo Descartes. Então se esta premissa for aceita, deveríamos cogitar a possibilidade de questionar e de criticar o que cotidianamente nos acontece e o que nos cerca, oque nos preocupa (ou pré-ocupa) e a partir do exercício do cogitare, abster-se e afastar-se do que não dá pra mudar. Porque é-nos exterior.

O tema de hoje está bastante permeado em nosso cotidiano. Sofremos e ao mesmo tempo nos contentamos, num embate ético-moral em torno da felicidade. Por isso nosso problema inicial: por que é necessária uma reflexão entre a resignação estoica de Epicteto e a cogitação cartesiana em nossos dias?

Adoraria testemunhar uma ‘conversa’ entre o estoico do século I e o francês do século XVII. Imaginar a serenidade de um e a inquietação do outro. Talvez a interpelação epictetiana ‘isso não depende de você’ estimule a réplica cartesiana: ‘duvido de tudo, pois penso, logo existo’. Eis aqui o elo que propus para a reflexão filosófica de hoje. Somos tão açodados pelas aflições do cotidiano quanto no século I ou no XVII e isto não terá fim, porque é da condição de nossa existência. Mas é “preciso estar atento e forte”, pois “é o que temos para hoje”. Uma conjunção entre livrar-se dos sofrimentos da alma e bem viver o aqui e agora. 

E para encerrar o artigo de hoje, deixo trecho da música Intuição, de Oswaldo Montenegro: 

“Canta uma canção bonita falando da vida em ré maior
Canta uma canção daquela de filosofia e mundo bem melhor
Canta uma canção que aguente essa paulada e a gente bate o pé no chão
Canta uma canção daquela pula da janela, bate o pé no chão
Sem o compromisso estreito de falar perfeito, coerente ou não
Sem o verso estilizado o verso emocionado bate o pé no chão

Canta o que não silencia, é onde principia a intuição
E nasce uma canção rimada da voz arrancada ao nosso coração
Como, sem licença, o Sol rompe a barra da noite sem pedir perdão
Hoje quem não cantaria grita a poesia e bate o pé no chão
E hoje quem não cantaria grita a poesia e bate o pé no chão
Sem o compromisso estreito de falar perfeito, bate o pé no chão
Sem o verso estilizado o verso emocionado, bate o pé no chão”

 

Um abraço fraternal e até o próximo artigo na ArteCult. 

ZAL

Zalboeno Lins (ZAL) | Foto: Divulgação
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Author

Me chamo Zalboeno Lins Ferreira, mas pode me chamar de Zal.☺️ Sou graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento do RJ. Em seguida concluí o Mestrado em Filosofia Antiga, com Dissertação falando sobre o conceito da morte e vida feliz em Platão, Epicuro e Epicteto. E atualmente faço Doutorado em Filosofia Antiga pela UERJ, com o projeto de pesquisa sobre o conceito da morte e felicidade em Epicuro e Krenak. E nesta pesquisa, vou traduzir as Cartas de Epicuro do grego antigo para o português e anexá-las à Tese. Mais uma contribuição que fica das Cartas epicuristas. Também realizo palestras de temas de Filosofia, tanto para um programa interno da empresa onde trabalho, quanto para pessoas fora da organização. Semanalmente também apresento o Filosofia de Primeira, no Programa De Primeira Categoria da Rádio Itapuama FM (92,7) de Arcoverde (PE). Comento ideias e temas de autores de Filosofia em inserções de 4 a 5 minutos... É uma forma de deixar a Filosofia acessível para mais e mais pessoas, de forma simples, sem descaracterizar a ideia original do pensador. Mas acima de tudo, sou um grande admirador da Filosofia, como meio de nos resgatar do senso comum...☺️ Num direcionamento de uma vida feliz! Uma vida compartilhada! E por fim, como costumo repetir: sigamos em philía!

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