O canário que há em nós

Foto: Mark Olsen em Unsplash

“O Homem não vê o Universo a partir o Universo. O Homem vê o Universo a partir do seu próprio lugar.”
Milton Santos (1926-2001)

Turismo, em Português, ou “tourism”, em Inglês, é uma palavra originada do francês “tour”, e quer dizer algo como “dar uma volta”, que por sua vez se origina do termo latino tornus, ou seja, movimento ou volta, daí, em Português, poderem ser observadas outras palavras que derivam dessa linhagem filológica como contornar (dar a volta em alguma coisa) ou retornar (voltar ao ponto de origem). Palavras são expressões do que sentimos, designam ações que realizamos, mas como uma espécie de contraparte discursiva e constitutiva, também nos forjam. Aliás, a própria palavra “discurso” igualmente de origem latina, quer dizer “correr, percorrer”; um navio discursa sobre os oceanos, como discursamos sobre a vida, em alvoradas turísticas pelas existências humanas ao longo da História; discursamos por Geografias ao visitar novos lugares. Espaço e não só tempo, são vivências consumíveis, existencialmente.

O que define o que somos e fazemos, tanto individual quanto coletivamente, e também aquilo que diferencia um povo de outro é a cultura, que engendra e consolida seus hábitos e valores, os quais, afinal de contas, o identifica, diferenciando-o de outros povos. Cultura tem origem no termo latino “cultivare” e significa “fazer nascer alguma coisa”. Aquilo que somos e fazemos, socialmente, faz nascer no mundo, por assim dizer, ao longo do tempo, nossos lugares, entendidos como expressões físicas de nossas existências – e lugar, geograficamente falando, é sinônimo de identidade. Mais do que estarmos em um lugar, somos, metafisicamente falando, por assim dizer, o próprio lugar, na medida em que, conforme definição do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), espaço é mais do que um recipiente onde construímos coisas, como o entendia outro filósofo alemão, Immanuel Kant (1724-1804): espaço é uma relação de percepção e de troca, do ser para o mundo e deste, para aquele.

Conhecer outros lugares, que não os nossos, é mergulhar no universo cultural do outro, fazendo-os interagir com o nosso universo e esse processo existencial é altamente enriquecedor em termos de experiências de vida. Vivemos no lugar, mas também somos esse lugar, imbricados de modo indelével. Retomando a ideia de que a palavra faz o Homem e o Homem faz a coisa (salve, Vinícius de Moraes!), quando queremos dizer que alguém conhece muito sobre algum assunto, não dizemos que essa pessoa tem um conhecimento profundo sobre ele? Ou se, por outro lado, nada ou pouco sabe, não falamos que é uma pessoa superficial?

Vivemos um período extremamente delicado, no mundo e no Brasil, de pandemia, de falta de amor à vida, de pouca estrutura social, de desemprego… O mundo humano não pode mais ser o que tem sido, desde há muito e até os dias atuais; o mundo pós pandemia tem que ser reconstruído. No tocante à geração de empregos, por exemplo, há setores econômicos que respondem rápido a estímulos, privados e governamentais; há, no mínimo, três: 1 – área da cultura, especialmente eventos musicais e teatrais; 2 – eventos esportivos e 3 – turismo.

“Ideias de Canário” de Machado de Assis. Edição da Editora Hedra com ilustrações de Luana Geiger.

Viajar é ganhar o mundo, real e metaforicamente e quando se ganha o mundo, as dimensões existenciais, cognitivas e sensoriais se ampliam e se complexificam de tal forma que não retornam mais ao ponto de partida. No conto “Ideias de Canário”, de Machado de Assis (1839-1908), um canário falante, descoberto numa loja suja e maltratada qualquer, por Macedo, é ouvido por ele e só por ele. Macedo quer comprar o canário que, a princípio, não se mostra interessado em sair da loja e da sua jaula, que afirma ser o seu mundo, porém, Macedo o compra assim mesmo, dizendo que ele tinha que ver o céu e o Sol. Ao chegar em casa, Macedo estabelece muitas conversas com o canário e faz uma série de anotações para mostrar à comunidade científica. O canário, entretanto, um dia, foge e é procurado por um bom tempo. Certo dia, num parque, Macedo o encontra e lhe oferece voltar para casa e para a gaiola, para restabelecerem as conversas, porém, o canário recusa, afirmando que, a partir de sua nova experiência, o mundo dele, agora, é o céu, com o Sol por cima.

Na perspectiva aqui adotada, baseada na bela história de Machado de Assis, o Turismo não é apenas um setor econômico, embora também o seja; turismo é mais do que viajar por aí, a esmo, para arejar a cabeça e o coração, não obstante seja essa, também, uma consequência direta de quem faz turismo – e ainda bem que podemos fazer isso (noves fora o momento pandêmico, ainda voltaremos a isso). Turismo é vida, na medida em que é através dele que podemos trocar experiências e belezas, conhecer novos lugares (novas identidades) e culturas variadas; turismo nos faz viver Geografias mutantes pelas Histórias que, tal como belas naves, discursam pelas mentes e corações humanos que viajam, real e metafisicamente, pelo mundo. Na perspectiva aqui adotada, baseado em estudos linguísticos e de Análise dos Discursos Sociais, viver o mundo das letras é constituirmo-nos como seres simbólicos que viajam pelo mundo das ideias e das representações, em turismos metafísicos e discursivos.

Lugar, na Geografia, é sinônimo de identidade. O seu lugar, a sua casa, tem a “sua cara”, tanto quanto, por exemplo, um lugar urbano, uma cidade, tem “a cara” da sua população. Quer dizer, é a cultura social que dá aos lugares, as suas feições e trejeitos, por assim dizer. Limitarmo-nos, apenas, ao nosso lugar, é fecharmo-nos para a vida em sua maravilhosa diversidade. Vemos o mundo a partir do nosso lugar, como nos mostrou o Geógrafo Milton Santos, mas é necessário conhecermos, real e simbolicamente, fisicamente ou por meios digitais, outros lugares para que possamos perceber o quão pequenos somos em relação ao Universo, mas o quão grandes somos, em relação a nós mesmos. Ou o quão grandes e importantes deveríamos ser! O mundo deverei ser o nosso lugar em comum, a ser preservado e não destruído. Viajemos! Real e remotamente. Depois de fazer um “tour”, retornamos ao ponto de origem, mas diferentes de quando saímos dele. Eis a beleza das voltas que o mundo dá, e que nós damos, nele e por ele – daí a necessidade de o preservarmos e de nos preservarmos. Voemos como um canário machadeano!

Carlos Fernando Galvão, Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana, cfgalvao@terra.com.br

Ele é autor dos livros “Revolução em Lagoa Linda”  e  “Rasante na Beleza Carioca“.

 

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Carlos Fernando Galvão é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 120 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil (atual colaboração), também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Além deste, o autor publicou outros 9 livros, textos acadêmicos e literários.

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