O PRIMEIRO CONFETE DE 2026

Coluna de Márcio Calixto

IArte – Chris Herrmann

 

O PRIMEIRO CONFETE DE 2026

 

Pleno domingo. Decidimo-nos ir a um bloquinho de carnaval de shopping. Por sermos pais de um meninão de dois anos, era com o que podíamos contar para uma diversão carnavalesca e com crianças. Colocamos todos juntos, minha sobrinha no jogo. Foi ela quem me estreou a esse carnaval. Ela me jogou o primeiro confete. Se em 2025, escrevi uma crônica sobre o último confete, eu precisava comemorar o primeiro em 2026.

Essa era a ideia, aproveitar ao máximo o carnaval. O bloco deu conta de seu recado, divertimo-nos como bem queríamos, rodeado, inclusive, por crianças verdadeiramente folionas. Dava gosto de ver. A galera estava realmente se divertindo no processo. Meu irmão, o mais novo, sempre um turrão fechado, compartilhava da felicidade de Giovanna, que viu na festa a experimentação das catarses mais singulares. Ela, totalmente entregue à folia, moveu nossos risos. Théo também. Ele, que já encanta nosso dia com um sorriso em constância, viu na folia um caminho a mais para explorar sua felicidade em esplendor. Ele amou a festa, amou aqueles pequenos excessos que o carnaval pode dar de margem, foliões andando em perna de pau e vestidos ao gosto explosivo da folia fizeram do encantamento a lembrança mais feliz das possibilidades às crianças. Viramos reféns das fotos, dos confetes, das serpetinas, dos sprays de neve, soltei meu cabelo, que foi o alvo das brincadeiras dos dois. Mais crianças se juntam ao ver o tiozão sentado no chão sendo atacado por aquelas bolinhas de papel. Claro que deixei. Era a nossa festa.

Estar no bloquinho me fez pensar na crônica que escrevi ano passado – e que só esse ano foi publicada – era o tempo correto dela. Se em um banheiro de um apartamento em Petrópolis, depois do fim do carnaval, ainda haver um último confete, era necessário, sim, explodir-me aos primeiros confetes. Fiquei com isso na cabeça – literalmente. Quando Giovanna abriu o saco com os benditos, Théo dando sua primeira mãozada e se farfalhando com o início da felicidade, foi Giovanna quem me inundou com o princípio correto do carnaval.

Chega o dado momento em que devemos trocar as fraldas. A fisiologia impõe limites que não se podem expurgar ali. Era preciso encontrar um banheiro. Lá ressignificamos as nossas crianças a algum espírito de tranquilidade. Elas queriam ir aos brinquedos que hoje os shoppings têm aos montes. Nós também precisávamos recuperar o fôlego. Na troca, quantos confetes se entranharam sob as blusas, as fantasias, as fraldas. Fiquei pensando em meu cabelo, parecia um ninho de mafagafos.

Levamos ainda umas três horas até que elas realmente ficassem sem fôlego às festas. Giovanna recolheu-se ao colo de sua mãe. Eu coloquei Théo de volta no canguru que me adornava. Os dois se seguem à Morfeu, que tem seu relógio marcado cotidianamente ao nosso pequeno.

No banho, eu pude reencontrar-me com alguma dignidade. A roupa era um estrago só, as feridas nominais de minha velhice se adornavam da espiritualidade de meu cansaço, que eu jurava que não viria tão cedo, havíamos combinado uma agenda de blocos com um casal de amigos e conosco, para poder aproveitar a vida como deve ser.

Dormimos horrores. Alma penada era nossa fantasia de carnaval. Viveríamos, dali em diante, uma ressaca de incapacitação e julgamento de desejos que não nos pertenciam. O casal de amigos nos cobrou, “Vamos ou não?”, as fotos que eles publicavam davam o retrato de alguém que toma energético e já tem filho criado. O nosso fez questão de nos deixar claros como temos pouca energia para dar conta dele. Nesse absurdo entre desejo e realidade, vimos o nosso confete de 2026 passar do primeiro ao último com voracidade. Atropelados, curtimos um carnaval infantil. Por sorte.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


Coluna de Márcio Calixto

 

 

 

 

com Chris Herrmann

 

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com Thereza Christina Rocque da Motta

 

 

 

 

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

2 comments

  • Com alegria e narrativa realista do carnaval com crianças espontâneas, curtindo o momento , me senti dentro dessa folia com o calor da emoção, do confete, das situações cotidianas relativas, descritas com muito prazer, sensibilidade e diversão. O autor nos leva ao lúdico e ao encantamento.

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