Popô, o Popô do meu pai e o meu Popô.

Coluna de Márcio Calixto

 

Popô, o Popô do meu pai e o meu Popô.

Papai teve um amigo chamado Popô. Abreviação de Apolônio. Conheceram-se no trabalho. Meu pai já é produto da chamada geração gloriosa, que esteve na guerra, lutou contra a Aliança, típico babyboomer, filho de uma mãe que teve vários filhos, todos forjados ao trabalho. Não cheguei a conhecer meu avô, mas conheci um tio dele, há pouco tempo, diga-se de passagem, algo que mais cedo ou mais tarde vai merecer também uma crônica aqui na coluna. Esse amigo, Apolônio, morreu há muito tempo, vítima de acidente de moto na Avenida Brasil. Um dia desses aí, em que eu passeava de moto, vi o carro de meu pai, na Linha Amarela. Dirigir, para ele, sempre foi um dos maiores sensos de liberdade. Ele sempre gostou de dirigir. Também sempre odiou moto. Tornei-me motociclista já com alguma idade, tirei carteira logo depois da pandemia. O trânsito aqui no Rio sempre foi muito ruim, ir às escolas de carro se tornou um transtorno, a agilidade da moto veio a calhar, somado a sua economia de combustível. Nada que se compare à Pedestre Premium, que é o nome carinhoso que demos à nossa motinha elétrica.

Papai voltava para casa. Estava acompanhado de mamãe. Final das férias, tirei um momento para andar de moto, pela saudade mesmo. A minha Kansas ficara parada por muito tempo, em função de usarmos mais a Pedestre Premium. Pensei em vendê-la, me desfiz da ideia, consertei o que era necessário consertar, bora rodar. Encontrei o velho. Seus olhos marejaram, “filho, cuidado com essa porra”, foi categórico. Primeiro, o susto ao ver um cara de moto parar ao lado do carro dele, não nego que fui cuidadoso, buzinei, abri o capacete, não bati no vidro dele, aqui no Rio, moto parando ao lado de carro é visto logo como assalto. Por sorte, estava somente eu na moto, aqui brincamos que entre ver o Capiroto vindo e do outro lado vêm dois caras numa moto, até o Capiroto se esconde. Logo quando me vê, afirma, “cuidado com essa porra”, depois gritou, “levanta a calça, cofrinho tá à mostra”, calça de gordo nunca é plena em esconder finitudes.

O trânsito me exigiu o retorno à direção. Um pouco mais a frente, um acidente explicava o engarrafamento: motociclista acidentado. Não nego que o peso do acidente se somou às palavras mais imediatas do meu Velho e a lembrança de Popô me veio. Não cheguei a conhecer Apolônio. Morrera quando eu ainda nem estava no mundo. Daí me veio outra lembrança, Popô, um amigo de final de infância e início de fase adulta, que conheci na escola, na Ilha do Governador. Estávamos no famoso terceirão, que ainda não tinha esse nome místico, mas já apresentava essa preocupação com as mudanças da vida. Popô, abreviação de Petrônio, já estava no pré-vestibular, quando nos conhecemos e nos reconhecemos como irmãos. Ele era meu vizinho de rua, eu, por ser um típico menino dos vídeos games e dos livros, quase não saía à rua, meus irmãos já eram afeitos à lama e ao barro do campinho, local onde jogavam bola. Popô também não era do futebol, até por ter uma família numerosa, casa sempre cheia e viagem constante. Aliás, há um detalhe que deve ser imposto aqui, o pai dele tinha um Chevrolet Ômega, que era um esculacho de lindo, um pretão impositivo, estacionado na garagem da casa deles, parecia um pastor belga esperando alguém dar um mole. Carro maravilhoso. Quando minha amizade com Popô se tornou mais robusta, entrava na casa dele sempre olhando aquele Ômega, de seu Otacílio, ou Ota, como era o óbvio de se chamar. Era normal sexta-feira Seu Ota e a esposa irem para Itaipuaçu, onde tinham uma casa de veraneiro, que sempre curtiam. Não cheguei a ir a essa casa, mas à em que moravam na Ilha tornou-se nosso ponto de balada. Popô não ia para poder ficar estudando. Os dois irmãos mais novos também passaram a ficar, já que também moravam uma tia e um irmão mais novo da mãe nessa casa. Porém, eles não queriam o estresse maior de se cuidar de adolescentes e um jovem adulto afeito aos livros. Era seu Ota e a esposa saírem que a gente organizava uma festa no terraço de Popô.

Com o tempo, as festas se tornaram maiores, até um amigo nosso que tinha uma mesa para DJ ia e a festa se tornava maior. Claro que respeitávamos o horário das dez horas da noite para não dar treta com polícia ou qualquer outra autoridade. Para nossos pais, estávamos todos na casa de Popô. Foi uma época maravilhosa. Nesse breve ínterim entre um acidente, um encontro e a soma de lembranças, percebi que meu pai não conseguiu talvez curtir o Popô dele. Durante bastante tempo, por quase uma década, eu consegui curtir o meu Popô. Hoje ele mora em Portugal, com a esposa. Uma das últimas vezes que o vi, ele trabalhava na Barra da Tijuca, fui ao seu trabalho vê-lo. Dani, a irmã dele, cheguei a me consultar algumas vezes na Ilha, pois se tornara dentista. Aos poucos, ficamos nesse processo de colecionar saudades. Íntimas. Intimistas. Em intimidade com o passado.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

 

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Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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