Às Quartas – Perspectiva

Com Ana Gosling

IArte – Ana Gosling

 

PERSPECTIVA

 

Estava em pé em frente à churrascaria do bairro e o homem por quem era apaixonada a beijou. Naquele momento, um amigo passava de carro e a flagrou. No dia seguinte, mandou-lhe mensagem, fez brincadeiras, perguntou quem era o homem.

Não conversavam havia tempos. Riram por uma hora, quando a mensagem virou telefonema e o telefonema, troca de conselhos maliciosos para os rituais finais de sedução.

Nada demais. Uma coincidência. Um casal saindo do restaurante. Um beijo, uma promessa. O flagrante de um amigo. Um pretexto para encurtar distâncias numa conversa divertida. Eles não sabiam (nunca se sabe): outros elementos mudariam a perspectiva daquele dia.

O namoro não iria adiante. O amigo, única testemunha do instante romântico com o homem que amava, se acidentaria meses depois, ficando em estado grave. Houve dias em que, duvidando de ter vivido aquele dia, lembrava-se das brincadeiras do amigo e de sua impressão ao olhar o casal à distância.

Tudo pequenino: um beijo, uma saída, ligações ignoradas. Tudo parecendo maior: gaveta lotada de lingerie nova aguardando próximo encontro; horas investidas em elaborar ideias de aproximação. Tudo mudado: um de nós nos esfrega na cara a fragilidade da vida. Ossos quebram, cérebro se dilui em pancada forte. Dorme sem poder falar nem ouvir as besteiras que diziam, sem saber do carinho que lhe era devotado. Sem cumprir a promessa de um encontro em breve. Sem rememorar a piada sobre sua trágica vida amorosa.

Nada girava em torno dela. O amor perdido orbitava outro amor. O amigo adormecido não se lembrava de si, que dirá do miúdo da vida. Mas ela rodava no mesmo lugar, remoendo as ausências sentidas, as vozes caladas sem anúncio, o sonho interrompido sem explicação. Até parar de insistir em vida sem promessa e tomar uma direção ao sair do corrupio.

Investiu em relação nova, estreando a lingerie comprada para a antiga. Dividiu risadas com outras pessoas, mesmo desencontrada da gargalhada amiga que a fazia mais feliz. Ocupou o centro da roda, da dança, dos acontecimentos, abrindo e fechando círculos de romance, em busca de amor real.

Quando está à toa, na hora em que a manhã começa e as maritacas correm em direção à mata, despertando a vizinhança com seus gritos, ela sorri. Lembra a noite de promessa farta e realizações miúdas. O gosto do beijo de amor. O som do riso parceiro. Lamenta não ter sido feliz para sempre desde aquele instante. Mas aceita: basta um momento para a vida nos escapar.

 

ANA GOSLING

@analugosling

 

com Chris Herrmann

com Márcio Calixto


com Ana Gosling

com César Manzolillo


com Tanussi Cardoso

com Rose Araújo

 

Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, no ArteCult, há crônica nova da autora, que integra o projeto AC VERSO & PROSA junto de Tanussi Cardoso (poemas) e César Manzolillo (contos). Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

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