
Coluna de Márcio Calixto


Quando um de nós se vai, é impossível não pensar em tudo o que se deixará de ser feito. Com a morte de Whiltney, não deixei de medir o tempo de vida que ainda há de se desfrutar. Agora que passamos a partir, nossa geração começa a ver suas velas se apagarem. Aos pouquinhos, elas vão se decaindo uma a uma, sem opção.
Resgato leituras. Eu penso em Saramago com suas Intermitências da Morte. Na ficção o desejo pelo infinito se retrata e expõe questões éticas que só se percebem na ficção. A vida é infinita. O corpo não. Quando recebi a mensagem de sua partida, chocado ao saber que um dos nossos se foi, vi que a foto em que todos estávamos vai ser a única memória persistente. Pensei em Daiana, ex-esposa dele e minha irmã, aquela que sempre segurou a rebordosa.
Eu pensei nas meninas, Bia e Alícia. Vê-las no enterro do pai foi severo. Sempre as chamei de filhas, apesar de ser pai de uma menina maravilhosa e de dois meninos fantásticos. Era impossível não me suplantar ao espaço do caixão, ao rosto de Whiltney deitado e absorto. O peso do tempo estava ali. Todos os outros também.

Chorei ao vê-lo. Havia muito tempo que não via. Meu retorno com ele era pouco. Principalmente depois da separação. Sempre fui Team Daiana, mas aí é outro papo. No entanto, não significa que eu não pensava e não o queria bem. Era o pai das meninas. Ele deu filhas a Dai e com isso não se negocia. Vê-lo ali não tinha como ficar incólume. Estava morto.
Agora que passamos a ir , é melhor ficar com o pouco que resta e resolver logo o que tem a ser resolvido. Temos que dormir com todas as consciências tranquilas.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto. Foto: Divulgação.


Coluna de Márcio Calixto










Belo texto sobre a finitude e suas consequências. Parabéns!
Calixto, txt maravilhoso!! Embora de uma reflexão tensa e densa …Mas, seja como for, suas linhas continuam afiadas e pertinentes!! Forte abraço…e não esqueça de escrever kkkk