Festival Palavra Insubmissa: o texto que não se dobra

Imagem: Divulgação

Livraria Mantiqueira realiza Festival Palavra Insubmissa, em São José dos Campos, com Marcelino Freire, Jéssica Balbino, Carol Rodrigues e discotecagem

 

pra ler ouvindo 

insubmissa
(in·sub·mis·sa)

adjetivo feminino

  1. Que não se submete; que não obedece a autoridade, normas ou imposições.
  2. Que demonstra independência de pensamento ou ação; rebelde, indócil.
  3. Que resiste à dominação, ao controle ou à opressão.

substantivo feminino

  1. Pessoa que não se submete; aquela que age com autonomia e recusa sujeição.

Etimologia: do latim insubmissus (in- “negação” + submissus, “submetido”).

A Livraria Mantiqueira em São José dos Campos (SP) promove, neste sábado (11), o Festival Palavra Insubmissa, reunindo alguns dos principais nomes da literatura contemporânea brasileira em uma programação que articula debate, lançamento de livro, formação de leitores e música. O evento propõe um dia inteiro de encontros em torno da palavra como experiência sensível, crítica e transformadora.

 

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A literatura que não se dobra. Penso muito sobre o que significa estar num lugar como o Festival Palavra Insubmissa e, mais do que isso, o que significa sustentar uma palavra que não se curva: nem ao mercado, nem ao medo, nem à expectativa dos outros sobre o que a gente deveria escrever, publicar, performar. Porque não é só sobre literatura, nunca é só sobre literatura, é sobre corpo, sobre história, sobre quem teve a voz interrompida tantas vezes que, quando ela finalmente sai, ela não aceita mais ser podada.

 

Estar nesse festival é, para mim, um pouco como encostar o ouvido numa frequência que eu reconheço de longe: a de quem escreve com urgência, com desobediência, com uma certa recusa em ser domesticada. E talvez por isso faça tanto sentido dividir esse espaço com o Marcelino Freire, que é mais do que uma referência, é uma dessas presenças que atravessam a nossa trajetória de forma concreta, que tensionam a nossa escrita, que abrem caminho. Eu não consigo falar de mim como autora sem passar por esse encontro, sem reconhecer que Porca Gorda também existe porque, em algum momento, ele leu, provocou, acreditou, ajudou a puxar esse livro para fora de mim e para dentro do mundo. E isso não é pouca coisa.

Porque publicar, para quem escreve desde lugares historicamente silenciados, nunca é só uma etapa técnica, é quase um parto atravessado por muitas mãos, algumas que ajudam, outras que tentam segurar. E ter alguém como Marcelino nesse processo é ter uma espécie de autorização que não vem como carimbo, mas como empurrão: vai, escreve mais fundo, não alivia, não negocia o que precisa ser dito.

Para celebrar, terei a honra de ser mediada por Roberto Guimarães, curador do festival e livreiro na Mantiqueira, com quem tenho trocas absolutamente fantásticas sempre que nos falamos, dono de um humor que muito me traz esperança e de uma sagacidade que o mundo precisa.

E junto disso, estar ao lado da Carol Rodrigues é também reconhecer uma linhagem de escrita que me atravessa e me desafia. Carol é dessas autoras que não cabem em leitura rasa, que tensionam forma e linguagem, que fazem a gente lembrar que escrever também é desestabilizar o mundo, inclusive o nosso. Dividir esse espaço com ela é, ao mesmo tempo, conforto e vertigem: conforto de saber que não estou sozinha nessa recusa, vertigem de ser constantemente chamada a ir mais longe, mais fundo, mais radical.

A Palavra Insubmissa, pra mim, não é um conceito bonito, mas prática.

É quando a gente escreve mesmo sabendo que vão tentar reduzir, suavizar, enquadrar. É quando a gente insiste numa linguagem que não pede desculpa, que não traduz demais, que não se explica para caber. É quando a gente entende que a escrita pode ser também um gesto de enfrentamento, um jeito de existir sem negociar a própria complexidade.

Estar nesse festival é, portanto, mais do que participar de uma programação: é reafirmar um compromisso. Com a escrita que me atravessa, com as histórias que eu carrego, com as outras pessoas que também estão escrevendo a partir desse lugar de fricção. É olhar em volta e reconhecer que existe uma rede – às vezes invisível, às vezes frágil, mas profundamente potente – de gente que decidiu não dobrar a palavra.

E eu acho que, no fim, é isso que fica: a certeza de que a gente não escreve sozinha. Mesmo quando o texto nasce no silêncio, ele é atravessado por encontros, por leituras, por vozes que vieram antes e por outras que estão chegando agora. E estar ali, naquele espaço, com essas presenças, é quase como dizer em voz alta aquilo que muitas vezes a gente escreve em segredo: a nossa palavra não vai se curvar. Nem agora, nem depois.

 

Serviço

Festival Palavra Insubmissa

  • Data: 11 de abril (sábado)
  • Horário: a partir das 10h
  • Local: Livraria Mantiqueira São José dos Campos
  • Endereço: Avenida Paulo Becker, 108, no bairro Vila Adyana
  • Entrada gratuita

 


 fora do hype

escrevendo antes que o mundo cale

Imagine uma menina que começou a escrever seu primeiro livro durante o processo alfabetização aos 7 anos e que publicou aos 10? Essa é Inara Solimar, autora da Emó Editora e que iniciou sua carreira literária, publicando o livro “Clube das aventuras e a doença desconhecida” em 2025.

É isso mesmo. Tem uma menina de 10 anos escrevendo um livro de mais de 40 mil palavras e isso, por si só, já deveria ser suficiente para nos desorganizar. Porque enquanto a gente debate bloqueio criativo, procrastinação, falta de tempo, algoritmo, validação e todas essas camadas que vão se acumulando sobre o gesto de escrever, Inara Solimar simplesmente foi lá e escreveu. Começou aos 7, terminou aos 9, e não pediu autorização para existir como autora. Existe. E isso desloca tudo.

O livro, Clube das Aventuras e a Doença Desconhecida, pode até parecer, à primeira vista, uma narrativa juvenil sobre amizade e coragem – e é – , mas também é uma forma muito concreta de entender como uma criança lê o mundo quando o mundo está atravessado por medo, doença, isolamento e incerteza. Não é pouca coisa escrever sobre um grupo que enfrenta o desconhecido enquanto tenta continuar junto. Não é pouca coisa, especialmente quando a gente lembra de onde essa escrita vem: de uma infância atravessada pela pandemia, pelo convívio com a avó, pelo encontro com a leitura como ferramenta de sobrevivência e invenção.

E talvez seja isso que mais me interessa aqui: a escrita como gesto de continuidade. Porque Inara não escreve apesar do mundo, ela escreve a partir dele. Ela pega o medo e transforma em narrativa, pega o caos e organiza em história, pega o invisível e dá forma. São mais de 42 mil palavras que não estão ali só como número, mas como insistência. Como quem diz: eu estou aqui, eu tenho o que contar, e isso importa.

Agora, esse gesto ganha outro corpo: o da publicação. Existe um projeto em andamento para tornar esse livro realidade e também registrar Inara como a autora mais jovem do Brasil a publicar uma obra desse porte. E, sim, tem algo de simbólico nesse recorde, mas o que realmente pulsa é outra coisa: a possibilidade de garantir que essa história circule, que essa voz não seja interrompida, que essa experiência de escrita não fique restrita ao arquivo íntimo de uma criança que ousou criar.

Por isso, existe uma campanha ativa no Catarse, e aqui não é só sobre “ajudar um projeto bonito”. É sobre sustentar um imaginário. Sobre investir numa autoria que nasce fora dos centros de validação, fora das fórmulas prontas, fora do tempo que insistem em dizer que é o certo. É sobre entender que quando uma criança escreve um livro inteiro, ela não está brincando de ser escritora, ela já é.

Apoie o projeto aqui: https://www.catarse.me/ajude_inara_solimar_a_ser_recordista_brasileira_0c46

Doar, nesse caso, é também um posicionamento. É dizer que a gente quer mais histórias como essa circulando, mais meninas escrevendo antes que alguém diga que não é hora, mais livros que nascem do afeto, do medo, da coragem e da invenção. É garantir que essa escrita não pare.

Porque, no fim das contas, enquanto muita gente ainda espera o momento ideal, Inara já entendeu uma coisa que a gente demora anos para reaprender: escrever também é um jeito de existir no mundo sem pedir licença. E talvez o mínimo que a gente possa fazer, diante disso, seja não deixar essa escrita sozinha.

 

 

 

CHRIS HERRMANN
Escritora, musicista, editora, designer.
Editora-chefe Redação e Colunista ArteCult.com

 

 Coluna:
Sarau da Varanda

Author

Chris Herrmann é escritora/poeta, musicista, musicoterapeuta, editora e webdesigner teuto-brasileira, nascida no Rio de Janeiro. Estudou Literatura na UFRJ, Música no CBM e pós-graduou-se em Musicoterapia na Universidade de Münster, Alemanha. Tem 13 Livros publicados (poesia contemporânea, haikai, romance, contos e literatura infantil); bem como participação e organização em inúmeras coletâneas de poesia no Brasil e exterior. Recebeu diversas premiações ao longo dos últimos 20 anos, como escritora, poeta, webdesigner e curadora de sarau. É editora-chefe da revista eletrônica Ser MulherArte (www.sermulherarte.com | @sermulherarte); articuladora do Mulherio das Letras na Lua (Grupo de Poesia ligado ao Movimento Mulherio das Letras); editora do Sarau da Varanda (@sarau.da.varanda) e Arthéria Viva (@artheriaviva) no Instagram. Desde Outubro de 2025, é editora-chefe e colunista do Portal ArteCult (www.artecult.com | @artecult).

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