Pequenas Epifanias de um Dia

Coluna de Márcio Calixto

Imagem: Freepik

 

Pequenas Epifanias de um Dia

 

Pleno feriado de junho, de alguma forma pensei muito no meu pai. Hoje, quando dava banho no meu mais novo, que tem pouco mais de um ano, pedi que ajudasse o seu velho a banhá-lo. A naturalidade com a qual eu me chamei de velho levou-me a essa reflexão de memória e saudade. Essa é a forma como ainda o chamo, porém, agora que sou pai do terceiro, passo eu a me chamar de velho.

Poderia levar essa similitude à terapia. No entanto, foi nela que desconstruí a minha semelhança com ele, não deveria ser parte de minha sina de vida resolver questões que são apenas dele. Lembro bem como esse dia foi libertador e fabuloso. O peso de uma âncora se esvaiu. Agora me coloco de novo nesse papel por suscitar que eu me tornei o velho dos meus filhos. É importante frisar que não estou tendo uma epifania negativa. Eu sou o novo velho. Simbiose dos tempos. Olhei para meu menino, esse que em especial se parece fisicamente muito com meu pai e dele sou o velho.

É como substituir o Rei. Mas o Rei ainda está vivo e em seu trono. Me coloco, então, como um príncipe que envelheceu e já sente o peso do tempo, pelas dores nas costas ao dar o banho em meu filho e ao mesmo tempo em que me preocupo em ver o brutal envelhecimento do Rei e da Rainha, esses sim velhos e pesando-se. Ainda tenho 45, 3 filhos. O meu mais novo requer muito do pai dele. Pego-me resgatando a memória de quando meu pai fez 40 anos. Eu o chamando a primeira vez de velho. Ele precisando seguir ao trabalho e nós querendo comemorar seu aniversário.

Era um pouco depois do almoço, meu pai como gráfico de um jornal, trabalhar tarde e noite. Ele que nos levava para a escola, eu e meus irmãos. Essa casa da Ilha do Governador. A casa que eles construíram. Foi ali que tomei gosto pelas artes. Pai arrumado, com sua blusa amarela de sempre, fomos breves em parabenizá-lo. Foi ali que o chamei de velho. O velho que agora sou. Pai de três. Abatido pela guerra da vida. Sou o Velho.

Deveria mesmo levar isso para a terapia. Porém, enxugo meu filho, sua mãe o veste. Ponho fumo no cachimbo e escrevo sobre esse sentimento de ressignificação. O cachimbo é custoso, lento. Vejo que ele também envelhece comigo.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto. Foto: Divulgação.



Coluna de Márcio Calixto

 

 

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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