Às Quartas – Partimos com quem amamos

Com Ana Gosling

Foto: Mediamodifier, em Unsplash

 

Partimos com quem amamos

Quando meus pais partiram, levaram em seus colos a criança que fui. Memórias específicas: o formato do meu corpo miúdo, as palavras ditas erradas, as crenças que, um dia, tive. Por isso, só minha mãe ligaria o medo infantil do escuro à insônia da noite passada, sabendo que a quietude da casa me faz sentir-me, inconscientemente, desprotegida. Só meu pai entenderia por que a xícara do dia-a-dia, apanhada por costume na prateleira do armário, é de louça branca, por a cerâmica me lembrar os cafés da manhã em padaria, antes de seguirmos para a praia.

Não superei a morte recente do amigo. A caminho do lançamento do livro de que participo, precisei dizer-me as palavras que ele me diria: “segue, estou aqui”. Suspendi o luto, abraçada à pulsão de viver. Mas ninguém enxergaria, ao revelar minha escrita, a coragem construída, lado a lado, sobre estradas de pudor e culpa. Ninguém, além dele, saberia o quanto me escondi.

Agora, preciso contar a outros se gosto ou não de goiabada. A madrinha que me servia a sobremesa favorita – goiabada com requeijão – não adivinha mais na mulher os desejos de infância. Nos aniversários, espero, por vício, o tio perguntar-me, ao telefone: “falo com a Miss Brasil?”, sabendo a menina sentir-se gauche, nunca se sentir miss e ainda precisar ouví-lo.

Cambaleio, tentando preencher os pedaços que faltam, levados pelas pessoas que partiram antes de mim. Partes desconhecidas por outros. Ando diferente pelo mundo que não é mais o mesmo. Há terra pisada com cuidado, por eu não contar mais com retaguarda. Há outras em que me lanço, por não ter quem me espere.

Quando a saudade me visita, não está abrandada. Se o coração se acostuma à distância, entende ser dupla a separação: perder o outro é perder a mim. Indo embora, levam-me junto, cúmplice em fragmentos de história, na vida experimentada em parceria, naquilo que lhe contei, nas observações, nas apostas e nas descrenças divididas. Certos maneirismos meus, o amigo traduziria. Algumas feridas, a mãe reconheceria. Determinadas reações, o pai. Piadas internas, apenas quem as viu nascerem. Ninguém mais.

Ao despedir-me, deixei ir pedaços meus que somente se amornavam diante de quem partiu. Morremos, pouco a pouco. Mesmo entre vivos, morremos. Nos distanciamentos entre amores, parentes, amigos, abrimos mão de parte da nossa história. Ficamos, mas diferentes. Partimos, nunca sozinhos.

 

ANA GOSLING

@analugosling

 

 

 

DICA DA SEMANA:

 

 

A dica desta semana é o lançamento de dois livros de crônica, para os amantes do gênero. Dois autores e colegas da Oficina Literária Eduardo Affonso, com quem tive a honra de dividir páginas na última coletânea do “Nuvens de Palavras”,  João Carlos Pacheco e Monica Lobo, estão assinando seus primeiros livros individuais.

As informações sobre os lançamentos, nos dias 08 e 12 de agosto, estão nas divulgações compartilhadas.

O livro de Monica Lobo sairá pela Nina Editora.

Convido a todos que amam crônicas para, com muita alegria, nos encontrarmos lá e prestigiarmos esses autores queridos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

com Márcio Calixto


com Ana Gosling

com César Manzolillo


com Tanussi Cardoso

com Rose Araújo

 

Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (https://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, no ArteCult, há crônica nova da autora, que integra o projeto AC VERSO & PROSA junto de Tanussi Cardoso (poemas) e César Manzolillo (contos). Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

2 comments

  • Emocionada demais! ” Mesmo entre vivos, morremos”; Ando diferente prlo mundo que não é mais o mesmo”; Ficamos, mas diferentes.

    Suas frases que me impactaram.

    Reply

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