
com César Manzolillo

COLIBRI
O mundo é um vasto borrão de cores vibrantes, e eu sou o motor que o atravessa. Meu coração bate num frenesi que a maioria dos seres confundiria com pânico. Viver é uma busca incessante por combustível, e meu corpo exige o açúcar das flores com uma urgência implacável. Mergulho meu bico longo na geometria das corolas e sugo o néctar viscoso, promessa de mais dez minutos de existência. Paro no ar, desafio as leis da física e recuo em pleno voo, algo que outras aves encaram com um misto de inveja e incredulidade.
Hoje, porém, sinto o ar mais pesado. O brilho das minhas penas verdes resulta opaco sob a sombra de uma mangueira. Encontrei um girassol amarelo como gema de ovo e tentei uma aproximação, mas minhas asas produziram apenas um silêncio cansado. O céu, antes um tapete azul infinito e acolhedor, tornou-se agora agressivo e hostil. Meu coração deu um último solavanco descompassado e descansou. A gravidade, contra a qual lutei durante toda a minha vida, me convidou para a chão.
CÉSAR MANZOLILLO

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Conto bastante sensível e bem construído, César. Gostei. Parabéns!