
Oi, pessoal, aqui é o Tanussi Cardoso com a Sextas Poéticas, nossa coluna dentro do Portal artecult.com.
Hoje, pedirei desculpas aos meus leitores e leitoras, e uma licença especial ao meu editor, RAPHAEL GOMIDE, para fazer uma Coluna especial. É que acabo de comemorar meus 80 anos, e gostaria de escrever sobre essa sensação dentro de mim. Então, peço a palavra para agradecer aqui, na Coluna, ao Universo, pela minha existência, como homem, poeta e amigo. Obrigado pela sua atenção.
FLASHES DA HOMENAGEM AO POETA TANUSSI CARDOSO, NA NOITE DE 24 DE FEVEREIRO, NA TABERNA DA GLÓRIA, NO RIO DE JANEIRO, PELA PASSAGEM DE SEUS 80 ANOS. ORGANIZAÇÃO DOS POETAS JORGE VENTURA E MÁRCIO CATUNDA.
CARTA ABERTA AOS AMIGOS, AMIGAS, POETAS, LEITORES E LEITORAS
Permitam-me começar esse abraço, com uma
ORAÇÃO
Ter a gratidão do pássaro:
ele beija o umbigo do vento
que o lança ao ar.
Nasci numa madrugada de um dia 25 de fevereiro do ano de 1946, no bairro de Cachambi, subúrbio do Rio de Janeiro, e, o Criador disse, então: “vá, menino, ser poeta na vida”. E eu, suspenso nos braços de minha mãe Carmen e preso ao olhar do meu pai José, talvez, para desânimo de ambos, entendi a profecia. E, aos 80 anos, continuo tentando não desrespeitar essa ordem divina, procurando dar o melhor de mim.
Um dia, cursei Jornalismo, outro dia, Direito, numa outra estação, trabalhei no Tribunal de Justiça, me aposentei como Escrivão, publiquei 16 livros de poesias, dois deles, no exterior, fiz traduções, recebi prêmios, fui crooner de bailes, escrevi canções, subi em palcos, com grupos de poetas, me diverti muito. Nesse meio tempo, o grande amor surgiu em minha vida, para dezoito anos depois, Deus tirá-lo de mim; mas, por vingança, mesmo chegando aos 80, meus mortos queridos nunca se apartam de mim.
Mas não quero falar disso agora!
Chegar aos oitenta anos é, de certa forma, um privilégio que a vida me concede. E continuar escrevendo, publicando, recitando, pensando, cercado por tantos afetos, é um presente que ultrapassa qualquer contagem de tempo.
Os anos me ensinaram: quanto mais vivemos, mais entendemos que ninguém constrói a própria história sozinho, e eu aprendi cedo que ninguém se escreve sozinho. O poema que assina o meu nome traz, invisíveis, as mãos de tantos outros, além das vozes que me ensinaram que a poesia não mora apenas num livro, mas na escuta, na divergência respeitosa, no riso depois da dor.

MINHAS VOZES
Sou o som de tantas vozes
vindas desde a barriga da mãe,
misturadas ao rio dos meus poetas,
gibis, filmes, peças, músicas,
amores, amigos, vizinhos.
Vozes entranhadas e entrelaçadas
em minha voz: ecos.
Pulsão de afetos
num abismo frágil e sem fim.
Se me tornei poeta, foi porque nunca caminhei só. Houve sempre alguém comigo, me ensinando, me indicando caminhos, me segurando pelas mãos, como a quase totalidade dos que me leem e me acompanham na vida pessoal, nas redes e na Sextas Poéticas, do Portal ArteCult.com, do qual muito me orgulho.
Todos juntos formam uma legião de amor e fraternidade, e nomeá-los seria injusto com os não citados. Vocês são imensos, e eu me sinto muito feliz com essa força. Pois, se a poesia me deu linguagem, a amizade me deu chão; entre perdas, silêncios e cantos, ela foi me tecendo, me costurando por dentro.
Chego aos oitenta, não como quem fecha, mas como quem abre mais uma janela, de carne e memória. E posso afirmar que a poesia — essa companheira inseparável — foi o modo que encontrei de organizar o meu próprio caos.
Escrevi e escrevo para compreender o mundo
e para compreender a mim mesmo.
Escrevo para não endurecer.
Escrevo para agarrar o que não sei.
Aquilo que não cabe em mim, mas que intuo.
Escrevo para possuir o que não vejo.
Alguma coisa movediça feito uma luz intranquila.
Escrevo para o tempo não passar,
mesmo sabendo que, agora mesmo, ele já passou.
Escrevo para agarrar a vida; para ela permanecer.
Aprendi que ser poeta não é apenas lidar com as palavras — é assumir um modo de estar no mundo. É manter acesa a capacidade de se comover. De comover. E isso eu aprendi lendo e convivendo com meus amigos e amigas poetas.
Assim, o tempo, que tantas vezes nos parece implacável, hoje me parece generoso. Ele me deu perdas, é verdade — e com elas aprendi a dimensão da ausência, mas me deu também reencontros, novas amizades, novas vozes, novos sentimentos. Deu-me a oportunidade de continuar acreditando na força da palavra e na dignidade do afeto.
Portanto, não vislumbro esse encontro com o tempo como um ponto de chegada, mas como uma celebração da travessia. Se algo fiz que mereça ser lembrado, foi por ter conseguido ser sustentado por uma rede de amizade e confiança, já que nenhuma trajetória é individual; toda vida é uma obra coletiva.
E, repito, se chego aos oitenta com alguma serenidade, humor e leveza, é porque aprendi que o essencial não está no que acumulamos, mas no que compartilhamos. E, no dia do meu aniversário, o que compartilho com vocês é gratidão. Gratidão ao Universo, ao Buda, ao Gohonzon, ao Daimoku por me acharem digno de ser um poeta querido por muitos que se interessam por poesia, literatura e cultura em nosso país. NAM-MYOHO-RENGUE-KYO.

GRATIDÃO
Algumas pessoas me mataram.
Outras me deram o ar.
Mas, mesmo as que me enterraram
me ensinaram o dom de renascer
nessa lida.
Agradeço a faca e a flor de cada um.
Devo-lhes a vida.
Oitenta anos celebrados com amigos, familiares, poesia e reconhecimento não são apenas uma data: são a confirmação de que a vida foi vivida com intensidade e paixão. E o tempo nos deu a sabedoria de conseguir distinguir, nas coisas essenciais, o valor da plenitude.
Porque, aos 80, se chega rápido,
e fica a ideia da poesia e da morte.
A impressão de que tudo passou
como um empurrão num precipício.
Amigos, amores e a sensação angustiante
de que sobraram palavras e faltaram palavrões.
À altura dos cabelos brancos, fica uma lição:
é preciso chutar o balde!
Sempre há tempo para a desarrumação!
Agradeço, enfim, a meus amigos e amigas, poetas, leitores e leitoras a honra de não me abandonarem. A cada um de vocês, meu muito obrigado, pelo amor e pela generosidade. Pela vida dividida.
Parafraseando RUDYARD KIPLING: “Na minha vida, não escolhi muitas coisas. Boas ou ruins, elas me encontraram, e me tornaram o homem que sou hoje. Porque viver não é controlar o que nos chega, mas entender como lutar para permanecer, dignamente, de pé”.
Porque, como diz o BUDA NITIREN DAISHONIN: “O inverno nunca falha em se tornar primavera”. Portanto, não há tristeza ou dias ruins que perdurem para sempre. Acreditem!
Essa é uma carta de agradecimento, e eu queria muito que vocês soubessem é que se ainda escrevo, se ainda estou aqui, é porque continuo acreditando que a palavra, quando dita entre amigos, não envelhece.
Para terminar, deixo para os que gostam da minha poesia, o pedido abaixo. Muito obrigado. EU AMO VOCÊS!
CARO LEITOR,
procuro as palavras
que me ajudem a morrer menos,
mas o verso sempre se engasga
no veneno que se diz Tempo.
Ainda busco as que neguem
a brancura dos cabelos,
mas a palavra “vida” insiste em rir
no espanto do espelho.
A voz não alcança mais o pensamento
nem o pensamento alcança mais a voz.
Se distanciam a cada dia
no vento dos relógios.
Porém, mesmo que o amor
se esgote em conta-gotas;
ainda que as marcas dos riscos
roam a minha boca;
ou que a pele do corpo se despregue,
no deserto mínimo dos fonemas;
minha mão teima em descrever sonhos,
como nos tempos do cinema.
Assim, caro leitor,
quando se fechar a última cena,
me chame de você
e ― de amigo ― ao meu poema.
Aqui me despeço. Até à próxima Sextas Poéticas! Grande abraço do Tanussi Cardoso.

![]()


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo
com Thereza Christina Rocque da Motta


















Ah Tanussi, que alegria vc tornar público este texto. Fiquei tão comovida ao ouví-lo, a sabedoria nele, as poesias, o testemunho, a humildade, o amor, a inteligência.
Que privilégio nossos caminhos terem se cruzado nessa existência.
Forças estranhas se movem pelo mundo mas sempre acredit que possamos matar as sombras com nosso amor e nossa fé. Ouví-lo aumenta minha fé na beleza, na poesia, na delicadeza de alma e no compromisso que precisamos ter com quem amamos e com os que nos amam.
Parabéns pela linda trajetória de vida! Obrigada por dividir sua poesia conosco.
Muito comovido com suas palavras e com sua presença, minha amiga e escritora querida. Uma honra para mim dividir esse espaço do ArteCult.com com alguém tão inteligente, sensível e poeticamente afetuosa. Muito grato por sua leitura e sua amizade. Grande abraço meu
Meu tio, amo a sua poesia.
Realmente, juntos somos muito fortes mas você é um grande líder espiritual, amoroso e portanto, muito querido por todos.
Mais uma vez, parabéns!!
Saúde! Saúde! Saúde!
Tiane
Minha sobrinha amada, o universo foi muito bom comigo quando fez nossos caminhos se cruzarem nessa mesmo plano. Obrigado por vc existir em mim. Te amo. Grande beijo meu
“Muito boa a coluna nesta sexta dos 80,Tanussi. E ótimos poemas. Grata.” (escritora Lourdinha)
“Parabéns de novo e de novo, uma carta aberta cheia de significados, parabéns pela trajetória e pelas merecidas homenagens. Abraços” (poeta Flávio Machado)
“Meu amor, que texto lindo…emocionada, aqui! Adorando te ler no ArteCult.
Beijo” (poeta CLÁUDIA GONÇALVES)
“Estou lendo aqui. Suas poesias, como sempre, ricas em reflexões de magnânima essência, que nos inspiram a compor. Parabéns por seus 80 anos, e que vc continue com toda essa vivacidade etérea poética.” ( poeta JORGE FURTADO)
“Edição para lá de especial. Lindas palavras, a alegria e a amizade presentes na comemoração do seu niver. Você é demais, querido!!!” (escritora Mércia Leitão)