Projeto Apocalipse

Coluna de Márcio Calixto

Projeto Apocalipse

 

Passei a comungar de uma mesma ideia que minha sogra tem, que não é muito diferente de uma que tenho pensado para o futuro de meus filhos.

Acredito que a vida se tornará muito cara, a ponto de quase ser insustentável. Pelos próximos passos do próprio capitalismo (que eu particularmente chamo de capEtalismo, por ser coisa do capeta), os mais ricos não mais precisarão dos mais pobres, e não vejo que experiências de contenção empregatícia, como ocorre no Japão, irão se normalizar.

Penso que meus filhos e meus netos vão passar apertos que obviamente não quero que passem. Soma-se a isso a real possibilidade de a minha geração ser a última que realmente vai se aposentar. É fato que irão ainda atentar contra nossa aposentadoria, com perdas de capacidade de compra. Ao longo das décadas. É preciso de contenção, se defender do que está a caminho.

Não quero também ser um velho que tem de persistir trabalhando por não conseguir dar conta das contas. Ao mesmo tempo, não quero ser um estorvo financeiro aos meus filhos. Ter uma velhice plena é uma preocupação que já me move há algum tempo e que agora a coloco aqui.

A ideia: comprar terrenos e produzir sistemas de plantio de subsistência. Em uma moradia coletiva, quase como uma comuna. O espaço, além de servir de moradia, serve para produzir. Vender parte dessa produção. Legumes, hortaliças, cerveja e cachaça. Penso até em um terroir para fumo. Criar minha própria marca de charuto.

A questão: onde conseguir terrenos baratos? Hoje em dia comprar terrenos é quase proibitivo. Os preços são altos. Pelo menos, é que algo que faremos no coletivo. Projeto familiar. Vi uma experiência dessa pelo insta, um grupo de amigos decidiu que seria melhor viver assim e compraram um sítio. Hoje vivem do que produzem. Porém, comunas tendem a ruir se não forem bem administradas por ideias que se comungam. É preciso, inclusive, de maiores ambições em nome do coletivo.

Tive um pouco desse átimo de ideia depois que assisti a um filme chamado Nomadland, que mistura ficção com documentário e faz o retrato de um Estados Unidos empobrecido, com severa concentração de renda, a ponto de trabalhadores informais com mais de 50 anos serem forçados a morarem e carros e vans não pelo luxo do Motorhome, mas por total falta de capacidade financeira. Esse grupo, em especial, criou um senso de comunidade que se auxilia, quando tudo mais falta. É perturbador.

Conversando com minha sogra, ela veio com essa ideia. Em um primeiro momento, toda aquela leitura de mãe-coruja que quer manter os seus sobre suas asas é bem-vinda, mas sua perspectiva não se finda em uma mera leitura maternal. Os argumentos de quem já sobreviveu e hoje tem algo vêm à tona adornado de uma sobriedade futurística e particularmente perturbadora. Lembro bem de quando eu li um artigo escrito por Yuval Harari sobre a geração dos inúteis até 2050. O capitalismo hipertecnológico vai chegar em um dado momento em que não haverá necessidade de tantos trabalhadores – que sempre foi uma perspectiva natural – e vai profundamente descartar os mais pobres, criando uma massa não só desempregada como inimpregável. Não sou rico, não tenho ligação com bancos espúrios – os bancos onde tenho conta já me expropriam dentro da lei – e não sei fazer dinheiro a não ser pelo trabalho tradicional. Pensar em algo que possa dar alguma sobrevivência aos meus, além do que possam conseguir.

Será que estou me tornando o velho paranoico da família?

(Digo, aqueles videozinhos de sobrevivencialistas que aparecem no insta e no face me alimentam ainda mais essa verve. Acho mesmo que estou ficando maluco)

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


Coluna de Márcio Calixto

 

 

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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