
Quando a Idade Chega: Por Que Precisamos Aprender com a Água?
Você já se pegou pensando assim: falhou a memória… ih! Tô ficando velha(o)! Estou mais cansada(o)… Estou velha(o)! Parece que, a partir de um determinado momento, tudo que acontece conosco e foge à nossa ideia de normalidade, colocamos na conta da velhice.
Mas será que não foi sempre assim? Sempre esquecemos nomes, nos sentimos cansados, tivemos dores que surgiam do nada. A diferença é que agora criamos uma narrativa, uma “conta” que atribui tudo ao envelhecimento. E essa conta é real, não podemos negá-la. Os ciclos de vida vão passando, no Oriente, para os homens é de oito em oito anos e para as mulheres de sete em sete. Conforme o tempo passa, a maquinaria do corpo dá sinais de que não está funcionando como antes.

Imagem: redemoinho com ideograma chinês no centro que representa o elemento “água” (shui)
Mas a diferença fundamental está em como cada um lida com essa conta. Algumas pessoas deprimem quando olham para ela, constatam as perdas e seguem a vida carregando esse peso. Outras percebem que a vitalidade não é mais a mesma, mas ficam genuinamente felizes ao descobrir respostas: a memória melhora com o uso de suplementos, o cansaço diminui ao voltar aos exercícios aeróbicos, a rotina se ajusta.
E quando não encontramos solução? Quando a dor no glúteo não suporta mais a instabilidade da areia da praia e precisamos abrir mão daquele esporte que tanto amávamos? É aí que entra a sabedoria milenar do Oriente e o poder do elemento Água.
Na filosofia oriental, a Água é considerada o elemento mais sábio porque incorpora qualidades aparentemente contraditórias. Ela é suave, mas capaz de moldar rochas com o tempo. É flexível, mas possui uma força implacável. A Água nos ensina que a verdadeira potência não está na rigidez, mas na capacidade de adaptação.
Quando o rio encontra uma pedra em seu caminho, ele não para, não se revolta, não se deprime diante do obstáculo. A Água simplesmente contorna, encontra outro caminho, segue fluindo. Ela não perde sua essência por ter mudado de direção, continua sendo água, continua em movimento, continua viva.

Foto editada: Thiago Wacho
A Água nos ensina que movimento não significa necessariamente velocidade ou intensidade. Um lago aparentemente parado está em constante renovação em suas profundezas. Da mesma forma, quando precisamos abrir mão da corrida na areia, não estamos abrindo mão do movimento, estamos apenas encontrando novas formas de fluir. Talvez seja a natação, a caminhada em terreno firme, o tai chi chuan, ou mesmo o movimento interno da meditação e da respiração consciente.
A Água também nos ensina sobre persistência sem violência. Ela não força, não briga com seus limites, mas também nunca desiste completamente. Gota a gota, ela perfura a pedra. Ciclo a ciclo da vida, vamos encontrando novas versões de nós mesmos, não piores ou melhores, apenas diferentes.
Talvez o ensinamento mais profundo da Água seja sobre aceitação ativa. Aceitar não é resignar-se passivamente, mas reconhecer o que é real e trabalhar criativamente dentro dessa realidade. A Água aceita a forma do recipiente que a contém, mas não perde sua natureza essencial. Ela se adapta sem se trair.
Quando aceitamos que nosso corpo mudou, que certas práticas não são mais possíveis da mesma forma, não estamos nos rendendo à velhice, estamos exercendo a sabedoria de nos adaptar, de fluir para novos caminhos, de descobrir paisagens que nem sabíamos que existiam.
A conta da idade chega para todos, é verdade. Mas talvez ela não seja uma cobrança, e sim um convite para aprendermos com a Água: a arte de ser forte na suavidade, de persistir sem rigidez, de nos movermos de formas novas, de encontrarmos nossa essência para além da forma que habitamos.
Quando a idade chega, ela traz consigo a oportunidade de nos tornarmos como a Água: mais sábios, mais adaptáveis, mais profundos. E, como a Água que reflete o céu, mais capazes de espelhar a beleza que sempre esteve dentro de nós.



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Texto lindo! Adorei o paralelismo com a Agua. Acredito muito nesse deixar fluir. A passagem do tempo é inevitável mas o nosso conforto, nosso mover no mundo não cessaram, só precisa novos encaixes.
Parabéns!
Que alegria receber seu retorno, Ana!
Fico muito feliz que o texto tenha ressoado em você.
Sua frase sobre “novos encaixes” me tocou, é exatamente isso! A sabedoria taoísta nos convida a esse olhar mais gentil e compassivo sobre as transformações que vivemos. Quando conseguimos fluir com as mudanças ao invés de resistir a elas, descobrimos que há possibilidades de movimento e conforto em cada fase da vida, mesmo que diferentes das anteriores.
O envelhecimento, assim como a água, nos ensina sobre adaptação e a beleza de encontrar nosso caminho entre as pedras do percurso. É um convite para confiarmos mais no processo da vida.
Obrigada por compartilhar sua reflexão. Esses diálogos enriquecem muito o que escrevemos!
Um abraço caloroso!!!