
Adega Pérola | Fotos: Divulgação
A ADEGA PÉROLA
Que tal começarmos uma nova série de artigos, visitando lugares icônicos em algumas cidades espalhadas pelo Brasil? Afinal, quando conhecemos esses bares ou restaurantes que se tornaram referências naquele espaço, de alguma forma, mergulhamos na história e na cultura daquela localidade e vivenciamos experiências marcantes de sabor. Seja um simples boteco ou algum estabelecimento mais requintado, todos eles trarão particularidades do seu entorno e nos farão entender melhor a gastronomia como experiência cultural, na medida em que ela desperta sentidos e cria conexões e vai muito além da necessidade fisiológica de se alimentar; ela é uma forma de imersão na história, tradições, geografia e valores de um povo, onde cada prato, ingrediente e modo de preparo carrega uma identidade social, tornando a culinária um “capítulo vivo” da cultura local e um pilar do turismo de experiência.
Vamos, então, embarcar nessa jornada?

Para abrir nossos trabalhos, escolhi a ADEGA PÉROLA (@adegaperola), que fica localizada no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, mais precisamente na Rua Siqueira Campos, 138 loja A, bem em frente ao Shopping dos Antiquários. São aproximadamente 60 lugares, com horário de funcionamento de 10h às 01h (fecha no domingo).

Antes de tudo, fui pesquisar um pouco sobre a história do lugar:
A adega foi criada por um casal de portugueses da Ilha da Madeira em 1957 e quase foi fechada após a morte de seus fundadores, mas um grupo de frequentadores assíduos manteve a tradição e a história preservadas. Destaque para as 70 opções de petiscos vendidos por quilo. Há polvo ao vinagrete, camarão frito, mexilhões, ovos de codorna, alho espanhol ao vinagrete, muzarella de búfala, aspargo in natura e os tradicionais rollmops, enroladinhos de sardinha crua conhecidos por curar qualquer ressaca. O estabelecimento foi declarado Patrimônio Cultural Carioca em 2013. (fonte)
Durante a década de 1960, a ADEGA PÉROLA ganhou notoriedade, principalmente pelo fato de ser frequentado por artistas que se apresentavam no Teatro Opinião – marco de resistência cultural e política contra a ditadura militar.
Achei muito interessante a história desse legítimo representante do botequim carioca ter sido “salvo”, em 2010, por um grupo de clientes fiéis – Marcelo Paulos, Heitor Linhares e Ricardo Martins – após a morte do último sócio fundador, principalmente mantendo aquilo que o tornou tão famoso: seu grande balcão de vidro refrigerado repleto de acepipes variados. Além dele, são sete mesas de madeira dispostas pelo salão, com banquetas fixas e prateleiras cheias de garrafas. E muita – muita! – gente lotando o lugar…




Entre os pedidos mais clássicos estão o polvo à vinagrete, os rollmops, as escabeches (de sardinha, de xerelete, de truta, de linguado e de arenque), as ovas de tainha, a conserva de berinjela, o alho espanhol no azeite, a linguiça ao vinho tinto, as caravelas de bacalhau (uma salada com feijão fradinho, alho, cebola roxa e azeitonas pretas), e as pérolas do mar, reunindo vieiras, polvo, camarões e mexilhões. Isso, para ficar só no lendário balcão refrigerado, com cerca de 60 itens (alguns são finalizados na cozinha, como as linguiças alemães e a morcela, por exemplo). Tremoços, azeitonas, favas, jiló, ovo de codorna, pimenta biquinho, presunto cru espanhol… O balcão da ADEGA PÉROLA é uma festa!


Fiquei me perguntando: por que demorei tanto pra conhecer esse cantinho de paraíso? Afinal, se já tenho uma longa estrada em terras cariocas, como pude não viver a experiência de mergulhar em tanta diversidade de sabor?
Mea culpa, mea maxima culta! Há muitos anos ouço histórias desse lugar, pessoas incontáveis me sugerindo visitá-lo mas, por esse ou aquele motivo, sempre fui empurrando a vontade. Mas eu sabia que, cedo ou tarde, a oportunidade surgiria.
De certa forma, nunca é tarde demais, né? Sempre podemos corrigir um erro, reposicionar uma rota, suprir uma omissão. Por certo, fica ainda mais incrível quando há a possibilidade de compartilhar esse momento incrível, como faço agora, dividindo com todos os meus amigos aqui do ARTECULT a sensação de vivenciar algo que espero há tanto tempo!
Foi só um pequeno aperitivo, pois o tempo era curto, mas suficiente para provar alguns dos famosos acepipes da casa e ter a certeza de que essa foi a primeira – de muitas! – visitas que farei à ADEGA PÉROLA.
Primeiro – e antes de tudo! – vamos dar uma geral pelo famoso balcão refrigerado. De verdade? Ele mais parece um parque de diversões…
Depois, já devidamente instalado em uma das diversas mesas espalhadas pelo pequeno salão, pedi três dos petiscos mais famosos do lugar, para que eu pudesse ter um panorama inicial: o rollmops, o alho em conserva e a vinagrete de polvo.
Começando por uma iguaria que nunca havia comido – um pouco, talvez, por conta de um certo preconceito – o rollmops. Pesquisando, vi que se trata de uma especialidade culinária de origem alemã – “rollen” (rolar) e “mops” (pug/menino gordo) – feita com filé de arenque ou sardinha-laje (opisthonema oglinum), no Brasil – salgado e dessalgado, passando por um processo de cura que pode ser seco ou em salmoura, enrolado em cebola em conserva, temperada com vinagre, sal e especiarias. Na Europa, é um petisco comum, mas no Brasil, tornou-se famoso em locais com forte influência alemã, como Blumenau, e em bares do Sul.
Por certo, a aparência não é das mais convidativas. Por algumas vezes já tive a oportunidade de experimentar, mas, na hora H, recuei. Porém, dessa vez, era praticamente um point of no return… E quer saber? Achei bastante interessante o sabor intenso, ácido, salgado e surpreendentemente equilibrado, perfeito para acompanhar uma cerveja bem gelada.

A porção do alho espanhol em conserva estava divino! Preparado com azeite, pimenta calabresa e especiarias, não possui gosto forte, tampouco o ardor de um alho cru, nem deixa rastros pela boca. É uma conserva muito equilibrada, que não agride. Até tentei saber como é feita, mas a receita é guardada a sete chaves e só experimentando pra ser ter uma ideia… Recomendo muito.

Por fim, o não menos famoso vinagrete de polvo – macio, bem temperado, picante na medida, boa acidez. Com um pãozinho francês pra mergulhar no azeite, fica ainda mais perfeito!

Como disse, essa minha primeira visita serviu para que eu fizesse um delicioso reconhecimento de terreno e uma criteriosa avaliação das opções disponíveis, de forma que me possibilitasse o planejamento de incursões futuras. E realmente atingi meu objetivo, na medida em que, mentalmente, já programei os acepipes que serão degustados das próximas vezes, com riqueza de detalhes.
Para quem ainda não conhece esse clássico botequim carioca, fica aqui a dica. Depois me contem se valeu a pena…
Até a próxima!










