

Hetero Sigilo | Foto: Nil Canine
O ESPETÁCULO “HÉTERO SIGILO”
NA MOSCA!
Conheci Bernardo há muitos anos. Era um menino franzino, já atravessado pelo teatro. Lembro de um musical em Petrópolis, Eros. O tempo passou — e ele trabalhou. Trabalhou muito.
Em 2020, quando o espetáculo esteve na Casa de Cultura Laura Alvim, fui convidada por ele, e entendam, eu dando passos mais largos com as minhas criticas e ele em sua primeira direção. Curioso como o tempo reorganiza as coisas: em 2026, críticos, amigos e assessorias insistiam — “vai, Patrícia, você precisa assistir”. Fui.
E o que encontrei não foi apenas um artista que “chegou”. Foi um artista que construiu.
E o mais interessante é que eu o reconheci — ou achei que reconheci. Fiquei me perguntando: de onde eu conheceria um moço tão bonito? Logo descartei. A memória às vezes nos prega peças, e são tantas pessoas que cruzam o nosso caminho…
Mas, dessa vez, eu estava errada.
Quando fui ao Instagram de Bernardo, lá estava ele: o mesmo menino de anos atrás. Só que agora atravessado pelo tempo — e por uma bela fermentação. Cresceu no corpo, ganhou presença, e, sobretudo, amadureceu no fazer teatral.
Não era engano. Era evolução.
De 2020 a 2026, Bernardo percorreu um caminho consistente: assistente em diversos espetáculos, trabalhos em novelas da TV Globo e Record, atuação como professor em Nova Friburgo. Uma trajetória que revela disciplina e permanência. Mas só isso não explica o que acontece agora.
O que chama atenção é o fenômeno de público. Um teatro que não conhecia lotação passa a experimentá-la. E isso, em tempos tão dispersos, não é dado menor.
“Só aceitando a imperfeição da parte que somos, podemos sentir a perfeição da qual fazemos parte”.
O espetáculo se sustenta sem recorrer à vulgaridade. O que está em cena é uma investigação honesta sobre os atravessamentos de quem não assume sua orientação sexual — e sobre as estruturas que ainda produzem esse silenciamento. Há verdade. E o público reconhece.
“Tô trabalhando nessa profundidade do texto há quase 3 anos, já digeri muita coisa, ressignifiquei outras”, palavras do autor.
Percebe-se um trabalho de pesquisa anterior à montagem. Em São Paulo, na Avenida Paulista, o artista abriu escuta, recolheu relatos, tensionou a própria dramaturgia com o real. Esse procedimento reverbera na cena: o material não é apenas autobiográfico, ele é coletivo.
Tudo isso também se sustenta com o apoio do casal heterossexual Pedro Begotti e Sabrina, à frente da Trybo Digital — de onde nasce uma espécie de patrocínio, quase um mecenato contemporâneo, feito por pessoas comuns que acreditam na potência da arte.
É bonito ver quando o teatro encontra esse tipo de suporte: direto, humano e comprometido.
Bernardo, também professor, organiza o discurso com clareza pedagógica — sem didatismo excessivo. Ao contar sua própria história, ele ativa outras tantas. O relato individual se expande.
“É comum pessoas Lgbts se sentirem culpadas, acharem que estão erradas. Ou então viverem em uma eterna mentira que criam pra si”
A cenografia de Nello Marrese é elegante e funcional. Minimalista, mas carregada de sentido. Os elementos estão a serviço do corpo do ator. Acima, um grande espermatozoide — recurso simbólico potente — que devolve ao público uma imagem que ao mesmo tempo, universal: todos já fomos aquele corpo, sem conflito, em busca de chegar em algum lugar, todos iguais.
A direção de João Fonseca demonstra rigor e escuta. Em um palco amplo, há ocupação consciente do espaço. Nada parece gratuito. Fonseca conduz a montagem com inteligência, equilibrando contenção e intensidade. Sua assinatura está na precisão — e na capacidade de potencializar o ator.
A iluminação de Dani Sanchez segue a mesma linha: sutil, refinada, sem excessos. Há um desenho que não se impõe, mas sustenta atmosferas com precisão. Como um bom perfume, permanece.
A trilha sonora de Frederico Puppi dialoga com o espetáculo de forma orgânica. Não há ruído conceitual. A música ora pertence à cena, ora a atravessa — criando camadas de leitura. Um trabalho coeso, sofisticado.
Tematicamente, poderíamos cair na armadilha do “mais do mesmo”. Mas não. Quando a narrativa é sustentada por vivência e pesquisa, ela se renova. Porque, infelizmente, o tema ainda é urgente: pais que temem a orientação dos filhos, estruturas familiares que reprimem, violências simbólicas que persistem. O público lota porque se reconhece — direta ou indiretamente.
Bernardo se destaca em cena. Seu corpo — bem desenhado — compõe visualmente o espetáculo, mas é no olhar que reside sua força maior. Há uma tentativa constante de atravessar o outro. E atravessa.
Não se trata apenas de presença. Trata-se de comunicação.
E isso, no teatro, ainda é tudo.
Final do papo:
Bernardo manda uma frase do texto para mim?
“Quando criança fecha uma porta, sempre abre um silêncio”
Nossa, isso me atravessou, você está bem? Eu perguntei.
Ele respondeu:
Hoje estou sim…
❤️ obrigado por perguntar
ESTAREI SEMPRE AQUI BERNARDO!
Com idealização, dramaturgia e performance de Bernardo Dugin, “Hétero Sigilo” estreou no Teatro Laura Alvim
Vivendo anos sob a máscara de um personagem hétero que ele mesmo criou, Dugin constrói um relato íntimo e potente sobre os pactos que fazemos para caber na sociedade. A peça expõe como a heteronormatividade ensina a mentir, performar e se aprisionar e aponta caminhos possíveis de coragem e pertencimento.
“O espetáculo não é sobre assumir uma orientação sexual. É sobre o que a gente precisa esconder para continuar existindo sem ser punido por isso. A violência não começa no soco; começa no silêncio que a sociedade nos obriga a manter”, afirma Dugin.
E para quem perdeu, nova chance confirmada: maio, Teatro Glaucio Gil. Hétero Sigilo é coragem, sensibilidade, texto e atuação brilhantes. Uma mensagem poderosa sobre amor e ser quem se é para ser feliz! Acompanhar essa trajetória reforça a fé na vida.
FICHA TÉCNICA
- Dramaturgia e performance: Bernardo Dugin
- Direção: João Fonseca
- Assistente de direção: André Celant
- Cenário e figurino: Nello Marrese
- Trilha original e direção musical: Federico Puppi
- Direção de movimento: Vanessa Garcia
- Iluminação: Daniela Sanchez
- Identidade visual: Loomi House
- Assessoria de imprensa: Catharina Rocha e Paula Catunda
- Fotografia: Nil Caniné
- Produção: O Delirante Produções
- Assistente de produção: Azul Scorzelli



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.









