Quando um de nós se vai (agora que passamos a ir)

Coluna de Márcio Calixto

 

Quando um de nós se vai, é impossível não pensar em tudo o que se deixará de ser feito. Com a morte de Whiltney, não deixei de medir o tempo de vida que ainda há de se desfrutar. Agora que passamos a partir, nossa geração começa a ver suas velas se apagarem. Aos pouquinhos, elas vão se decaindo uma a uma, sem opção.

Resgato leituras. Eu penso em Saramago com suas Intermitências da Morte. Na ficção o desejo pelo infinito se retrata e expõe questões éticas que só se percebem na ficção. A vida é infinita. O corpo não. Quando recebi a mensagem de sua partida, chocado ao saber que um dos nossos se foi, vi que a foto em que todos estávamos vai ser a única memória persistente. Pensei em Daiana, ex-esposa dele e minha irmã, aquela que sempre segurou a rebordosa.

Eu pensei nas meninas, Bia e Alícia. Vê-las no enterro do pai foi severo. Sempre as chamei de filhas, apesar de ser pai de uma menina maravilhosa e de dois meninos fantásticos. Era impossível não me suplantar ao espaço do caixão, ao rosto de Whiltney deitado e absorto. O peso do tempo estava ali. Todos os outros também.

Chorei ao vê-lo. Havia muito tempo que não via. Meu retorno com ele era pouco. Principalmente depois da separação. Sempre fui Team Daiana, mas aí é outro papo. No entanto, não significa que eu não pensava e não o queria bem. Era o pai das meninas. Ele deu filhas a Dai e com isso não se negocia. Vê-lo ali não tinha como ficar incólume. Estava morto.

Agora que passamos a ir , é melhor ficar com o pouco que resta e resolver logo o que tem a ser resolvido. Temos que dormir com todas as consciências tranquilas.

 

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto. Foto: Divulgação.



Coluna de Márcio Calixto

 

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

2 comments

  • Calixto, txt maravilhoso!! Embora de uma reflexão tensa e densa …Mas, seja como for, suas linhas continuam afiadas e pertinentes!! Forte abraço…e não esqueça de escrever kkkk

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