
Luis Turiba. Foto: Rose Araújo
Nosso querido amigo e colunista da editoria AC LITERATURA, o poeta e jornalista Luis Turiba, morreu aos 76 anos, em Salvador, nesta quarta-feira (26/08/2026).
Nascido em Pernambuco, Turiba construiu uma trajetória marcante no jornalismo, na literatura e na vida cultural brasileira. Radicado em Brasília desde o fim da década de 1970, tornou-se uma das vozes mais atuantes da cena cultural da capital federal, recebendo, em reconhecimento à sua contribuição, o título de Cidadão Brasiliense.
Ao longo da carreira, trabalhou em importantes veículos da imprensa nacional, entre eles O Globo, Manchete, Gazeta Mercantil, Jornal de Brasília e Correio Braziliense. Seu trabalho foi reconhecido com dois Prêmios Esso de Jornalismo. Também exerceu funções no Ministério da Cultura e participou de iniciativas ligadas aos Pontos de Cultura durante a gestão do então ministro Gilberto Gil.
Natural de Recife, mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro, cidade onde foi criado e que costumava definir como responsável por sua formação humana e cultural. Na juventude, participou do movimento estudantil durante a ditadura militar. Integrante do grêmio de uma escola técnica, foi perseguido após a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Entre os 17 e 18 anos, acabou preso pela Polícia Militar. A pena inicial de seis meses foi ampliada para nove, período que antecedeu sua libertação. Em 2024, recebeu anistia política da Comissão de Anistia e um pedido oficial de desculpas do Estado brasileiro pelos abusos sofridos durante o regime militar.
Paralelamente à atuação jornalística, Turiba desenvolveu uma sólida carreira literária. Sua obra poética destacou-se pela experimentação estética e pela investigação das relações entre palavra, imagem, forma e conteúdo. Entre seus livros estão Kiprokó (1977), Clube do Ócio (1980), Luminares (1982), Cadê? (1998), Bala (2005), Meiaoito (2010), Qtais (2014), Inocentes Eróticos (2016) e Desacontecimentos (2019). Foi também criador da revista experimental Bric-a-Brac, publicação que reuniu poesia, artes visuais, fotografia, ensaios e entrevistas, deixando uma contribuição singular para a cultura brasileira.
Em junho de 2024, Luis Turiba passou a integrar o time de colunistas do ArteCult, estreando com o texto “A Poética da Memorabilia”. Desde então, compartilhou reflexões, memórias e sua sensibilidade poética com os leitores do portal.
Nos últimos anos, enfrentava problemas de saúde decorrentes da covid longa e de insuficiência cardíaca. Sua partida deixa uma lacuna na literatura, no jornalismo e na cultura brasileira, mas sua obra e sua trajetória seguirão inspirando leitores, artistas e comunicadores de diferentes gerações.
RAPHAEL GOMIDE
Fundador e Diretor-Geral ArteCult.com
CITAÇÕES SOBRE LUIS TURIBA
“Grande perda, de um amigo querido, e de um ativista cultural de primeira linha, além de excelente poeta. O Brasil morre, também, um pouco.” (Tanussi Cardoso. Escritor, poeta, colunista da editoria AC LITERATURA do portal ArteCult.com)
“Perdemos mais que um jornalista e escritor. Perdemos um grande amigo e pensador, que focava o trabalho literário nas questões sociais. Sua luta democrática não foi em vão. Valeu, Turiba!” (Jorge Ventura. Escritor, poeta, jornalista, publicitário, ator e colunista da editoria AC LITERATURA do portal ArteCult.com)
“Triste notícia. Meu poema Sacrifícios foi inspirado no poema dele “Meninos de Gaza.” (Paulo Reis. Escritor e poeta)
“Que Deus o receba em Seus bric-braços e console os familiares e amigos.” (Rose Araujo. Escritora, poeta, designer, fotógrafa e colunista da editoria AC LITERATURA do portal ArteCult.com)
“Uma notícia muito triste. Que ele descanse em paz e sua família e amigos próximos encontrem forças nesse momento de dor.” (Chris Herrmann. Escritora, poeta, editora, jornalista cultural, designer, musicista, musicoterapeuta e tradutora)
SOBRE LUIS TURIBA

Video de Luis Turiba no ArteCult no qual recita o seu poema “Os Inocentes de Gaza“
Pernambucano, carioca, brasiliense, planetário. Rubro-negro e mangueirense. Pai de cinco filhos, avô de cinco netos. O brasileiro Luiz Artur Toribio, conhecido no universo poético como Luís Turiba, inventou e editou a partir de 1985 – ano da eleição de Tancredo Neves/José Sarney para presidente e vice da Abertura Democrática – o primeiro número (1) da revista de invenção poética Bric-a-Brac.
Ao longo dos anos 80 e 90 foram confeccionadas seis edições com uma média de 100 páginas e tiragem nunca inferior a mil exemplares, que saíam anualmente com poemas textuais e gráficos; ensaios fotográficos e entrevistas que se fizeram históricas com Augusto de Campos, o bibliófilo e acadêmico José Mindlin; o cantor e compositor Paulinho da Viola; o poeta pantaneiro Manoel de Barros – entrevista feita com trocas de cartas ao longo de seis meses e resultou em 15 páginas na revista -, além da psiquiatra Nilse da Silveira, do babalorixá franco-baiano Pierre Verger; e uma visita-entrevista a Caetano Veloso com a presença de Augusto de Campos. A Bric-a-Brac era editada coletivamente por Luis Turiba, João Borges, Lúcia Leão e o extraordinário designer Luis Eduardo Resende, o Resa, com seu traço inconfundível. A última Bric foi editada em Belo Horizonte em 2022, uma celebração ao centenário da Semana de Arte de 22 com um artigo histórico de Augusto de Campos comentando as relações do grupo Noigandres com os modernistas Mário e Oswald de Andrade.
Mas afinal, quem foi Luís Turiba? Jornalista e poeta, cronista da vida do brasileiro comum, Turiba era pernambucano do Recife, “cidade pequena, porém descente”, terra de Manuel Bandeira, João Cabral de Mello Neto, Capiba, Luiz Gonzaga e Chico Science. Aos 23 anos, iniciou sua carreira de Repórter no jornal O Globo e depois na editora Bloch/Manchete. A convite, mudou para Brasília, onde foi trabalhar na sucursal do jornal Gazeta Mercantil, editor de Matérias Primas, onde teve a oportunidade de cobrir e conhecer obras e projetos do chamado “Brasil Grande”, como a Transamazônica e o garimpo de Serra Pelada, e outras na região amazônica. Em Brasília, como repórter, ganhou alguns prêmios, entre os quais destacam-se dois Prêmios Essos: um no Jornal de Brasília, contando detalhes de um encontro do seu estagiário Renato Manfredini (no Jornal da Feira do Ministério da Agricultura), o Renato Russo da banda Legião Urbana, com o então todo-poderoso ministro da Agricultura Delfim Neto.
O outro Prêmio Esso foi no Correio Braziliense, com uma cobertura coletiva sobre as áreas públicas brasilienses que estavam sendo legalizadas para a construção de condomínios residenciais para residências de altos funcionários e militares que serviram à ditadura militar. Teve experiências no Jornalismo Político, na Assessoria de Imprensa da Câmara dos Deputados, durante a Assembleia Constituinte que formulou a Constituição de 1988. Na ocasião, assistiu do plenário da Câmara dos Deputados, a famoso discurso do jovem líder indígena Ailton Krenak, que falou vestindo um terno branco e pintando o rosto com pasta preta de jenipapo.

Luis Turiba em Brasilia. Foto de Rose Araujo.
Cobriu toda a campanha das Diretas Já e a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral para a presidência da República em 1985. Na ocasião, Tancredo criou o Ministério da Cultura e convidou para ser seu ministro o deputado mineiro José Aparecido. Anos depois, com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para presidente, Turiba foi convidado para ser Assessor de Comunicação do MinC na gestão de Gilberto Gil, entre 2002 e 2005. Editou um pequeno livro sobre a política do “Do-In Antropológico”, os Pontos de Cultura e os discursos programático do compositor de “Domingo no Parque” à frente do MinC.
Em 2003, produziu os documentários “Gil na ONU” e “A Capoeira no Mundo”, com um programa mundial para a Capoeira. Ambos foram editados em DVDs com o apoio da Natura. Paralelamente à sua carreira de repórter/jornalista, publicou livros de poesia no Rio e em Brasília. Estreou com “Kiprokó”, em 1977, e depois o destaque ficou por conta do premiado “Cadê”, que venceu o Prêmio Candango de Literatura, em 1998. Voltou a morar no Rio de Janeiro em 2010, quando se aposentou do jornalismo.
No Rio, publicou três livros de poesias pela editora carioca 7 Letras: “Quetais”, em 2014; “Poeira Cósmica” e em 2020, o “Desacontecimentos”, em 2022.
Desde 2023, escrevia um romance jornalístico-poético com suas experiências pelo mundo político com histórias vividas no histórico ano de 1968; a prisão pelo DOI-Codi em 1972; a abertura democrática e a Constituinte de 1988; a eleição de Tancredo/Sarney no Colégio Eleitoral; a eleição de Lula em 2002; o retrocesso provocado pela eleição do direitista negacionista que tentou um atrapalhado golpe de Estado em 2023. Título do livro que seria editado : “VIVA ZÉ PEREIRA; Aventuras e Desventuras de uma geração”. Ele já avisara: “o livro será um calhamaço de mais de 400 páginas, um rico material iconográfico e as dez principais entrevistas culturais que fiz na minha carreira e pelo menos 100 poemas inseridos na sua narrativa.”
Coluna de Luis Turiba no ArteCult.com










Grande perda, de um amigo querido, e de um ativista cultural de primeira linha, além de excelente poeta. O Brasil morre, também, um pouco.
Perdemos mais que um jornalista e escritor. Perdemos um grande amigo e pensador, que focava o trabalho literário nas questões sociais. Sua luta democrática não foi em vão. Valeu, Turiba!