“Tudo lá fora é quintal” – O circo encantando as crianças no SESC

TUDO LÁ FORA É QUINTAL | Renato Mangolin

 

O circo encantando as crianças no SESC

 

Três artistas entram em cena. Confesso: meu primeiro impulso foi de rejeição. O figurino me pareceu básico demais, quase desinteressante. A primeira cena reforçou essa impressão — uma estrutura já conhecida, corpos que sobem, descem, atravessam o espaço. Pensei: “mais do mesmo”. Poderia citar ao menos quatro espetáculos que recorrem à mesma lógica.

Segui assistindo com certo desdém. Até que, de repente, tudo mudou.

E não foi uma mudança gradual — foi um salto. Do tédio ao encantamento. Do inferno ao paraíso.

Ali entendi que o meu olhar, enquanto crítica, já não bastava. Ou melhor: precisava ser reposicionado. Porque, no teatro infantil, existe um critério inegociável — o público. E foi quando olhei ao redor que compreendi. Duas crianças riam. Uma delas levava a mão à boca, tentando conter o riso. Voltei meu olhar ao palco, sorri para mim mesma e pensei: missão cumprida.

A curadoria acertou.

Com um simples tecido, Fábio Freitas nos transporta para outros espaços. E é preciso reconhecer: quando um artista leva suas experiências para o palco com verdade, tudo ganha outra dimensão. Há grandeza nisso. Há presença. É um prazer assisti-lo.

Na sequência, Ricardo Gadelha surge com imagens que nos atravessam, potencializadas pela iluminação precisa de Ana Luzia de Simoni e Guiga Ensa. Falar de Ana Luzia já beira o óbvio — ela raramente falha. Sua luz se movimenta, desenha, cria atmosferas. Em diálogo com os elementos cênicos, transforma o espaço e faz das sombras um espetáculo à parte.

A trilha de Beto Lemos é outro ponto alto. Há consistência, identidade, e uma pesquisa sonora que valoriza ritmos brasileiros, especialmente nordestinos, com sensibilidade e potência. Sua assinatura é reconhecível — e admirável.

E então, a poesia se instala: roupas que dançam no varal, que se encontram, que se enamoram. Uma licença poética conduzida com delicadeza e rigor estético. É nesse momento que o espetáculo me envolve por completo.

Quando os três artistas transformam o tecido em canoa, a cena ganha uma dimensão lúdica e inventiva. Lana Borges, com um pífano nas mãos, conduz esse momento com força e musicalidade. É simples — e, justamente por isso, potente. Não há excesso, há precisão.

As crianças seguem atentas, rindo, conectadas. Não há esforço: a comunicação acontece.

Fábio Gadelha, em sua perna de pau, cria uma figura híbrida — entre bicho e fantasia — manipulando tecidos e rendas com habilidade. Sua presença cênica amplia o imaginário e sustenta a cena com vigor.

A direção aposta, ao final, em uma imagem-instalação que remete a uma árvore — um gesto simbólico que encerra o espetáculo com poesia visual.

Mas o que mais me surpreende é a beleza da simplicidade.

Em tempos em que o teatro frequentemente se aproxima de uma estética excessivamente polida — e, por vezes, estéril —, este espetáculo escolhe o caminho oposto. E acerta. Porque, no fim, o que importa não é o excesso de recursos, mas a capacidade de criar sentido.

As crianças não se importam se falta um detalhe no figurino ou se o “bicho” não tem olhos. Elas querem o jogo, a imaginação, o convite. E eu, naquele momento, estava com elas.

Era isso: um tecido que vira canoa, um pífano que conduz a cena, um corpo que se transforma em criatura.

O simples, quando verdadeiro, é profundamente belo.

Parabéns a todos os envolvidos. Que sigamos explorando essas possibilidades.

Através da linguagem do circo, da dança e do teatro físico, os artistas transformam estruturas de bambu em um cenário vivo e em constante mudança. Entre saltos, giros acrobáticos, Manobras inesperadas, tombos e tropeços dignos de uma infância bem vivida, o espetáculo constrói um universo de jogos, engenhocas e soluções improvisadas.

“Tudo lá fora é quintal” nasce desse encontro entre memória e imaginação, lembrando que aquilo que um dia pareceu imenso talvez seja apenas um simples espaço ao ar livre mas que, quando habitado pela brincadeira, pode se transformar em um mundo inteiro de aventuras.

 

Ficha Técnica:

Idealização e Concepção: Ricardo Gadelha | Direção e Dramaturgia: Adelly Costantini |Artistas Criadores: Fabio Freitas, Lana Borges e Ricardo Gadelha | Assistente de direção: Helena Heyzer | Cenário e Cenotécnica: Dodô Giovannetti | Bambuseria: Dodô Giovannetti e Ricardo Gadelha | Consultoria em Bambuseria: Bambutec, Poema Mühlenberg e Vicente Barros | Iluminação: Ana Luzia de Simoni e Guiga Ensa | Trilha sonora original e direção musical: Beto Lemos | Direção de movimento e preparação corporal: Paulo Mantuano| Capacitação em Arte Corpo Bambu: Poema Mühlenberg | Figurino e adereços: Raquel Theo | Produção executiva: Ricardo Gadelha e Helena Heyzer | Realização: Gadelha Arte Multilinguagem e SESC RJ

Audiodescrição disponível nos domingos dos dias 12, 19 e 26/04 e 03/05.

 

Compras de ingressos:

https://www.ingresso.com/espetaculos/tudo-la-fora-e-quintal

 

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

 

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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