Forças armadas nunca mais!

Arquivo pessoal.

Nunca quis escrever sobre as experiências que vivi durante o serviço militar. Não gosto de ficar remoendo os momentos menos agradáveis do meu passado. Certo que às vezes me surpreendo com a mão na lama (por que agi daquela maneira? por que disse aquilo? por que fiquei calado naquele momento?), mas não gosto.

E tudo teria ficado ali, fechado naquela caixinha, se não fosse essa história de comemorar o golpe de 64. Não gosto! Detesto! Mas sou obrigado. Tenho a obrigação moral de contar o quanto servir o exército brasileiro me decepcionou, com a esperança de que este texto seja lido por algum adolescente patriota.

Um aviso: não esperem que eu romanceie as minhas recordações verde-oliva. O ano em que vivi como policial do exército foi tudo, menos digno de um romance. Vou exorcizar as minhas recordações, vomitá-las, e, para não dizerem que tenho tendência a só me lembrar dos maus momentos, também vou escrever aqui algumas boas recordações.

Voluntário: Incentivado pelos filmes do Rambo e até mesmo pelo clássico Platoon, sonhava em ir para o meio da selva matar inimigos. E na primeira linha! Tanto é que, logo da minha inscrição, quando me enviaram para a escola de tenentes, disse ao sargento que havia ocorrido um mal entendido e que eu estava ali para ser paraquedista. Ele debochou da minha falta de ambição e me enviou para Deodoro. Não passei no teste físico dos coturnos marrons e terminei na Tijuca, na rua Barão de Mesquita, no quartel da Polícia do Exército.

No dia do engajamento, um tenente apareceu na frente da futura tropa e nos pediu para que escolhêssemos quem deveria servir: um soldado que já estava conosco e que tinha o meu sobrenome, Bustamante, ou o filho do Gilberto Gil, quem ainda não tínhamos visto.

– O filho do Gilberto Gil! – gritamos em uníssono, talvez por acreditarmos que a vida já tinha sido boa demais com uma pessoa que nem conhecíamos.

Assim, o tenente liberou Barrabás.

Arquivo pessoal.

Primeiro mês: Foi o melhor mês do meu serviço militar. Era para aquilo que eu estava ali. Aprendi a atirar, fiz novos amigos, ganhei estrutura muscular e acampei durante quase uma semana no meio do mato. Dias de frio. Voltei para casa rouco e acreditei que havia me tornado alguém especial.

Segundo mês: Durante o segundo mês, fiz um teste para entrar para a segunda seção da PE como desenhista, algo que, aparentemente, parecia ser uma boa ideia. Na segunda seção, eu poderia me vestir como civil e teria mais dias de folga, ou seja, já começava a procurar maneiras de aliviar as minhas obrigações militares.

Como desenhista, eu participaria de perícias criminais. Quando acontecia algum acidente envolvendo ou viaturas miliares, ou militares, a equipe de dia era chamada para registrar o ocorrido – um sargento, um motorista, um fotógrafo e um desenhista –, e eu, como desenhista, teria como obrigação tirar medidas e desenhar a cena do crime (ou do acidente).

Outro desenhista entrou comigo para a segunda seção naquele ano: SD Alexandre. Hoje é professor de arquitetura e foi o meu melhor amigo durante o serviço militar. Cara incrível! Ainda estamos em contato.

Terceiro mês: A partir do terceiro mês, compreendi qual seria a minha missão nos próximos 10 meses: fazer faxina, tirar plantão e calar a boca diante de cabos e sargentos amargos e frustrados. Já a partir do terceiro mês, comecei a contar os dias para a minha baixa, riscando tracinhos nas paredes de minha célula espiritual.

Quarto mês: Um dia estava de plantão, e o telefone tocou. Era a esposa do cabo A., e, como eu sabia que o cabo A. exigia que o encontrassem se sua esposa lhe telefonasse, pedi para alguém ficar na portaria da seção no meu lugar e fui atrás dele, na cantina, nos dormitórios, no ginásio. Não o encontrei. Disse a tal esposa que não o havia encontrado.

Quando o cabo A. finalmente apareceu e soube que sua esposa havia telefonado, ele quis a minha cabeça. Foi chorar o ocorrido para o sargento do dia – um sargento que havia participado do antigo DOI CODI – que me mandou chamar.

Coloquei-me em posição de sentido na frente do sargento, e o cabo A. ficou de lado, sorrindo e com a esperança de que eu fosse punido.

– Bustamante, por que você não chamou o cabo A.?

– Sargento, eu procurei o cabo A. em todos esses lugares. Em tal lugar, em tal lugar, em tal lugar. Lamento. Eu estava de plantão e não podia me afastar muito da portaria.

– Puxa, peixe! Na próxima vez, procure mais.

O cabo A. ficou revoltado por ver que eu sairia ileso.

Quinto mês: Eu estava jogando tênis. Não estava me saindo mal. Infelizmente, no meio do público, alguém começou a gritar o meu nome diversas vezes, o que começou a estragar a minha concentração: “Bustamante! Bustamante!”. Eu continuei jogando, mas a pessoa foi tão insistente que acabei acordando. Eu estava sentado no banco da portaria da segunda seção. Eram 3 horas da manhã.

No fundo do longo corredor do primeiro andar da segunda seção, vi o sargento D. em pé e de cueca.

– Oh, Bustamante! Você estava dormindo?

Levantei com um pulo e passei o resto do plantão sem me sentar, de saco cheio e cansado, certo de que na manhã seguinte, como em todas as manhãs depois de um plantão, lavaria de novo o sinistro banheiro dos sargentos.

Sexto mês: Eu estava de plantão no dia em que a república completou 100 anos, e, mais uma vez, fomos chamados para registrarmos uma ocorrência. Naquele dia, um soldado que estava de plantão na frente do Comando Militar do Leste se matou com um tiro de fuzil no peito, e a única preocupação do sargento foi olhar para os prédios em volta e se certificar de que não havia nenhum jornalista fotografando.

Sétimo mês: O Gil era um cara maneiro. Não bebia, não fumava, não usava droga. Era músico como o pai. Vivia com um sorriso no rosto.

Voltando de um show que tinha dado com o Gil pai em São Paulo, ele perdeu o controle do carro e saiu da estrada.

Importante afirmar que ele só estava conduzindo àquela hora porque teria de tirar um plantão no dia seguinte.

O carro bateu numa árvore, e Gil entrou em coma, morrendo alguns dias depois.

Conta a lenda que o comandante do batalhão ligou para a família do Gil para oferecer uma cerimônia com honras militares e que a sua mãe mandou o comandante enfiar a cerimônia na bunda.

Oitavo mês: Festa junina e eu estava de novo de plantão. Durante a festa, um soldado da minha companhia foi trazido para o nosso edifício de dois andares – que era também onde ficava a prisão – por ter sido pego fumando maconha dentro dos muros do quartel.

A primeira coisa que ele teve de fazer foi ficar de cueca; a segunda, entrar na sala do capitão onde os soldados mais antigos da seção, alguns cabos, alguns sargentos, um tenente e o próprio capitão se reuniram para interrogar o detido. Seria uma longa noite para vários dos meus companheiros de alistamento.

De onde eu estava, eu apenas pude ouvir gritos e tapas, e, daquele momento em diante, novos detidos não pararam mais de chegar. Todo mundo tendo de ficar de cueca e de cara para a parede, para entrar, um por um, na sala do capitão.

– É melhor pararmos de interrogar – escutei o tenente dizer a um sargento quando passaram por mim. – Caso contrário vamos acabar tendo de prender o quartel inteiro.

O único ato positivo que pude fazer naquela noite foi avisar à namorada de um camarada que ele havia sido preso e que ela teria de ir embora para casa sozinha. Ele conseguiu me pedir isso antes que um soldado das antigas gritasse comigo para que eu não falasse com os detidos.

Nono mês: Durante todo o ano, participei de diversas ocorrências: acidentes envolvendo viaturas militares, militares assassinados, e, naquele mês, mais um suicídio ocorreu. Daquela vez, entretanto, o infeliz soldado apontou o fuzil para a cabeça. O fuzil estava no automático e, quando é assim, ao menos três tiros saem pela culatra.

Eu fui designado para revistar os bolsos do soldado.

Décimo mês: Dez plantões, dez faxinas, dez banheiros e trinta maços de cigarro, um vício que adquiri no quartel e do qual só consegui me livrar cinco anos depois.

Décimo-primeiro mês: Havia um soldado da minha companhia que já tinha sido detido várias vezes e até mesmo preso por insubordinação. Duas vezes tinham ido buscá-lo em Niterói simplesmente porque ele não tinha aparecido no quartel. Faltava-lhe vontade.

Eu estava de plantão quando, durante uma pausa, diante dos dormitórios da nossa companhia, ele me disse que queria fugir de novo e que precisava de mim. Sua ideia: ele viria conversar comigo quando eu estivesse na portaria da minha seção – dali seria mais fácil tentar sair do quartel – e dali iria direto para as portas que levavam à rua, como se nada estivesse acontecendo. Aceitei.

Duas horas mais tarde, o já conhecido cabo A. entrou pelas portas da segunda seção e veio na minha direção.

– Bustamante! O que você estava conversando com o J.

Raciocínio rápido, e criei um personagem, alguém que iria pensar que J. havia se matado.

– Nada. Contudo ele estava estranho.

– Estranho como? O J. fugiu.

Ação!

Deixei os meus ombros caírem, e os meus traços faciais mostraram alívio. “Ah! Isso?!”. Não precisei dizer mais nada. O cabo havia acreditado na minha cara de “ainda bem que ele não se matou”. Tanto é que, quando um dos tenentes da companhia entrou pela porta e perguntou onde estava o soldado que havia falado com o fugitivo, o cabo A., que teria tido muito prazer em me enviar para um buraco, disse:

– É aquele ali, mas eu já falei com ele e ele não sabe de nada.

1 ano: Foi o mês mais longo do ano. Como eu era um dos dois desenhistas da segunda seção – um plantão a cada três dias –, não pude sair na primeira baixa. Os desenhistas criminais da PE normalmente tinham de esperar pelos novos recrutas. E como foi horrível ver mais da metade do batalhão partir e saber que ainda teria de aturar tudo aquilo mais um mês, mais um longo e desgastante mês.

1 ano e um mês: foi um dos dias mais felizes da minha vida. Eu estava livre, era jovem e tinha enfim uma posição formada sobre as forças armadas: nunca mais!

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Nascido no Rio de Janeiro, em 11 de janeiro de 1971, André Carretoni cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenho, faz cursos de teatro e de cinema até que, aos 27 anos, graças aos seus conhecimentos de informática, dá uma reviravolta em sua vida e parte do Brasil, à procura de novas experiências. Vive por seis anos em Lisboa, faz o Caminho Português de Santiago de Compostela e inscreve-se em um curso de pintura em Florença, onde escreve “Piedade Moderna” e conhece Jannick, que se tornará sua esposa. Vive por dois anos em Lausanne. Escreve “Mais Alto que o Fundo do Mar”, envia contos e crônicas para os sites Tertúlia e Bonjour Brasil e frequenta o Laboratório de Escritura Criativa à Distância do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Geração Perdida, instala-se em Nice e encontra nova fonte de inspiração. Nasce seu filho, Tiziano Carretoni. Publica seu livro “Mais Alto que o Fundo do Mar” em francês (“Plus Haut que le fond de la Mer”), escreve “TELMAH, A Tragédia do Desencontro” e participa da oficina literária da escritora Adriana Lisboa e do masterclass do escritor Bernard Werber. Publica "TELMAH, A Tragédia do Desencontro". É eleito Acadêmico Imortal da Academia Brasileira de Letras/Suíça, cadeira número 4. Em 2021, é convidado a participar do site ArteCult. Segue escrevendo.

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