
Coluna de Chris Herrmann

Arte Digital: Chris Herrmann
OLHOS DE NUVEM
“Meus olhos de nuvem aprendem a chover brilho:
porque até a noite mais densa precisa de um pouco de purpurina para continuar.”
Chris Herrmann
MEUS OLHOS DE NUVEM
Meus olhos de nuvem
não sabem ficar.
Acumulam céu demais
e depois transbordam.
Sou feita de vapor e memória,
de tudo o que quase foi.
Carrego tempestades pequenas
em silêncio
: como quem aprende a chover por dentro
sem fazer barulho fora.
Há noites em que escureço inteira.
A cidade dorme,
mas meus pensamentos cintilam:
purpurina líquida
caindo sobre o que doeu.
Chorar também é verbo brilhante.
A lágrima afina o olhar,
lapida o pesar,
faz do pesar um lugar
onde ainda é possível morar.
E quando penso que me desfaço,
que viro névoa no vento,
descubro: nuvem não termina
: reinventa o firmamento.
Meus olhos aprendem o segredo da altura
: até a noite mais escura
precisa de brilho
para sustentar sua própria estrutura.
NUVEM
quando eu era criança
dizia que a nuvem
era uma mulher
silenciosa
hoje penso no plural
são mulheres
que observam tudo
que acontece
sem perder o ritmo
de seguir em frente
quando desrespeitadas
são trovões
que desafiam cinismos
são raios
que não aceitam
más energias
em seus passos certeiros
estão sempre em movimento
suas maiores mudanças
muito antes do tempo
de quando eu era criança
são por dentro
embora suas cores
sejam diversas
o sol insista em comandá-las
e de versos seja a lua
há momentos
que elas choram
e me molham
como se eu estivesse
sem guarda-chuva
nua, andando
por uma rua qualquer
ANOITECENDO
costurava o poema
a tarde crepom
ressentia tons
texturas
do amor tecido
ao reler
reparei nervuras
cortei as rebarbas
cerzi, morri
dei arremates
fui anoitecendo
linha a linho
com ele saindo
sorrindo
entre os dedos
quando nasceu
me trouxe nuvens
pérolas de chuva
bordadas
em meus olhos
só ele e eu
eu comovida
nosso leito aberto
ele amanhecendo
inundado
no meu peito
A CHUVA
Chove lá fora. Chego até a porta do quintal e penso o quanto ela diz ou parece me dizer sem que eu pergunte. Uma sinfonia de pingos. Ora triste, ora alegre. Alimento ou lamento. Dançam os índios. Dança Gene Kelly. Dançam as árvores e as flores. Dançam os bichos. Chuvas de felicidade, sim, mas e as de pranto? Choram as nuvens, as mães que perderam seus filhos, as esposas que perderam seus maridos na guerra. Chora o mar dos homens que lutaram na Marinha, dos que morreram nos navios e submarinos de guerra. Choram os que foram feridos, magoados, roubados, enganados. Choram os que perderam seus amores ou os que nunca tiveram. Choram os que não têm o que comer e os que perderam a esperança. Choram os que estão doentes, sem cura. Uma enxurrada de lágrimas cobrindo a terra. As ondas da vida. Renovação e melancolia. Uma lua regulando as marés. Pingos de chuvas salgadas escorrendo pelos olhos bucólicos da guerra diária pela sobrevivência. Uma sinfonia de pingos, com e sem is. As chuvas também formam um oceano na gente. E eu choro.

Autora: CHRIS HERRMANN
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Chove, cintila, relampeja…é o feminino, é a essência humana, é a renovação. Danço contigo, Chris, levada pela sua poesia, bela, etérea e que diz tanto do real.
Que comentário lindo, Ana! Adorei sua leitura. Obrigada, querida.