

Edwin Luisi em ´Eu Sou Minha Propria Mulher´| Foto: Livio Campos
SORTE A MINHA
Sorte a minha por ter acesso a espetáculos como ao que assisti no Teatro Poeira. Sorte a minha por ser acolhida pela JSPontes, por contar com assessores que acreditam na minha escrita. Sorte a minha pelo cuidado e compreensão da equipe do teatro Poeira, que, numa noite de domingo, acolheu meu desencontro — meus ingressos eram para sábado. Sorte a minha, sobretudo, pela existência deste espetáculo e produção dele.
Se, por um lado, uma noiva com um colar de pérolas prende todos os olhares em uma igreja, por outro, há espetáculos que capturam nossa atenção também com um colar de pérolas — e chegam ainda mais fundo: atravessam, com que entendemos artes cênicas.
Ouvi de colegas que eu precisava assistir. E algo dentro de mim sussurrava: “vá”. E eu fui. Para minha sorte, meu encantamento, minha alegria. Assisti a um dos espetáculos mais humanos que já tive a oportunidade de ver.
Meu Deus!
Edwin Luisi
Leio no momento o livro “A Utopia Representada”, de Amir Haddad, nas paginas li que é enfadonho repetir todas as noites a mesma coisa, porque o ser humano nunca é o mesmo. Ele fala sobre atores que se escondem na técnica, que resolvem tudo na inflexão da voz, no gesto calculado, sem jamais se exporem. São vozes de uma atitude morta.
Mas há o outro tipo de artista — aquele que não incorpora, mas expõe. Que não representa, mas revela. Que convida à liberdade e à verdade de um tempo.
Foi exatamente isso que vi em cena.
Há algo de visceral — e uso essa palavra com respeito — na atuação que presenciei. Não pela intensidade vazia, mas por uma beleza profunda, quase espiritual. Não era apenas uma personagem em cena: era um encontro. Era possível sentir aquela mulher.
A peça nos apresenta Charlotte von Mahlsdorf, figura real, nascida em 1928 sob o nome de Lothar Berfelde, que viveu sua identidade feminina em meio à brutalidade do regime nazista. A narrativa se constrói a partir dos encontros com o autor Doug Wright, que, ao investigar sua história, também se transforma.
Charlotte existiu. E, em meio às disputas de poder e político atual e aos ventos violentos da história, vemos uma mulher trans resistindo hoje. Isso tem nos exaurido — mas também nos convoca a análises, as que não me interessam pelo tom de voz e falta de diplomacia dos lados, lamentavelmente.
E então entro no teatro, vejo essa mulher ser trazida à vida com tamanha dignidade, delicadeza e força, que algo em mim se reorganiza. Percebo, com mais nitidez, que há causas que precisam ser defendidas — e Charlotte é uma delas.
O ator a abraça de tal forma que por momentos duvidamos: onde termina a história e onde começa a presença? Saí do teatro certa de que, em meio a tantos conflitos, fui representada. Charlotte deixou de ser um nome distante e se tornou afeto, inspiração, exemplo em tempos sombrios.
O figurino é refinado, sem excessos. A fluidez do tecido transita entre o masculino e o feminino com uma elegância silenciosa. O cenário, composto por pequenas peças, cresce diante dos nossos olhos, ampliado pela presença do ator.
A direção musical nos conduz com precisão ao tempo da narrativa — sem imposição, apenas verdade.
O teatro estava cheio. Em pleno domingo, dia de jogo do Flamengo. Sabe por quê? Porque vale a pena. Porque o trabalho é irretocável. Porque o nível cênico alcançado é raro.
E então, a luz.
A iluminação desenha o espaço com delicadeza: fumaça leve, focos precisos sobre uma mesa, uma penteadeira, o corpo do ator. Há uma cena em que Charlotte se aproxima lentamente da luz — e, naquele instante, fui e voltei do céu algumas vezes. Um gesto simples, um milagre cênico.
Ao iluminador, Aurelio de Simoni, que humildemente se define como alguém que emenda fios e acende lâmpadas, eu digo: você acende tempos. Você ilumina o invisível. Sua luz não apenas revela — ela cria.
A direção de Herson Capri eleva a obra a um lugar de poesia. Há algo de etéreo na encenação, como se estivéssemos lidando com nuvens — mas nuvens que pesam, que carregam memória.
E o texto — ainda que de outro autor — ganha aqui uma nova vida. Há algo de grandioso quando um artista não tenta superar a obra, mas se entrega a ela com verdade. E, nesse gesto, a transforma. Edwin Luisi, para sempre Edwin Luisi…
Tempos de guerra deveriam servir para nos lembrar do que não devemos repetir. Charlotte viveu um desses tempos. Eu gostaria de tê-la conhecido. E, de alguma forma, conheci.
Saí do teatro com essa sensação rara: a de carregar alguém comigo.
Pergunto-me por que trazer essa história agora, sem grandes incentivos, sem garantias. Talvez porque certos trabalhos não pertencem ao tempo — são atemporais. Talvez porque o verdadeiro artista não calcula: ele responde a um chamado. Né Edwin Luisi?
E nós, espectadores, apenas agradecemos.
Que este espetáculo siga seu caminho. Que encontre mais olhos, mais corações. Que mais pessoas possam ouvir o gramofone, conhecer Charlotte — e, quem sabe, apaixonar-se por ela também.
Minha profunda gratidão a todos os envolvidos.
Que essa obra seja como uma aliança: sem começo, meio ou fim — apenas permanência.
Ela estará no Teatro Vannucci no dia 02 de maio até junho, que fique por mais tempo!
https://pt.wikipedia.org/wiki/Charlotte_von_Mahlsdorf
Sobre o espetáculo
“Eu Sou Minha Própria Mulher” é um dos maiores sucessos do teatro contemporâneo brasileiro. Com texto (vencedor do Prêmio Pullitzer) do dramaturgo texano Doug Wright, o solo consagrou-se como um marco na longa carreira de Edwin Luisi, que acumula dezenas de peças, pelas quais já ganhou os prêmios Shell, Mambembe, APCA, APTR, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Quality Brasil de Melhor Ator.
Eu Sou Minha Própria Mulher
- Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo, RJ Tel: (21) 2537-8053
- HORÁRIOS: 5ª a sab às 20h, dom às 19h
- INGRESSOS: R$140 e R$70 (meia) em https://bileto.sympla.com.br/event/115585?share_id=1-copiarlink e na bilheteria de 3ª a sab, das 15h às 20h e dom das 15h às 19h
- CAPACIDADE: 170 espectadores
- DURAÇÃO: 70 min
- GÊNERO: drama biográfico
- CLASSIFICAÇÃO: 14 anos
- ACESSIBILIDADE: sim
- TEMPORADA: até 26 de abril
FICHA TÉCNICA
- Texto: Doug Wright
- Direção: Herson Capri
- Atuação: Edwin Luisi
- Assistente de Direção: Cláudio Andrade
- Cenário e Figurino: Marcelo Marques
- Iluminação: Aurelio de Simoni
- Trilha Sonora: Edwin Luisi
- Fotos: Lívio Campos
- Programação Visual: Lucas Lopes
- Produção: Sergio Saboya e Silvio Batistela
- Produção Executiva: Cláudio Andrade
- Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.









